{"id":14086,"date":"2022-02-25T16:52:51","date_gmt":"2022-02-25T16:52:51","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=14086"},"modified":"2022-02-25T16:53:00","modified_gmt":"2022-02-25T16:53:00","slug":"o-absurdo-da-guerra-com-goya","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2022\/02\/25\/o-absurdo-da-guerra-com-goya\/","title":{"rendered":"O absurdo da guerra, com Goya"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_14088\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14088\" class=\"wp-image-14088\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Ucrania-Claudia-Ferreira.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"417\" \/><p id=\"caption-attachment-14088\" class=\"wp-caption-text\">Cl\u00e1udia Ferreira<\/p><\/div>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">A que nos referimos quando pesamos os pr\u00f3s e os contras de uma guerra? Ou melhor: ser\u00e1 de facto poss\u00edvel contemporizar com a ideia de adequa\u00e7\u00e3o da guerra ou de uma em particular?<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">A reflex\u00e3o que agora vos apresento foi arquitectada no dia 23 de Fevereiro, durante a tarde, antes mesmo da R\u00fassia iniciar o ataque \u00e0 Ucr\u00e2nia, o que viria a acontecer pelas 6h00 em Moscovo, 3h00 em Lisboa, do dia seguinte: 24 de Fevereiro de 2022 ficar\u00e1 para a Hist\u00f3ria futura como aquele em que se iniciou uma Guerra Mundial. Todavia, na minha vis\u00e3o, a guerra generalizada havia come\u00e7ado no dia 21 deste m\u00eas, quando Vladimir Putin reconheceu a independ\u00eancia das regi\u00f5es de Donetsk e Lugansk.<\/span><\/p>\n<p>Os antecedentes especulativos sobre este acontecimento tr\u00e1gico, seja para a Ucr\u00e2nia, seja para a R\u00fassia, ou para a Europa, e para o Mundo, tamb\u00e9m para a Terra, perdiam-se, na minha perspectiva, nas classes de argumentos que pudessem sustentar uma ofensiva militar: era leg\u00edtimo, ou n\u00e3o, a R\u00fassia avan\u00e7ar contra a Ucr\u00e2nia? N\u00e3o era: n\u00e3o \u00e9. Uma guerra \u00e9 indefens\u00e1vel, sempre: tanto pelo instinto que nos leva a preservar a vida, como porque espiritualmente o humano est\u00e1 designado a transcender, seja perdoando, seja dialogando, seja criando.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o ser\u00e1 razo\u00e1vel pensarmos que a arte nos mune, sempre, de boas met\u00e1foras visuais para o alcance da paz; n\u00e3o se esque\u00e7a que Eug\u00e8ne Delacroix pintou \u201cA Liberdade Guiando o Povo\u201d em 1830, com uma atmosfera de f\u00faria guerreira, e em que a uma ordem \u2013 a do Antigo Regime, deveria suceder outra \u2013 a da Contemporaneidade; mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que Francisco de Goya, entre 1810 e 1815, imprimiu gravidade e dor aos seus\/nossos \u201cOs Desastres da Guerra\u201d, 82 gravuras impiedosas na den\u00fancia do absurdo disso: da guerra.<\/p>\n<div id=\"attachment_14089\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14089\" class=\"wp-image-14089\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Ucrania-Guerra-e-Goya.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"407\" \/><p id=\"caption-attachment-14089\" class=\"wp-caption-text\">\u201cOs Desastres da Guerra\u201d, uma das 82 gravuras de Goya impiedosas na den\u00fancia da guerra<\/p><\/div>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Toda a arte, mesmo se et\u00e9rea, mais conceptual, menos comprometida com o vis\u00edvel a olho nu, \u00e9 feita num tempo preciso e, por tal, responde sempre, mesmo que ningu\u00e9m lhe tenha colocado uma pergunta. E se Jean Genet cria que a arte \u00e9 dedicada aos mortos, o que Pier Paolo Pasolini tamb\u00e9m secundou; e se Maurice Merleau-Ponty, ap\u00f3s Friedrich Nietzsche, claro, reconhecia poder ser consentida ao artista uma irresponsabilidade existencial,\u00a0<\/span><span style=\"color: black;\">digamos assim, que ao fil\u00f3sofo n\u00e3o se perdoaria; tamb\u00e9m \u00e9 certo que, na arte, os artistas, ainda que de olhos fechados, sempre os mantiveram abertos, nem que fossem os da pele, avultando neles essa respira\u00e7\u00e3o, e transpira\u00e7\u00e3o, do Mundo.<\/span><\/p>\n<p>Ou seja, os artistas t\u00eam o corpo na vida e a oficina na arte, uns mais do que outros: mas \u00e9 desta forma, sim. E quando digo artistas e arte claro que me refiro a todos e a todas que nos querem transmitir uma, e \u00fanica coisa: a sua verdade. E a verdade \u00e9 uma constela\u00e7\u00e3o de seres humanos, \u00e9 vibr\u00e1til, \u00e9 aspersora, \u00e9 nuclear, \u00e9 racional. A guerra mata a verdade, como t\u00e3o bem soube Goya ao transmiti-lo na gravura n\u00famero 79 da s\u00e9rie \u201cOs Desastres da Guerra\u201d. Muitos s\u00e3o os outros desastres a que a guerra nos submete ao violentar o humano, ao interromper com viol\u00eancia a frequ\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o entre pessoas, ao castrar correntes ben\u00e9ficas, ao ir directa ao ninho dos cora\u00e7\u00f5es todos, ao ser irracional.<\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">Vamos certamente assistir, agora, a uma dial\u00e9ctica informativa intensa sobre a guerra, mas n\u00e3o existem vencedores nem vencidos nesta hist\u00f3ria: todos e todas perdem, perdemos.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; text-align: start; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; word-spacing: 0px;\"><span style=\"color: black;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <strong>\u00a0Cl\u00e1udia Ferreira<\/strong><br \/>\n(Historiadora &#8211; investigadora do Centro de Estudos Interdisciplinares do S\u00e9culo XX \u2013 CEIS20)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A que nos referimos quando pesamos os pr\u00f3s e os contras de uma guerra? 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