{"id":21002,"date":"2022-10-08T17:33:43","date_gmt":"2022-10-08T17:33:43","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=21002"},"modified":"2022-10-08T17:45:30","modified_gmt":"2022-10-08T17:45:30","slug":"monumento-natural-do-canhao-carsico-de-ota-esta-a-celebrar-o-terceiro-aniversario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2022\/10\/08\/monumento-natural-do-canhao-carsico-de-ota-esta-a-celebrar-o-terceiro-aniversario\/","title":{"rendered":"Monumento Natural do Canh\u00e3o C\u00e1rsico de Ota est\u00e1 a celebrar o terceiro anivers\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>A Serra de Ota \u00e9 um territ\u00f3rio baldio com cerca de 400 hectares que em 1911 foi retirado ao usufruto da popula\u00e7\u00e3o local e entregue \u00e0 gest\u00e3o dos Servi\u00e7os Florestais, entrando assim em Regime Florestal Parcial. Esta medida foi tomada na sequ\u00eancia de id\u00eanticas decis\u00f5es aplicadas a outras serras baldias nacionais (Montejunto entrou em Regime Florestal em 1910), com que se pretendia regenerar a floresta portuguesa e aumentar a produ\u00e7\u00e3o de madeira, criar solo, melhorar a reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e regularizar o ciclo dos caudais dos rios e ribeiros.<\/p>\n<p>Na verdade, por essa altura a floresta em Portugal estava reduzida a quase nada, depois dos intensos abates de arvoredo que vinham sendo realizados pelo menos desde a Idade M\u00e9dia, para criar campos agr\u00edcolas necess\u00e1rios \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o crescente, produzir madeira para a constru\u00e7\u00e3o naval, para a constru\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es, para a aparelhagem de moinhos e lagares, pipas e tanoaria necess\u00e1rias a um pa\u00eds vin\u00edcola, para al\u00e9m de produzir lenha, que constitu\u00eda o combust\u00edvel dom\u00e9stico e industrial corrente.<\/p>\n<p>Por outro lado, os bosques eram o ref\u00fagio de animais selvagens que amedrontavam a popula\u00e7\u00e3o e predavam o gado dom\u00e9stico. E o povo n\u00e3o hesitava em deitar-lhes fogo, se necess\u00e1rio fosse, para afugentar essas perigosas feras, como relata o p\u00e1roco de Ota nas Mem\u00f3rias Paroquiais de 1758, sobre o que aconteceu nesta Serra.<\/p>\n<p>\u00abEsta mata em algum tempo se compunha de grossos matos silvestres e bastantes loureiros, e figueiras, que os antigos enxertavam de v\u00e1rias castas, e hoje se acha s\u00f3 com os penedos, e penhascos de grande altura; nos quais se criavam v\u00e1rias aves a saber: corvos, bufos, grinchos, que s\u00e3o umas aves t\u00e3o grandes, e fortes que levam nos p\u00e9s para os filhos, perus, cabritos, coelhos, lebres e raposas. E nas ra\u00edzes destes penhascos se criavam em covas muito lobo, raposas, texugos, que faziam muita perda a estes lugares circunvizinhos assim nos gados como nos frutos; e esta foi a raz\u00e3o de se lhe terem queimado os matos.\u00bb (Pe. Jos\u00e9 Eduardo Martins, <em>Alenquer 1758, O Actual Concelho nas Mem\u00f3rias Paroquiais<\/em>, arruda editora)<\/p>\n<p>Assim, as matas de pinheiros que hoje constituem o principal coberto florestal na Serra de Ota, n\u00e3o s\u00e3o as matas nativas da floresta portuguesa, nem t\u00e3o pouco constituem um suced\u00e2neo destas; essas matas, como se depreende do excerto do p\u00e1roco local relatado acima, foram destru\u00eddas e j\u00e1 nem existiam em 1758. \u00c9 de presumir que em 1911, quando entrou em regime florestal, esta Serra estaria despida de arvoredo, como estava a Serra de Montejunto e muitas outras serras portuguesas. As matas que atualmente existem na Serra de Ota, s\u00e3o, pois, o fruto do trabalho de engenharia florestal que os Servi\u00e7os Florestais, primeiro, e o ICNF, depois, ali realizaram nos \u00faltimos 110 anos.<\/p>\n<p>As esp\u00e9cies arb\u00f3reas nativas dominantes da floresta portuguesa s\u00e3o as querc\u00edneas, compostas por carvalhos diversos, sobreiros e azinheiras. Todavia, os Servi\u00e7os Florestais, quando se instalaram nas serranias portuguesas, fosse por se terem deparado com acentuados processos erosivos e grande falta de solo, fosse pela experi\u00eancia desenvolvida com grande sucesso na floresta\u00e7\u00e3o das dunas litorais com pinheiros &#8211; de que o Pinhal de Leiria constitui ex-libris &#8211; fosse pelas aprendizagens realizadas no estrangeiro pelos primeiros engenheiros florestais portugueses, optaram por plantar esp\u00e9cies resinosas em vez de plantar as esp\u00e9cies folhosas nativas.<\/p>\n<p>Na verdade, com a pol\u00edtica de arboriza\u00e7\u00e3o seguida pelos Servi\u00e7os Florestais, foi criada em Portugal, na primeira metade do s\u00e9culo XX, a maior \u00e1rea cont\u00ednua de pinhal da Europa. Outrora cobertas fundamentalmente por carvalhais, as serras portuguesas transformaram-se ent\u00e3o num imenso pinhal, que haveria de constituir o cen\u00e1rio perfeito para os grandes inc\u00eandios que surgiram d\u00e9cadas mais depois.<\/p>\n<p>A debilita\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os Florestais, ocorrida mais tarde e a consequente incapacidade de levar a efeito a reconvers\u00e3o desses imensos pinhais em florestas de folhosas; o desenvolvimento da ind\u00fastria de celulose e a planta\u00e7\u00e3o de grandes manchas cont\u00ednuas de eucaliptais, criaram o cen\u00e1rio perfeito para os grandes inc\u00eandios de ver\u00e3o que, entretanto, passaram a constituir uma trag\u00e9dia nacional. Resinosas e eucaliptos s\u00e3o hoje as esp\u00e9cies que mais ardem. O imenso pinhal criado pelos Servi\u00e7os Florestais nas serranias portuguesas, constitui atualmente um dos grandes problemas da floresta nacional.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos os pinhais da Serra de Ota tamb\u00e9m n\u00e3o foram poupados ao deflagrar de focos de inc\u00eandio. Na verdade, o pinhal aberto e o vasto capim que cresce no seu interior, constituem fatores de elevado risco de inc\u00eandio e, tem valido a esta Serra estar localizada numa regi\u00e3o urbana, cercada de corpora\u00e7\u00f5es de bombeiros com grande disponibilidade de meios, que ali acorrem com grande prontid\u00e3o sempre que h\u00e1 fogo e n\u00e3o t\u00eam permitido que os inc\u00eandios alastrem.<\/p>\n<div id=\"attachment_21004\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21004\" class=\"wp-image-21004\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Alenquer_Ota.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Alenquer_Ota.png 650w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Alenquer_Ota-300x142.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-21004\" class=\"wp-caption-text\">Canh\u00e3o C\u00e1rsico de Ota<\/p><\/div>\n<p>Numa zona de pinhal com alguns hectares, situada quase junto ao cruzamento com o Bairro, ardida em 2017, voltou a germinar uma densa vegeta\u00e7\u00e3o de pinheiros a partir das sementes libertadas com o fogo, e cresciam juntamente com carvalhos, azinheiras, sobreiros e arbustos diversos. Os pinheiros, de crescimento mais r\u00e1pido, iriam sombrear e impedir o crescimento das folhosas. A densidade de pinheiros era tal que, em breve, o risco de inc\u00eandio voltaria a ser enorme. Pois bem, a Dire\u00e7\u00e3o do Monumento Natural procedeu ao desbaste dos pinheiros em grande parte desta parcela e, com isso, deu \u00e0s folhosas a possibilidade de crescer, ocupar o espa\u00e7o e criar uma mata que ir\u00e1 constituir um suced\u00e2neo das matas nativas, com elevada resili\u00eancia ao fogo.<\/p>\n<p>Segundo a Dire\u00e7\u00e3o da Alambi, \u201clogo ali ao lado, onde n\u00e3o foi feita esta gest\u00e3o, os pinheiros crescem lado a lado, amontoados, como f\u00f3sforos prontos a arder. O contraste \u00e9 evidente. O trabalho realizado pela Dire\u00e7\u00e3o do Monumento Natural constitui um bom exemplo da gest\u00e3o florestal que \u00e9 preciso realizar na Serra de Ota e nas matas portuguesas.\u201d<\/p>\n<p><strong>Fonte: ALAMBI<\/strong><br \/>\n5 de outubro de 2022<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Serra de Ota \u00e9 um territ\u00f3rio baldio com cerca de 400 hectares que em 1911 foi retirado ao usufruto da popula\u00e7\u00e3o local e entregue \u00e0 gest\u00e3o dos Servi\u00e7os Florestais, entrando assim em Regime Florestal Parcial. 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