{"id":11037,"date":"2021-11-17T22:09:19","date_gmt":"2021-11-17T22:09:19","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=11037"},"modified":"2021-11-17T22:12:16","modified_gmt":"2021-11-17T22:12:16","slug":"a-astronomia-no-tempo-de-d-dinis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2021\/11\/17\/a-astronomia-no-tempo-de-d-dinis\/","title":{"rendered":"A astronomia no tempo de D. Dinis"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_7433\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7433\" class=\"wp-image-7433\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carlos-Fiolhais-Ro\u0301mulo-de-Carvalho-Fotografia-\u00a9-UC-Karine-Paniza-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" \/><p id=\"caption-attachment-7433\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Fiolhais<\/p><\/div>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Quando o rei D. Dinis (1261-1325, rei em 1279) criou, em 1 de Mar\u00e7o de 1290, o \u00abEstudo Geral\u00bb em Lisboa, iniciando o que \u00e9 hoje a Universidade de Coimbra, j\u00e1 o reino portugu\u00eas levava 147 anos. O que se passou de mais importante na astronomia nesse quase s\u00e9culo e meio?<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Ao contr\u00e1rio do que \u00e9 corrente, a Idade M\u00e9dia est\u00e1 longe de ter sido uma \u00abnoite de dez s\u00e9culos\u00bb. A ci\u00eancia astron\u00f3mica foi sempre avan\u00e7ando, embora mantendo a cosmovis\u00e3o aristot\u00e9lica, adoptada por Ptolomeu, na qual a Terra estava no centro do mundo e os cinco outros planetas ent\u00e3o conhecidos \u2013 Merc\u00fario, V\u00e9nus, Marte, J\u00fapiter e Saturno \u2013 circulavam \u00e0 volta da Terra. A Divina Com\u00e9dia, do italiano Dante Alighieri, escrita entre 1308 e 1320 e publicada em 1472, apresenta esse modelo aristot\u00e9lico-ptolomaico, com os planetas em circunfer\u00eancias conc\u00eantricas. Para explicar os retrocessos dos planetas do c\u00e9u, foi preciso criar, ainda na Antiga Gr\u00e9cia, um conjunto de epiciclos, que Ptolomeu incorporou no seu modelo. Epiciclos s\u00e3o pequenas circunfer\u00eancias percorridas por um planeta em torno de um ponto que por sua vez percorre uma grande circunfer\u00eancia em torno da Terra.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">O rei Afonso X de Castela (1221-1284, rei em 1252), cognominado o \u00abS\u00e1bio\u00bb ou o \u00abAstr\u00f3logo\u00bb, que era av\u00f4 de D. Dinis, conhecia bem esse sistema geoc\u00eantrico com os epiciclos. O \u201cS\u00e1bio\u201d apoiou a escola de tradutores de Toledo, um grupo de crist\u00e3os, judeus e mu\u00e7ulmanos que assegurou a transmiss\u00e3o de muitas obras da Antiguidade Cl\u00e1ssica, e mandou instalar um observat\u00f3rio astron\u00f3mico tamb\u00e9m nessa cidade. Foi tamb\u00e9m o compilador das chamadas Tabelas Afonsinas, completadas em 1270, que descrevem as posi\u00e7\u00f5es dos planetas em 1252, o ano da sua coroa\u00e7\u00e3o, e o principal impulsionador dos Libros del Saber de Astronomia, preparados entre 1276 e 1279, portanto pouco tempo antes da funda\u00e7\u00e3o da primeira universidade portuguesa. As duas obras teriam ampla circula\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao Renascimento. \u00c9 famosa uma cita\u00e7\u00e3o muito conhecida, mas ap\u00f3crifa, de Afonso X: \u00abSe o Deus todo-poderoso me tivesse consultado antes da cria\u00e7\u00e3o, eu teria recomendado algo mais simples\u00bb. O facto de o poderoso rei de Castela se interessar pela astronomia revela o alto estatuto dessa ci\u00eancia no s\u00e9culo XIII. Decerto que em Portugal, no tempo de D. Dinis, se conheciam as obras de Afonso\u00a0<\/span><span style=\"color: black;\">X. Segundo alguns historiadores, D. Dinis teria recebido do seu av\u00f4 os Libros del Saber. Mais tarde, D. Duarte (1391-1438, rei em 1433) chamaria, no Leal Conselheiro (1438), a Afonso X \u00abaquele honrado rei astr\u00f3logo quantas multid\u00f5es fez de leituras\u00bb.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Nesse tempo, Astronomia e Astrologia confundiam-se, pois, as posi\u00e7\u00f5es dos planetas serviam para fazer hor\u00f3scopos. D. Afonso IV (1291-1357, rei desde 1325), filho de D. Dinis, tinha na sua corte alguns astr\u00f3logos, como Afonso Dinis, bispo da Guarda e \u00c9vora. J\u00e1 na dinastia de Avis, o rei D. Duarte tinha na sua corte o astr\u00f3logo Mestre Guedelha, cujas indica\u00e7\u00f5es nem sempre seguiu. V\u00e1rias d\u00e9cadas volvidas Frei Ant\u00f3nio de Beja (1493-1517), da Ordem de S. Jer\u00f3nimo, haveria de publicar o seu livro Contra os Ju\u00edzos dos Astr\u00f3logos (1523), onde contesta a profecia de que o fim do mundo seria no ano seguinte. O matem\u00e1tico Pedro Nunes (1502-1578), professor da Universidade de Coimbra, refere-se \u00e0 astrologia uma s\u00f3 vez, no seu livro De Crepusculeis (1542). Diz ele que o seu disc\u00edpulo D. Henrique, futuro Cardeal Rei, \u00abse compraz de modo admir\u00e1vel com a te\u00f3rica da Astronomia, isto \u00e9, da ci\u00eancia que se ocupa do curso dos astros e da universal composi\u00e7\u00e3o do c\u00e9u, que n\u00e3o da crendice v\u00e3 e j\u00e1 quase rejeitada que emite ju\u00edzos sobre a vida e a fortuna.\u00bb Isto, \u00e9 o s\u00e1bio portugu\u00eas faz quest\u00e3o de separar astronomia, a ci\u00eancia dos astros, e astrologia, as previs\u00f5es com base nos astros.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">O primeiro almanaque em portugu\u00eas, traduzido do latim, Almanaque Perdur\u00e1vel para Achar os Lugares dos Planetas nos Signos (c. 1321), sa\u00eddo, portanto no reinado de D. Dinis, serviu de base a previs\u00f5es astrol\u00f3gicas. Contudo, os primeiros almanaques portugueses sob forma impressa s\u00f3 surgiram na segunda metade do s\u00e9culo XV, destacando-se o Almanach Perpetuum (1496), do astr\u00f3nomo judeu Abra\u00e3o Zacuto (c. 1450 &#8211; c. 1522), que seria usado durante as viagens de Vasco da Gama e Pedro \u00c1lvares Cabral.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Um dos eventos astron\u00f3micos que ocorreu entre D. Afonso Henriques e D. Dinis n\u00e3o foi registado na Europa Ocidental, mas sim na China e no Jap\u00e3o: Tratou-se da supernova de 1181, que permaneceu vis\u00edvel na constela\u00e7\u00e3o da Cassiopeia durante 183 dias. Uma supernova \u00e9 uma grande estrela que explode violentamente por n\u00e3o conseguir manter o equil\u00edbrio da mat\u00e9ria no seu interior. S\u00f3 houve nove supernovas observadas a olho nu na nossa gal\u00e1xia ao longo dos tempos hist\u00f3ricos.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">No M\u00e9dio Oriente, a astronomia foi, na Idade M\u00e9dia, cultivada ao mais alto n\u00edvel pelos mu\u00e7ulmanos. O pol\u00edmata persa Naceradim de Tus ou Nasir al-Din al-Tusi (1201-1274) construiu, a partir de 1259. um observat\u00f3rio astron\u00f3mico em Maragha (no actual Azerbaij\u00e3o), que permitiu completar tabelas dos planetas em 1272. Essas tabelas seriam traduzidas para grego no Imp\u00e9rio Bizantino, mas n\u00e3o chegaram ao Ocidente. O tempo da globaliza\u00e7\u00e3o do saber ainda estava por chegar.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Carlos Fiolhais (F\u00edsico)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o rei D. Dinis (1261-1325, rei em 1279) criou, em 1 de Mar\u00e7o de 1290, o \u00abEstudo Geral\u00bb em Lisboa, iniciando o que \u00e9 hoje a Universidade de Coimbra, j\u00e1 o reino portugu\u00eas levava 147 anos. O que se passou de mais importante na astronomia nesse quase s\u00e9culo e meio? 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