{"id":1495,"date":"2021-02-15T22:16:10","date_gmt":"2021-02-15T22:16:10","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=1495"},"modified":"2021-02-15T22:40:46","modified_gmt":"2021-02-15T22:40:46","slug":"dia-mundial-do-doente-retomando-a-conversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2021\/02\/15\/dia-mundial-do-doente-retomando-a-conversa\/","title":{"rendered":"Dia Mundial do Doente (retomando a conversa)"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1498\" style=\"width: 508px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1498\" class=\"wp-image-1498 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Medico_Dr_Vasco_Barreto10.jpg\" alt=\"\" width=\"498\" height=\"558\" \/><p id=\"caption-attachment-1498\" class=\"wp-caption-text\">Dr. Vasco Barreto<\/p><\/div>\n<p>O Dia Mundial do Doente foi institu\u00eddo pela igreja cat\u00f3lica em 1992 (ap\u00f3s o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a que viria a vitimar o Papa Jo\u00e3o Paulo II), com uma dimens\u00e3o predominantemente espiritual e uma forte voca\u00e7\u00e3o caritativa. Em ingl\u00eas, a designa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cWorld Day of the<em> Sick<\/em>\u201d, e n\u00e3o <em>Patient<\/em>, ou seja, \u00e9 mais uma refer\u00eancia \u00e0 pessoa que sofre de uma doen\u00e7a do que ao doente enquanto utilizador dos servi\u00e7os de sa\u00fade. Como tantas outras efem\u00e9rides de origem religiosa, esta data tem potencialmente um alcance que ultrapassa o universo da f\u00e9 e que acaba por coincidir com o da pr\u00f3pria cultura. E at\u00e9 mais com o de uma cultura human\u00edstica do que com o de uma cultura estritamente m\u00e9dica (se esta existir sem aquela).<\/p>\n<p>Em 2020, por esta mesma ocasi\u00e3o, falava-se de como seria um sistema de sa\u00fade que respondesse \u00e0s expectativas, necessidades e valores dos doentes. Uma das mais importantes mudan\u00e7as de paradigma das \u00faltimas d\u00e9cadas, em sa\u00fade, \u00e9 o conceito de \u201cPatient-Centered Care\u201d (Cuidados Centrados no Doente). Resumindo o mais poss\u00edvel os princ\u00edpios fundamentais deste modelo, ele preconiza: o acesso \u00e1gil e n\u00e3o discriminativo ao sistema de sa\u00fade; o respeito pelas prefer\u00eancias das pessoas e o seu envolvimento nas decis\u00f5es (que s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente poss\u00edvel investindo numa estrat\u00e9gia de educa\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade); a integra\u00e7\u00e3o de cuidados, ou seja, a articula\u00e7\u00e3o entre as equipas hospitalares e de cuidados prim\u00e1rios, de modo a que a transi\u00e7\u00e3o entre elas se fa\u00e7a sem perdas de continuidade, e procurando desviar o foco da presta\u00e7\u00e3o de cuidados dos hospitais para a comunidade, ou mesmo para a casa dos doentes; a prioriza\u00e7\u00e3o do conforto f\u00edsico e do bem-estar emocional, com envolvimento da fam\u00edlia em todas as fases do processo.<\/p>\n<p>O que aconteceu desde esse dia 11 de Fevereiro de 2020 \u2013 ou, mais concretamente, desde 2 de Mar\u00e7o de 2020, data do primeiro diagn\u00f3stico de Covid-19 em Portugal?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem d\u00favidas de que houve uma deteriora\u00e7\u00e3o do acesso a cirurgias, exames, consultas, urg\u00eancias ou at\u00e9 mesmo a receitu\u00e1rio cr\u00f3nico ou a contactos pontuais com os m\u00e9dicos assistentes. Foram tamb\u00e9m muito evidentes as quebras de continuidade e as dificuldades na transi\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o de cuidados entre hospitais e centros de sa\u00fade. A comunica\u00e7\u00e3o com os doentes e com as fam\u00edlias sofreu o impacto das barreiras f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m das defici\u00eancias organizacionais. Muitas vezes as escolhas dos doentes foram menos informadas e mais baseadas num modelo tradicional, paternalista, em que \u00e9 o m\u00e9dico que decide, ou ent\u00e3o adiadas para melhores dias. Em suma, houve um desvio de esfor\u00e7os e de recursos para o combate \u00e0 pandemia, que deixou em segundo plano alguns avan\u00e7os que v\u00ednhamos fazendo em direc\u00e7\u00e3o a um modelo Centrado no Doente. Pass\u00e1mos do dia mundial do doente para o ano mundial de uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Passou um ano. Do meu ponto de vista, n\u00e3o faz qualquer sentido orientar esta reflex\u00e3o para o apuramento de responsabilidades, t\u00e9cnicas ou pol\u00edticas, pelo agravamento das dificuldades no sistema de sa\u00fade. Dificilmente alguma estrutura sanit\u00e1ria suportaria a avalanche desta pandemia, e isso \u00e9 vis\u00edvel pelo mundo fora. Esta doen\u00e7a chegou e vai aos poucos ocupar o seu lugar nas nossas vidas, entrar na rotina da presta\u00e7\u00e3o de cuidados, normalizar-se. Mais m\u00eas, menos m\u00eas, vai-nos permitir recentrar e voltar a definir prioridades. Gostaria que este dia fosse um ponto de partida para retomarmos o di\u00e1logo entre m\u00e9dicos, doentes e decisores em torno da constru\u00e7\u00e3o de um projecto de sa\u00fade centrado nos doentes e nas necessidades dos doentes.<\/p>\n<p>Era disto que est\u00e1vamos a falar h\u00e1 um ano, n\u00e3o era?<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0Vasco Barreto<br \/>\n<\/em><\/strong><em>Secret\u00e1rio Geral da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dia Mundial do Doente foi institu\u00eddo pela igreja cat\u00f3lica em 1992 (ap\u00f3s o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a que viria a vitimar o Papa Jo\u00e3o Paulo II), com uma dimens\u00e3o predominantemente espiritual e uma forte voca\u00e7\u00e3o caritativa. 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