Edição: 306

Diretor: Mário Lopes

Data: 2026/5/31

Opinião

Maio Não É Apenas o Mês das Flores. É o Mês das Mulheres que Sustêm o Mundo

Cláudia Avelar

Há meses que passam no calendário sem deixar marca. Maio não é um deles. Entre celebrações do Dia da Mãe, homenagens à figura feminina e datas ligadas à saúde e aos direitos das mulheres, este mês obriga-nos a olhar para uma realidade tantas vezes romantizada, mas raramente enfrentada com honestidade: a sociedade continua a depender profundamente das mulheres, enquanto insiste em desvalorizar o seu esforço invisível.

As mulheres são, frequentemente, o primeiro colo, a última resistência e o equilíbrio silencioso de famílias inteiras. Trabalham dentro e fora de casa, cuidam de filhos, pais, companheiros, acumulam responsabilidades profissionais e emocionais e, ainda assim, continuam a ouvir que “conseguem tudo”. Mas a verdade é que ninguém consegue tudo sem pagar um preço.

O problema começa precisamente aí: na ideia perigosa de que a força feminina é inesgotável. Transformámos a resiliência das mulheres numa obrigação social. Espera-se que sejam mães presentes, profissionais exemplares, cuidadoras disponíveis, emocionalmente equilibradas e fisicamente incansáveis. E quando falham, porque são humanas, a culpa “cai-lhes” em cima com uma violência que raramente recai sobre os homens.

O Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher, assinalado a 28 de maio, surge como um alerta necessário nos dias de hoje em que ainda há enormes desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, no diagnóstico de doenças femininas e até na forma como a dor das mulheres é encarada. Estudos internacionais mostram que sintomas relatados por mulheres são, muitas vezes, desvalorizados ou interpretados como exagero emocional. A saúde mental feminina continua cercada por preconceitos e a sobrecarga emocional tornou-se quase uma condição normalizada.

Em Portugal, apesar dos avanços conquistados, persistem desafios evidentes: desigualdade salarial, violência doméstica, dificuldades na conciliação entre vida profissional e familiar e uma cultura que continua a premiar o sacrifício feminino em vez de promover equilíbrio e partilha.

Celebrar as mulheres não pode resumir-se a campanhas publicitárias emotivas ou mensagens bonitas nas redes sociais. É preciso criar condições reais para que possam viver com dignidade, saúde e liberdade. Isso implica políticas públicas mais eficazes, mas também mudanças culturais profundas dentro das casas, das empresas e das mentalidades.

Talvez Maio devesse servir menos para oferecer flores e mais para fazer perguntas incómodas: quem cuida de quem cuida? Porque continua o trabalho invisível das mulheres a ser tratado como uma obrigação natural? E até quando vamos confundir amor com exaustão?

As mulheres não precisam de ser elevadas a heroínas. Precisam, antes de tudo, de deixar de ser obrigadas a sobreviver como tal.

   Cláudia Avelar
Presidente da Federação Distrital de Leiria das Mulheres Socialistas, Jurista especializada em igualdade de género.

Comentários:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Ainda não há comentários nenhuns.