{"id":21008,"date":"2022-10-08T20:34:29","date_gmt":"2022-10-08T20:34:29","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=21008"},"modified":"2022-10-09T07:01:33","modified_gmt":"2022-10-09T07:01:33","slug":"the-gift-coral-um-missil-no-portugal-dos-pequeninos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2022\/10\/08\/the-gift-coral-um-missil-no-portugal-dos-pequeninos\/","title":{"rendered":"The Gift \/ Coral: um m\u00edssil no Portugal dos Pequeninos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21010\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21010\" class=\"wp-image-21010 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco1.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco1.jpg 190w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 190px) 100vw, 190px\" \/><p id=\"caption-attachment-21010\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Alberto Vasco<\/p><\/div>\n<p>Este ano da gra\u00e7a de 2022 ficou para mim musicalmente singularizado na \u00e1rea da m\u00fasica culta contempor\u00e2nea desde que em mar\u00e7o foi disponibilizado no mercado pela Deutsche Grammophon o espl\u00eandido e determinante disco <em>Drone Mass<\/em>, honrando a orat\u00f3ria hom\u00f3nima do paradigm\u00e1tico compositor island\u00eas J\u00f3hann J\u00f3hannsson (1969-2018). A multisciente composi\u00e7\u00e3o foi encomendada ao autor pelo American Contemporary Music Ensemble, por ocasi\u00e3o do seu 15\u00ba anivers\u00e1rio, a esse em\u00e9rito agrupamento se juntando nessa interpreta\u00e7\u00e3o o categorizado coletivo vocal Theatre of Voices, sob dire\u00e7\u00e3o do \u00ednclito maestro Paul Hillier. <em>Drone Mass <\/em>\u00e9 uma orat\u00f3ria para voz, quarteto de cordas e eletr\u00f3nica, revelando-se claramente uma insigne elegia \u00e0s virtualidades da voz e do canto, magistralmente inspirada nalguns dos m\u00edticos textos gn\u00f3sticos da <em>Biblioteca<\/em> revelada ao mundo em 1945 ap\u00f3s a sua descoberta na cidade eg\u00edpcia de Nague Hamadi. A sua inspiradora audi\u00e7\u00e3o envolveu-me num universo de paradis\u00edaca tranquilidade e eleva\u00e7\u00e3o imaterial, potenciada pela qualidade acima de qualquer prova com que esta sua sublime interpreta\u00e7\u00e3o nos patenteia, com perfeito destaque para a sua delinea\u00e7\u00e3o vocal, que desde logo me sugestionou para o enquadramento deste ano musical na \u00e1rea do canto. Muitos novos discos continuei este ano a ouvir, privilegiando essencialmente o instrumento musical mais antigo que se conhece, a voz, mas a mais recente e revitalizadora surpresa nesse campo chegou at\u00e9 mim muito recentemente, com a apresenta\u00e7\u00e3o mundial do novel e pulsante disco da tamb\u00e9m islandesa Bj\u00f6rk, o genial <em>Fossora<\/em>, palpitante m\u00fasica dessa deusa do som, da terra e da inquietude que imediatamente me despertou sentimentos de \u00e1gua, cristal, quartzo, filigrana, v\u00e9u, veludo, g\u00e9nio e cetim, uma imensa e inesperada vontade de morrer \u00e0 beira daquela praia e renascer numa daquelas can\u00e7\u00f5es, ferido de morte perante tamanha beleza e transformado em verso de eternidade. Confesso que a m\u00fasica da Bj\u00f6rk sempre me fez sonhar acordado e que todas as suas can\u00e7\u00f5es sempre foram para mim aut\u00eanticos c\u00e2nticos de amor, quanto mais n\u00e3o fosse pela sua licenciosidade musical, pelo seu aprumo de edifica\u00e7\u00e3o e pela paix\u00e3o evidenciada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0O disparo propriamente dito (por escrito)<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_21011\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21011\" class=\"wp-image-21011 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_Drone_Mass.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_Drone_Mass.jpg 340w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_Drone_Mass-300x300.jpg 300w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_Drone_Mass-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p id=\"caption-attachment-21011\" class=\"wp-caption-text\">Capa do disco Drone Mass<\/p><\/div>\n<p>Foi embevecido nesse esp\u00edrito de envolv\u00eancia e curiosidade que me desloquei ao audit\u00f3rio do Cineteatro de Alcoba\u00e7a para contactar pela primeira vez com a recente e nov\u00edssima produ\u00e7\u00e3o musical dos The Gift em disco e em concerto. Embora tivesse acompanhado algumas das vicissitudes da labir\u00edntica evolu\u00e7\u00e3o do seu trabalho de produ\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de conversas que ia tendo de quando em quando com alguns dos The Gift, cumpri quase integralmente a minha inten\u00e7\u00e3o de partir para esta primeira audi\u00e7\u00e3o integral em estado de total virgindade quanto ao seu conte\u00fado, entrando na sala totalmente despido nessa mat\u00e9ria. Recordo sempre o deslumbramento que senti quando os ouvi pela primeira vez, na sua maquete de candidatura ao Concurso de M\u00fasica Moderna de Alcoba\u00e7a, em 1994. Fui acompanhando a sua carreira num misto de admira\u00e7\u00e3o e amizade, at\u00e9 uma \u00e9poca em que por vontade pr\u00f3pria me afastei. Reaproximei-me em 2011, quando a explos\u00e3o de guitarras el\u00e9tricas de <em>Explode <\/em>inapelavelmente me seduziu e confirmei que a banda tinha amadurecido e enveredado pelos caminhos de elei\u00e7\u00e3o que a conduziriam ao apogeu da participa\u00e7\u00e3o criativa do gigante Brian Eno no nobil\u00edssimo <em>Altar<\/em>, em 2017, elevando pela primeira vez a \u00e1rea <em>pop\/rock <\/em>nacional a um n\u00edvel anteriormente impens\u00e1vel. Gra\u00e7as \u00e0 sua determina\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua qualidade e \u00e0 sua eterna vontade de fazer sempre melhor, os The Gift tinham alcan\u00e7ado o patamar dos mais not\u00e1veis e apenas a tradicional inveja \u00e0 portuguesa e a mesquinhez carater\u00edstica daquilo a que usualmente chamamos de <em>Portugal dos Pequeninos <\/em>evitou que os portugueses tivessem apreciado melhor esse bel\u00edssimo disco, apesar de ser indiscut\u00edvel o sucesso da banda em concertos ao vivo.<\/p>\n<div id=\"attachment_21012\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21012\" class=\"wp-image-21012 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_The_Gift10.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_The_Gift10.jpg 500w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/JAVasco_The_Gift10-300x138.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-21012\" class=\"wp-caption-text\">The Gift (Foto: S\u00edlvia Carvalho)<\/p><\/div>\n<p>Achei necess\u00e1ria esta introdu\u00e7\u00e3o, face ao que agora os The Gift nos disponibilizam no seu magn\u00e2nimo e estimulante \u00e1lbum Coral. E \u00e9 admir\u00e1vel o que eles produzem, alardeando a coragem e o empenho criativo de sempre, num disco e num concerto em que assumem o risco de dar mais um enorme passo em frente, suplantando qualquer suposta barreira. N\u00e3o se previa f\u00e1cil superar a fase em que tiveram ao seu lado uma das maiores figuras da produ\u00e7\u00e3o musical mundial, o que, obviamente ainda mais os encorajou a dar o salto em frente que o pulsante <em>Coral <\/em>patenteia. Felizmente imunes a uma ambi\u00eancia de vistas e ouvidos curtos dominada por l\u00f3bis de edi\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o em que o mais importante continua a ser ter amigos bem colocados em setores essenciais do mercado e respeitar a sua decr\u00e9pita org\u00e2nica de funcionamento, em que mais importante que a criatividade art\u00edstica \u00e9 a deprimente funcionalidade comercial controlada pela manuten\u00e7\u00e3o desse <em>status quo<\/em>, os The Gift andaram novamente em frente, inovando e revolucionando a sua m\u00fasica e deixando inapelavelmente para tr\u00e1s a usual e opressiva din\u00e2mica nacional de n\u00e3o fazer ondas. Curiosamente, os The Gift revolucionam-se voltando na sua ess\u00eancia ao esp\u00edrito inicial da banda, em que eram a voz e a eletr\u00f3nica as suas fundamenta\u00e7\u00f5es criativas essenciais. Em <em>Coral<\/em>, s\u00e3o as vozes da cada vez mais convincente S\u00f3nia Tavares e de um cred\u00edvel coro superiormente integrado e dirigido que se aliam \u00e0 luminar e ub\u00edqua eletr\u00f3nica de John Gon\u00e7alves, Miguel Ribeiro e Nuno Gon\u00e7alves, que tamb\u00e9m canta, gerando uma ambi\u00eancia em que o buc\u00f3lico, o org\u00e2nico e o eletr\u00f3nico se entrela\u00e7am, se potenciam e nos seduzem. O disco e o concerto manifestam pormenores fant\u00e1sticos de constru\u00e7\u00e3o e liga\u00e7\u00e3o, nomeadamente no modo subliminar em que s\u00e3o inclu\u00eddas participa\u00e7\u00f5es dos Pauliteiros de Miranda e de alguns elementos dos Gaiteiros de Lisboa, ostentado uma perfei\u00e7\u00e3o que em nada altera o sentido do disco, que se nos revela como uma esp\u00e9cie de \u00e1lbum conceptual, embora propriamente n\u00e3o o seja. Sendo esta uma aprecia\u00e7\u00e3o em sentido geral, n\u00e3o posso deixar de evidenciar o facto de um dos temas mais fortes e eficazes do disco ser uma vers\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o que pela primeira surge num disco dos The Gift. E a surpresa maior \u00e9 o facto de a consolidarem sobre outra vers\u00e3o, a que Teresa Silva Carvalho gravou do <em>Adagio em sol menor <\/em>de Tomaso Albinoni, sobre um poema original de Ary dos Santos. Indesment\u00edvel \u00e9 que o fazem muito bem e que a vulc\u00e2nica S\u00f3nia Tavares atinge pontua\u00e7\u00e3o m\u00e1xima nesta sua presta\u00e7\u00e3o. <em>Coral <\/em>simboliza notoriamente a chegada da m\u00fasica portuguesa a um novo porto e assume integralmente a responsabilidade de ser um novo marco na evolu\u00e7\u00e3o dos The Gift e, consequentemente, na Hist\u00f3ria da nossa m\u00fasica. Ser\u00e1 <em>rock<\/em>? Ser\u00e1 <em>pop? <\/em>Ser\u00e1 <em>neo-modernismo<\/em>? Ser\u00e1 o qu\u00ea? A mim parece-me apenas que se trata de m\u00fasica de elei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o precisando de qualquer r\u00f3tulo ou etiqueta, mas apenas que a ou\u00e7amos e fruamos indefinidamente a sua riqueza, a sua puls\u00e3o e a sua elevada dimens\u00e3o criativa. E podemos chorar como uma crian\u00e7a enquanto a ouvimos (aconteceu-me), pois al\u00e9m da qualidade t\u00e9cnica evidenciada \u00e9 m\u00fasica de emo\u00e7\u00e3o, entrega e sedu\u00e7\u00e3o. E nem necessitamos de a classificar com estrelas, pois esta \u00e9 mesmo m\u00fasica de estrelas num universo de gal\u00e1xias, t\u00e3o infinito como a imensid\u00e3o do universo. Ou\u00e7a-se, que vale mesmo a pena!<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 Jos\u00e9 Alberto Vasco<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano da gra\u00e7a de 2022 ficou para mim musicalmente singularizado na \u00e1rea da m\u00fasica culta contempor\u00e2nea desde que em mar\u00e7o foi disponibilizado no mercado pela Deutsche Grammophon o espl\u00eandido e determinante disco Drone Mass, honrando a orat\u00f3ria hom\u00f3nima do paradigm\u00e1tico compositor island\u00eas J\u00f3hann J\u00f3hannsson (1969-2018). 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