Edição: 311

Diretor: Mário Lopes

Data: 2026/10/14

Segundo o projeto europeu coordenado pela Universidade de Évora/MARE

Alterações climáticas podem “empurrar” lampreia, sável e enguia para norte

Universidade de Leiria e Oeste integra o projeto MARE

A lampreia-marinha, o sável, a enguia-europeia e o salmão passam parte da vida nos rios e parte no mar. É no mar que menos se sabe sobre eles, e é também aí que as medidas de conservação continuam a ser insuficientes. Para preencher essa lacuna, o projeto europeu DiadSea juntou durante três anos investigadores e entidades de Portugal, Espanha, França e Irlanda, sob a coordenação da Universidade de Évora/MARE. Os resultados finais são apresentados na quinta-feira, 15 de outubro, numa sessão pública na Universidade de Évora.

Primeira visão abrangente no Atlântico

O projeto reuniu e harmonizou 42 conjuntos de dados, com mais de 468 mil operações de amostragem, sobre 10 espécies. O trabalho permitiu construir, pela primeira vez, uma visão espacial abrangente da presença destes peixes no Atlântico.

Com base nestes dados, foram desenvolvidos modelos para as 10 espécies até ao final do século. Os modelos preveem que as espécies se expandam para norte e percam terreno nas áreas mais a sul. A reorganização das comunidades é mais acentuada no cenário climático mais severo: perdas a sul, ganho e substituição de espécies a norte e em mar aberto. Estes resultados permitem antecipar que zonas poderão tornar-se mais vulneráveis ou ganhar importância para a conservação, e apoiar uma gestão mais preventiva e adaptativa.

Os modelos mostram ainda que os habitats marinhos mais adequados a estas espécies dependem da distância aos rios que sustentam as populações. Isto reforça a necessidade de gerir em conjunto o mar e os rios, em vez de os tratar de forma separada.

«Estas espécies não conhecem fronteiras, nem entre países nem entre o rio e o mar. Para os proteger, não basta saber mais sobre a sua vida no mar: é preciso que países, instituições, gestores, investigadores e pescadores trabalhem em conjunto», afirma Catarina Mateus, investigadora do MARE-Universidade de Évora e coordenadora do DiadSea.

«Peixe do Mondego»: rastreabilidade na lota da Figueira da Foz

Na lota da Figueira da Foz, o projeto testou o selo de origem «Peixe do Mondego». O selo distingue o sável e a savelha da pesca fluvial no Mondego do pescado capturado no mar ou noutras zonas. Ao tornar a origem reconhecível ao longo da cadeia de comercialização, a iniciativa valoriza um produto local e promove uma pesca mais sustentável. Os operadores da lota continuaram a aplicar as etiquetas mesmo sem a equipa do projeto presente, o que mostra que o sistema pode passar a fazer parte das práticas habituais de venda.

Novas técnicas e cooperação entre quatro países

Para estudar a fase marinha de espécies como a lampreia-marinha, o sável, a enguia-europeia, o salmão e a truta-marisca, o projeto DiadSea recorreu a um conjunto diversificado de técnicas avançadas. Entre elas destaca-se o uso de ADN ambiental, que permite detetar as espécies a partir dos seus vestígios genéticos presentes na água sem a necessidade de as capturar, além da análise genética, da microquímica de otólitos e do recurso à marcação eletrónica.

Os peixes diádromos e as pressões que enfrentam não respeitam fronteiras. Por isso, o projeto criou em junho de 2025 o Observatório Transnacional para a Conservação dos Peixes Diádromos, com representantes dos quatro países. Em setembro de 2025, o DiadSea foi reconhecido como Ação da Década do Oceano das Nações Unidas.

Com o objetivo de levar a ciência ao público e sensibilizar para a conservação destas espécies, o projeto desenvolveu diversos recursos pedagógicos e materiais de divulgação. Entre as iniciativas produzidas destacam-se o jogo de cartas Migro’Ocean, o jogo de tabuleiro gigante “a viagem dos peixes migradores”, uma banda desenhada, vídeos explicativos e ainda um guia de identificação disponibilizado em quatro línguas.

Sessão pública a 15 de outubro

A sessão pública decorre das 09h00 às 17h00, no Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora. Ao longo do dia, os trabalhos abordam a monitorização efetuada em rios, estuários e no mar, as migrações e a conectividade das populações, os impactos das alterações climáticas na distribuição futura das espécies, bem como os desafios da passagem do conhecimento científico para a gestão prática.

Às 16h15 decorre a mesa-redonda “Reforçar a cooperação para a conservação dos peixes diádromos na Europa”, com o MARE, a DGRM, o ICNF e o Office Français de la Biodiversité.

O que são peixes diádromos?

Os peixes diádromos são espécies que realizam migrações entre os rios e o mar ao longo do seu ciclo de vida, representando menos de 1% das cerca de 32 mil espécies de peixes conhecidas em todo o mundo. Dividem-se fundamentalmente em dois tipos: os anádromos, que vivem no mar e sobem os rios para se reproduzir (como é o caso da lampreia-marinha e do salmão), e os catádromos, que nascem e se reproduzem no mar, mas desenvolvem-se e crescem na água doce (como a enguia-europeia). Precisamente por utilizarem e dependerem de ambos os ecossistemas ao longo da vida, estes peixes tornam-se especialmente difíceis de gerir e proteger.

Sobre o projeto DiadSea

O projeto DiadSea – “Cooperação transnacional para melhorar a gestão e a conservação dos peixes diádromos no mar” (EAPA_0011/2022) – é uma iniciativa coordenada pela Universidade de Évora/MARE e cofinanciada pela União Europeia através do Programa Interreg Atlantic Area. Este projeto reúne 9 parceiros beneficiários e 28 parceiros associados provenientes de Portugal, Espanha, França e Irlanda. Em território nacional, conta como parceiros beneficiários com a Universidade de Évora/MARE, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), integrando ainda parceiros associados de relevo institucional, como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), a Docapesca e a Autoridade Marítima Nacional.

Sobre o MARE

O MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – é um centro de investigação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação com competências para o estudo de todos os ecossistemas aquáticos, na vertente continental e no mar. Promove o uso sustentável de recursos e a literacia do oceano disseminando o conhecimento científico e apoiando políticas de desenvolvimento sustentável.

Criado em 2015, integra 8 Unidades Regionais de Investigação associadas às seguintes instituições: Universidade de Coimbra (MARE-UCoimbra), Politécnico de Leiria (MARE-Politécnico de Leiria), Universidade de Lisboa (MARE-ULisboa), Universidade Nova de Lisboa (MARE-NOVA), ISPA – Instituto Universitário (MARE-ISPA), Instituto Politécnico de Setúbal (MARE-IPSetúbal), Universidade de Évora (MARE-UÉvora), Universidade da Madeira e ARDITI (MARE-Madeira).

O MARE integra, juntamente com o CBMA – Centro de Biologia Molecular e Ambiental (Universidade do Minho) e o CIMA – Centro de Investigação Marinha e Ambiental (Universidade do Algarve), o ARNET – Rede de Investigação Aquática, um Laboratório Associado de dimensão nacional que, com 742 investigadores e colaboradores em 11 instituições anfitriãs, se dedica ao estudo integrado dos sistemas aquáticos, desde as bacias hidrográficas ao oceano profundo, promovendo a ligação entre conhecimento científico, políticas públicas e ação no território.

Fonte: LPM

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