{"id":14812,"date":"2022-03-20T21:46:17","date_gmt":"2022-03-20T21:46:17","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=14812"},"modified":"2022-03-23T12:57:50","modified_gmt":"2022-03-23T12:57:50","slug":"a-defesa-da-democracia-no-mundo-nao-e-opcional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2022\/03\/20\/a-defesa-da-democracia-no-mundo-nao-e-opcional\/","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia: a defesa da democracia no mundo n\u00e3o \u00e9 opcional"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_14816\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14816\" class=\"wp-image-14816\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Mario_Lopes10.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"377\" \/><p id=\"caption-attachment-14816\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Lopes<\/p><\/div>\n<p>A ascens\u00e3o de Joe Biden ao poder da maior pot\u00eancia mundial e o abandono atabalhoado do Afeganist\u00e3o, deixando \u00e0 sua sorte o povo afeg\u00e3o, veio confirmar que a expans\u00e3o da democracia no mundo n\u00e3o era uma prioridade para a Am\u00e9rica nem para o mundo ocidental. N\u00e3o faltaram distintas vozes no mundo, da pol\u00edtica \u00e0 economia, da defesa ao mundo acad\u00e9mico, a afirmar que a \u201cimposi\u00e7\u00e3o\u201d de democracias a povos que nunca tinham experimentado a vida em liberdade n\u00e3o fazia sentido e que cada pa\u00eds devia ter o Governo que entendesse, fosse democracia, fosse ditadura. No fundo, o que realmente importava no mundo era o crescimento econ\u00f3mico e a prosperidade material.<\/p>\n<p>Bill Clinton &#8211; honra lhe seja feita \u2013 fez da defesa da democracia do mundo uma das bandeiras do seu mandato (a ele se deve, por exemplo, em grande parte, a independ\u00eancia e a democratiza\u00e7\u00e3o de Timor), aprofundando ainda mais as pol\u00edticas j\u00e1 iniciadas pelos seus antecessores: Jimmy Carter, Ronald Reagan e George Bush (pai). Contudo, a sua pol\u00edtica n\u00e3o teve continuidade, com George W. Bush e Donald Trump a optarem por vis\u00f5es nacionalistas da Am\u00e9rica e o pr\u00f3prio Barack Obama a ter uma postura pol\u00edtica muito mais passiva no mundo.<\/p>\n<p>Comecemos pelo argumento das diferentes culturas pol\u00edticas dos pa\u00edses. Se n\u00e3o for\u00e7\u00e1ssemos em muitos pa\u00edses do mundo o fim de pr\u00e1ticas culturais ancestrais, como a escravatura, o racismo, o apartheid, a xenofobia, a homofobia ou os casamentos for\u00e7ados, continuar\u00edamos hoje impunemente com estas pr\u00e1ticas que violam os mais elementares princ\u00edpios dos direitos humanos. A verdade \u00e9 que, ainda assim, estas pr\u00e1ticas persistem em v\u00e1rios pa\u00edses, do mundo, mas sob forte censura do mundo livre e das associa\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 totalmente incompreens\u00edvel que tantos pol\u00edticos, governantes e comentadores nos \u00faltimos anos venham defender que a democracia \u00e9 um regime pol\u00edtico opcional, que pode ou n\u00e3o ser adotado pelos povos, dependendo das suas culturas e tradi\u00e7\u00f5es. A queda do regime democr\u00e1tico no Afeganist\u00e3o \u2013 ainda que com todos os seus defeitos e fraquezas \u2013 e a reinstaura\u00e7\u00e3o do regime Talib\u00e3 \u2013 com toda a sua corte de horrores e viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos em nome de uma suposta tradi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica de inspira\u00e7\u00e3o medieval &#8211; foi avan\u00e7ada como a prova definitiva de que as democracias n\u00e3o funcionavam em pa\u00edses do terceiro mundo, nomeadamente, os de tradi\u00e7\u00e3o tribal.<\/p>\n<p>Ora, a maioria dos afeg\u00e3os n\u00e3o \u00e9 diferente dos outros povos do mundo, tem o mesmo ADN de todos os outros seres\u00a0 humanos e n\u00e3o querem viver debaixo de coa\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e tortura. O problema do Afeganist\u00e3o n\u00e3o foi a desadequa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds \u00e0 democracia, foi a falta de um modelo de desenvolvimento sustent\u00e1vel, que desse esperan\u00e7a e prosperidade ao povo, e a interrup\u00e7\u00e3o abrupta e sem justifica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel da experi\u00eancia democr\u00e1tica, que precisaria de mais algumas d\u00e9cadas para se consolidar.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o \u00e9 em 20 anos que se garante uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, saindo de um regime totalit\u00e1rio e de uma sociedade medievalizada, com uma sociedade civil quase inexistente e uma taxa de analfabetismo superior a 50%, sobretudo, entre as mulheres. Como tal, o Afeganist\u00e3o precisava de mais 30 anos de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, com os primeiros pilares a come\u00e7arem a ganhar forma agora, com as primeiras mulheres a sair formadas das universidades e a sociedade civil a crescer. De uma penada, Joe Biden e o seu inenarr\u00e1vel secret\u00e1rio de Estado Antony Blinken destru\u00edram completamente um trabalho de democratiza\u00e7\u00e3o de duas d\u00e9cadas e um investimento de muitos milh\u00f5es de d\u00f3lares, a troco de nada.<\/p>\n<p>Pior, a Administra\u00e7\u00e3o americana transmitiu ao mundo uma mensagem perigosa, a de que a democratiza\u00e7\u00e3o do mundo n\u00e3o era uma prioridade, sendo agora facultativa, passando a tratar com a mesma defer\u00eancia democracias ou ditaduras. Os autocratas, que j\u00e1 tinham come\u00e7ado a florescer no mundo durante os mandatos de Barack Obama e Donald Trump, agradecem a dignifica\u00e7\u00e3o do seu estatuto, a come\u00e7ar pelos talib\u00e3s.<\/p>\n<p>Segundo organiza\u00e7\u00f5es internacionais, os regimes autocr\u00e1ticos no mundo s\u00e3o cada vez em maior n\u00famero no s\u00e9culo XXI: \u00e0 R\u00fassia e \u00e0 China, juntaram-se pa\u00edses importantes no mundo, como a \u00cdndia, a Turquia ou o Brasil, que regrediram de democracias plenas para democracias musculadas. E nem a Europa escapou ao decl\u00ednio das democracias com a ascens\u00e3o de regimes de democracia limitada na Hungria e na Pol\u00f3nia.<\/p>\n<p>Barack Obama desvalorizou o primado da defesa da democracia no mundo, argumentando que a Guerra Fria j\u00e1 tinha acabado, Donald Trump foi mais longe e passou a negociar diretamente e at\u00e9 a elogiar ditadores como o l\u00edder da Coreia do Norte ou o pr\u00f3prio Vladimir Putin \u00a0e Joe Biden deu-lhe a machadada final, com a sua Administra\u00e7\u00e3o a priorizar a concorr\u00eancia do com\u00e9rcio mundial com a China, fechando definitivamente a loja da defesa da democracia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a Europa assobiou para o lado, aumentando cada vez mais o com\u00e9rcio com a R\u00fassia e a China, apesar dos cada vez mais alarmantes atentados aos direitos humanos e ao pr\u00f3prio Direito Internacional. Nem o brutal genoc\u00eddio do povo Tchecheno (1999 e 2000), nem as invas\u00f5es da Ge\u00f3rgia (2008) e da Crimeia (2014) e inger\u00eancia nas regi\u00f5es de Donetz e Lugansk (2014), o assassinato ou tentativas de envenenamento de opositores pol\u00edticos fez rever a posi\u00e7\u00e3o europeia face \u00e0 R\u00fassia, que se dava ao luxo de fazer de Londres a sua pra\u00e7a forte financeira.<\/p>\n<p>J\u00e1 depois da anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia, onde grande parte dos habitantes de origem ucraniana ou t\u00e1rtara foram amea\u00e7ados, violentados e expulsos, violando todas as leis do Direito Internacional, o Governo alem\u00e3o, de Angela Merkl, ainda assinou um escandaloso contrato para construir um segundo gasoduto de g\u00e1s russo, passando, desta forma, a ficar ainda mais dependente da energia do sucessor de Estaline.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a China prossegue um caminho de crescente autocracia, idolatrando Xi Gi Ping, que se prepara para se perpetuar no poder, ap\u00f3s rever a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o, reprimindo o seu povo atrav\u00e9s do controlo da imprensa e das redes sociais, do aparelho policial repressivo, derrubando a democracia em Hong Kong, mantendo a opress\u00e3o no Tibete e promovendo um genoc\u00eddio cultural com o povo uigure. Tudo isto perante a passividade do Ocidente, sempre pronto a trocar democracia, direitos humanos e ambiente por mat\u00e9rias-primas e m\u00e3o de obra baratas.<\/p>\n<p>A brutal invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia &#8211; totalmente injustificada, seja qual for o ponto de vista \u2013 veio demonstrar, para quem ainda tinha d\u00favidas, que todas as ditaduras s\u00e3o uma amea\u00e7a \u00e0 paz. Naturalmente, quanto maior for o seu poder \u2013 econ\u00f3mico, financeiro e militar \u2013 maior \u00e9 a amea\u00e7a \u00e0 paz. A R\u00fassia, cuja economia prosperou enormemente nestes \u00faltimos 20 anos, com a colabora\u00e7\u00e3o ativa dos pa\u00edses ocidentais, que para l\u00e1 transferiram vultuosos investimentos e tecnologia de ponta, tonou-se, por isso, uma amea\u00e7a \u00e0 paz mundial.<\/p>\n<p>E os avisos do risco da amea\u00e7a russa n\u00e3o faltaram nos \u00faltimos anos. Primeiro, foi a brutal submiss\u00e3o do povo tchecheno, em 1999 e 2000, dominado por bombardeamentos impiedosos primeiro e pelo terror quotidiano depois. A esta interven\u00e7\u00e3o de grande viol\u00eancia e violadora dos mais elementares direitos humanos, o Ocidente fechou os olhos: afinal a Tchech\u00e9nia era muito longe, integrava a Federa\u00e7\u00e3o Russa, sendo assim um problema interno, e ainda por cima, vinha com o r\u00f3tulo de combate ao radicalismo isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>Depois foi a invas\u00e3o da Ge\u00f3rgia, em 2008, com o pretexto dos interesses da minoria russ\u00f3fona estarem a ser postos em causa &#8211; o mesmo argumento utilizado por Hitler para invadir outros pa\u00edses -, resultando numa anexa\u00e7\u00e3o de facto pela R\u00fassia de prov\u00edncias deste pa\u00eds, traduzidas na cria\u00e7\u00e3o das rep\u00fablicas separatistas da Oss\u00e9tia do Sul e da Abec\u00e1sia.<\/p>\n<p>Em 2014, ap\u00f3s a revolta popular contra o ent\u00e3o primeiro-ministro da Ucr\u00e2nia, Viktor Ianukovytch, por desistir do acordo com a Uni\u00e3o Europeia a favor de um acordo comercial com a Federa\u00e7\u00e3o Russa, Vladimir Putin decidiu anexar a Crimeia e instigou a cria\u00e7\u00e3o, pela for\u00e7a, de regi\u00f5es separatistas em Donetz e Lugansk, com milhares de mortos dos dois lados do conflito.<\/p>\n<p>O presidente russo teria naturalmente o direito de exigir um estatuto especial para a Crimeia ou, no m\u00ednimo, para a sua capital, Sebastopol, por l\u00e1 ter sediada uma base naval russa. Contudo, a tomada de posse abrupta, violenta e sem aviso pr\u00e9vio da Crimeia, seguida de um pretenso referendo totalmente controlado pela R\u00fassia e sem a presen\u00e7a de quaisquer observadores internacionais, logo sem qualquer validade internacional, obstou a que quaisquer negocia\u00e7\u00f5es sobre o tema pudessem sequer ter sido admitidas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o podemos esconder as incont\u00e1veis persegui\u00e7\u00f5es a advers\u00e1rios pol\u00edticos de Vladimir Putin, usando o aparelho judicial como poder privativo para punir quem ouse desafi\u00e1-lo ou o assassinato ou tentativa de assassinato de advers\u00e1rios pol\u00edticos no estrangeiro, envolvendo mesmo subst\u00e2ncias radiativas, como foi noticiado na imprensa internacional.<\/p>\n<p>Portanto, perante este rol intermin\u00e1vel de atentados sistem\u00e1ticos aos direitos humanos, de viola\u00e7\u00e3o grosseira de todas as regras do pr\u00f3prio Estado Russo e do Direito Internacional, n\u00e3o podia haver d\u00favidas de que est\u00e1vamos na presen\u00e7a de um gangster a dirigir a maior pot\u00eancia nuclear do mundo, que n\u00e3o olha a meios para atingir os fins. E nem sequer esconde quem \u00e9, basta ver a forma como trata os advers\u00e1rios pol\u00edticos, de c\u00e3es vadios a drogados, de nazis a moscas: um vocabul\u00e1rio digno de Al Capone!<\/p>\n<p>A obsess\u00e3o do Ocidente pelo crescimento econ\u00f3mico e a cren\u00e7a de que nunca seria posto em causa o paradigma de seguran\u00e7a sa\u00eddo da II Guerra Mundial \u2013 fronteiras inviol\u00e1veis garantidas pela Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas e a paz do terror garantida pela prolifera\u00e7\u00e3o de armas nucleares no mundo \u2013 permitiu a Putin preparar-se econ\u00f3mica e militarmente nos \u00faltimos anos para invadir a Ucr\u00e2nia e desafiar o mundo inteiro &#8211; e n\u00e3o apenas o mundo democr\u00e1tico, porque todos assinaram a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Relativamente aos argumentos usados por Putin para invadir a Ucr\u00e2nia, uma an\u00e1lise cuidada facilmente comprova que n\u00e3o s\u00e3o racionais, sendo contradit\u00f3rios e falsos, \u00a0variando ainda ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Primeiro, o problema para Putin era a proximidade dos pa\u00edses da NATO que faziam perigar a seguran\u00e7a da Federa\u00e7\u00e3o Russa, que seria agravado com uma poss\u00edvel ades\u00e3o da Ucr\u00e2nia. Ora, j\u00e1 existem pa\u00edses da NATO junto \u00e0 fronteira russa desde 2004, depois dos pa\u00edses b\u00e1lticos pedirem a ades\u00e3o em 2002, ou seja, h\u00e1 20 anos, sem qualquer incidente ou amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a da Federa\u00e7\u00e3o Russa que tenha sido reportado por esta. Porqu\u00ea levantar o problema duas d\u00e9cadas depois?<\/p>\n<p>Acresce que os novos pa\u00edses da NATO, pertencentes ao antigo Bloco de Leste, n\u00e3o possuem armas ofensivas, mas apenas defensivas e nenhum desses pa\u00edses possui armas nucleares. Portanto, o sentimento de inseguran\u00e7a de Vladimir Putin carece de qualquer racionalidade. Mais, quem quer instalar armas nucleares junto aos pa\u00edses da NATO \u00e9 o pr\u00f3prio Putin, que j\u00e1 for\u00e7ou um pseudo-referendo na Bielorr\u00fassia para retirar da constitui\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds o estatuto de n\u00e3o nuclear. Portanto, muito em breve vamos ter instaladas armas nucleares russas \u00e0s portas da Pol\u00f3nia, Let\u00f3nia e Litu\u00e2nia. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que a vitimiza\u00e7\u00e3o de Putin ao invocar o risco de seguran\u00e7a da R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 mais do que uma manobra de distra\u00e7\u00e3o para esconder o seu verdadeiro papel de agressor.<\/p>\n<p>Por outro lado, mesmo durante a Guerra Fria, pa\u00edses da NATO e do Pacto de Vars\u00f3via partilharam extensas fronteiras, coexistindo lado a lado durante meio s\u00e9culo, sem qualquer incidente relevante. Sendo a NATO uma organiza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e defensiva, comprovado com mais de 70 anos de estabilidade, porqu\u00ea invocar ent\u00e3o o risco de seguran\u00e7a, quando esse risco n\u00e3o existiu no passado, com fronteiras partilhadas durante d\u00e9cadas?<\/p>\n<p>Por fim, a Ucr\u00e2nia nunca poderia aderir \u00e0 Nato com as suas fronteiras indefinidas, devido \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da Crimeia e do Donbass, porque os estatutos da NATO o pro\u00edbem. N\u00e3o podendo cumprir os requisitos de ades\u00e3o, a Ucr\u00e2nia n\u00e3o poderia aderir \u00e0 NATO e Vladimir Putin bem o sabia. Portanto, este foi um falso pretexto. Curiosamente, Putin invoca agora um pretenso genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o do Donbass \u2013 n\u00e3o provado por ningu\u00e9m, nem invocado por mais ningu\u00e9m &#8211; como a principal raz\u00e3o para ter invadido a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Os argumentos para validar a invas\u00e3o s\u00e3o, assim, vol\u00e1teis, variando de semana para semana, o que s\u00f3 prova a m\u00e1-f\u00e9 da argumenta\u00e7\u00e3o. Outro argumento, invocado \u00e0s segundas, quartas e sextas, \u00e9 que a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia s\u00e3o um mesmo povo, pelo que deveria ficar sob uma \u00fanica governa\u00e7\u00e3o. Contudo, \u00e0s ter\u00e7as, quintas e s\u00e1bados, o argumento \u00e9 de que a R\u00fassia nunca quis ocupar a Ucr\u00e2nia e que n\u00e3o pretende depor o atual governo.<\/p>\n<p>Por outro lado, mesmo do ponto de vista da R\u00fassia, que sentido faz invadir um pa\u00eds enorme, maior que a Fran\u00e7a? Se fosse apenas uma \u201copera\u00e7\u00e3o militar especial\u201d de alguns dias, de que serviria, se o governo ucraniano se mantivesse no poder? Mesmo decapitando o poder ucraniano, de que serviria se a vontade do povo \u00e9 a ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. A Zelensky seguir-se-ia outro governante pr\u00f3-ocidental, porque \u00e9 essa a vontade popular.<\/p>\n<p>Se a inten\u00e7\u00e3o fosse ocupar toda a Ucr\u00e2nia, como seria poss\u00edvel coagir e condicionar a vontade de 40 milh\u00f5es de pessoas? Teria um pol\u00edcia ou militar russo atr\u00e1s de cada ucraniano para o vigiar e controlar? Iria arrasar todas as casas e pr\u00e9dios da Ucr\u00e2nia? Portanto, esta guerra estava perdida \u00e0 partida para a R\u00fassia, porque qualquer destes objetivos era completamente irrealista.<\/p>\n<p>Qual \u00e9, ent\u00e3o, a verdadeira raz\u00e3o da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia? Como j\u00e1 v\u00e1rios comentadores afirmaram &#8211; e eu corroboro plenamente &#8211; o medo de Putin n\u00e3o \u00e9 ter a NATO nas suas fronteiras. O medo do presidente russo, tal como do presidente chin\u00eas &#8211; \u00e9 o medo da liberdade e da democracia. O resto \u00e9 pura propaganda e ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Por isso, limitam brutalmente a comunica\u00e7\u00e3o social livre e independente e at\u00e9 t\u00eam redes sociais pr\u00f3prias desligadas do resto do mundo. Por isso, reprimem todas as cr\u00edticas p\u00fablicas e mant\u00eam uma legi\u00e3o de exilados pol\u00edticos no mundo e milhares de presos pol\u00edticos nas pris\u00f5es. Sem o poder repressivo e o condicionamento da liberdade, n\u00e3o poderiam manter-se no poder. Nem Putin nem Xi Gi Ping querem estar \u201ccercados\u201d de democracias, para que os seus cidad\u00e3os n\u00e3o possam comparar facilmente a vida em liberdade e em ditadura. Por isso se apoiam mutuamente e pretendem manter nas suas fronteiras regimes autocr\u00e1ticos ou mesmo governos fantoches, como o da Bielor\u00fassia. Democracias? Nunca!<\/p>\n<p>Mas se a Putin cabe o papel de agressor, cabem tamb\u00e9m aos pa\u00edses ocidentais responsabilidades por termos chegado \u00e0 atual situa\u00e7\u00e3o de conflito mundial, porque \u00e9 disso que se trata. O primeiro erro foi a desvaloriza\u00e7\u00e3o das novas armas desenvolvidas pela R\u00fassia, anunciadas em 2018 pelo pr\u00f3prio Putin, nomeadamente, os novos m\u00edsseis hipers\u00f3nicos. Recordo-me que Putin at\u00e9 saltou entusiasmado da cadeira com o an\u00fancio b\u00e9lico, indicando a sua linguagem verbal e n\u00e3o verbal claramente que se preparava para usar as novas armas ou para amea\u00e7ar diretamente o Ocidente com o novo poder b\u00e9lico, em troca de concess\u00f5es agressivas.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, os respons\u00e1veis ocidentais optaram por n\u00e3o se pronunciar (Trump era o presidente americano) e at\u00e9 houve quem considerasse este an\u00fancio um bluff de Putin. Enquanto isto, a Alemanha continuou a financiar a constru\u00e7\u00e3o do gasoduto Nord Stream 2, para ficar ainda mais dependente do g\u00e1s russo! Trump declarava-se amigo de Putin e o Ocidente continuou a alargar as trocas comerciais com a R\u00fassia, enchendo os cofres do Kr\u00e9mlin, que agradeceu a generosidade e naturalmente usou os d\u00f3lares e euros ocidentais para melhorar a sua m\u00e1quina de guerra.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o se compreende que os Estados Unidos da Am\u00e9rica e a NATO tenham dado tantas garantias de que n\u00e3o interviriam na Ucr\u00e2nia, caso esta fosse invadida. Sabendo-se que a \u00fanica linguagem que Putin conhece \u00e9 a da for\u00e7a, esta garantia dada vezes sem conta, nomeadamente, por Joe Biden, pode ter contribu\u00eddo para encorajar os impulsos belicistas do presidente russo. N\u00e3o significa isto que a NATO devesse intervir, mas o bluff \u00e9 uma arma por vezes decisiva na pol\u00edtica internacional e lamento que neste caso n\u00e3o tenha sido usada atempadamente.<\/p>\n<p>Considero que a NATO fez bem em n\u00e3o ter precipitado um confronto direto com a R\u00fassia, deitar \u00e1gua na fervura \u00e9 sempre a melhor solu\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de conflito agudo. Neste caso, por maioria de raz\u00e3o, Putin seria sempre confrontado com as consequ\u00eancias negativas de invadir um pa\u00eds t\u00e3o grande e com tanta popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Concluindo: n\u00e3o s\u00e3o as armas nucleares que garantem a paz no mundo, a cren\u00e7a de que estas nunca seriam usadas dado o seu poder destrutivo n\u00e3o passa de um mito. A lei de Murphy tamb\u00e9m se aplica aqui: se podem ser usadas, ir\u00e3o ser usadas, mais cedo ou mais tarde. E conv\u00e9m n\u00e3o nos lembrarmos de Santa B\u00e1rbara s\u00f3 quando troveja.<\/p>\n<p>O que realmente garante a paz no mundo \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o da democracia. N\u00e3o h\u00e1 guerras entre pa\u00edses democr\u00e1ticos porque os pol\u00edticos em democracia dependem do povo e os povos s\u00e3o sempre contra as guerras. N\u00e3o se compreende, como j\u00e1 referi anteriormente, que os pa\u00edses democr\u00e1ticos desistam de democratizar o mundo, alegando que cada povo tem a sua cultura pr\u00f3pria e, portanto, o importante \u00e9 fazer neg\u00f3cios, seja qual for o regime pol\u00edtico dos pa\u00edses. Ora se pequenos pa\u00edses n\u00e3o democr\u00e1ticos representam uma amea\u00e7a sem significado \u00e0 paz mundial, grandes pa\u00edses n\u00e3o democr\u00e1ticos \u2013 como a R\u00fassia ou a China \u2013 representam, por maioria de raz\u00e3o, uma s\u00e9ria amea\u00e7a \u00e0 paz mundial. \u00c9 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que a amea\u00e7a potencial se transforme numa amea\u00e7a efetiva.<\/p>\n<p>Limitar o com\u00e9rcio com grandes pa\u00edses n\u00e3o democr\u00e1ticos \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia para o mundo livre. A R\u00fassia \u00e9 hoje claro, \u00e9 uma s\u00e9ria amea\u00e7a \u00e0 paz mundial, mas deu muitos avisos de alerta nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Ignor\u00e1-los foi uma imprud\u00eancia, continuar a n\u00e3o limitar as trocas comerciais do mundo livre com pa\u00edses autorit\u00e1rios\u00a0 ser\u00e1 uma temeridade.<\/p>\n<p>Relativamente \u00e0 China, conv\u00e9m recordar que acabou com a democracia em Hong Kong, violando os acordos de 1997 com o Reino Unido de que manteria o modo de vida do territ\u00f3rio durante 50 anos. As amea\u00e7as \u00e0 integridade territorial de Taiwan j\u00e1 foram verbalizadas mais de uma vez. E uma China poderosa \u2013 econ\u00f3mica e militarmente \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m uma amea\u00e7a ao mundo, como se comprova com a n\u00e3o condena\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>\u00c0 necessidade de limita\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio mundial, nomeadamente, com as grandes pot\u00eancias autorit\u00e1rias, por raz\u00f5es pol\u00edticas e de seguran\u00e7a mundial, acrescem duas outras raz\u00f5es que t\u00eam sido descuradas neste in\u00edcio de s\u00e9culo. Primeiro, a redu\u00e7\u00e3o da pegada ecol\u00f3gica, quando se advinham mudan\u00e7as catastr\u00f3ficas no clima na Terra, nomeadamente, pelo crescimento galopante dos gases com efeito de estufa.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz qualquer sentido importar produtos banais &#8211; como brinquedos ou produtos de bricolage \u2013 produzindo-os a 6 mil quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia &#8211; enviando-os depois por navios, que emitem quantidades brutais de di\u00f3xido de carbono para a atmosfera. Os mesmos produtos poderiam ser produzidos perfeitamente\u00a0 a n\u00edvel local ou regional, eventualmente com um pequeno acr\u00e9scimo no pre\u00e7o, com uma reduzida pegada ecol\u00f3gica. Cadeias curtas de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o deveriam ser o paradigma do com\u00e9rcio no s\u00e9culo XXI, a bem do planeta, o \u00fanico em que podemos viver. Importa\u00e7\u00f5es de longa dist\u00e2ncia s\u00f3 fazem sentido, na minha opini\u00e3o, para materiais raros e que s\u00f3 existam noutras latitudes.<\/p>\n<p>Por outro lado, a pandemia e a pr\u00f3pria invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, com a consequente instabilidade e at\u00e9 rotura das cadeias de abastecimento, vieram recordar ainda mais o conceito de soberania alimentar, energ\u00e9tica e de outros bens de primeira necessidade. N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel que os bens de que necessitamos para sobreviver diariamente sejam produzidos noutros continentes, a milhares de quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, apenas por serem mais baratos, abdicando n\u00f3s da quase totalidade da nossa capacidade produtiva\u00a0 nalguns produtos. No caso de uma guerra, de uma pandemia ou de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas dr\u00e1sticas \u2013 que s\u00e3o bem riscos reais, n\u00e3o s\u00e3o fic\u00e7\u00e3o! &#8211; a nossa vida poder\u00e1 estar em risco.<\/p>\n<p>Espero que a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, com todas as altera\u00e7\u00f5es inerentes j\u00e1 anunciadas no com\u00e9rcio mundial ap\u00f3s as san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia, seja tamb\u00e9m uma oportunidade para que os pa\u00edses \u2013 nomeadamente, os democr\u00e1ticos, com maior sensibilidade ambiental &#8211; possam rever as pol\u00edticas de produ\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio e consumo, rumo \u00e0 sustentabilidade do planeta.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 M\u00e1rio Lopes\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ascens\u00e3o de Joe Biden ao poder da maior pot\u00eancia mundial e o abandono atabalhoado do Afeganist\u00e3o, deixando \u00e0 sua sorte o povo afeg\u00e3o, veio confirmar que a expans\u00e3o da democracia no mundo n\u00e3o era uma prioridade para a Am\u00e9rica nem para o mundo ocidental. 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