{"id":2263,"date":"2021-03-14T01:47:02","date_gmt":"2021-03-14T01:47:02","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=2263"},"modified":"2021-03-14T10:39:59","modified_gmt":"2021-03-14T10:39:59","slug":"a-pandemia-nao-tem-culpados-mas-a-gestao-da-pandemia-tem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2021\/03\/14\/a-pandemia-nao-tem-culpados-mas-a-gestao-da-pandemia-tem\/","title":{"rendered":"A pandemia n\u00e3o tem culpados, mas a gest\u00e3o da pandemia tem"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2265\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2265\" class=\"size-full wp-image-2265\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Mario_2021.jpg\" alt=\"Editorial\" width=\"300\" height=\"368\" \/><p id=\"caption-attachment-2265\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Lopes<\/p><\/div>\n<p>O negacionismo da COVId-19 tem sido combatida \u2013 e bem \u2013 pela generalidade da comunica\u00e7\u00e3o social e por organismos p\u00fablicos, como a Ordem dos M\u00e9dicos. Perante os efeitos devastadores da pandemia \u2013 em Portugal e no mundo \u2013 n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel, em nome de uma alegada liberdade de informa\u00e7\u00e3o, se propaguem informa\u00e7\u00f5es falsas e sem qualquer respaldo na evid\u00eancia cient\u00edfica que contribuem para o aumento de infe\u00e7\u00f5es e da mortalidade associada.<\/p>\n<p>Contudo, no polo oposto, tem surgido uma corrente muito respaldada pela comunica\u00e7\u00e3o social em geral, que defende que a gest\u00e3o nacional do controlo da COVID-19 \u00e9 assunto reservado a especialistas e que a 3\u00aa vaga que assolou Portugal e que nos colocou no primeiro Pa\u00eds do mundo no n\u00famero de infetados no m\u00eas de janeiro n\u00e3o \u00e9 culpa de ningu\u00e9m, dado que o v\u00edrus se espalhou naturalmente pelo Pa\u00eds inteiro.<\/p>\n<p>Come\u00e7o pela \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o que, na verdade, s\u00e3o duas. Naturalmente, o Governo n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela chegada do v\u00edrus a Portugal, que derivou dos contactos sociais e profissionais de uma economia cada vez mais globalizada. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o Governo tentou controlar a pandemia o melhor que p\u00f4de (bem ou mal assessorado, como veremos adiante) e, por isso, n\u00e3o me parece plaus\u00edvel que se possa acusar o governo de neglig\u00eancia grosseira neste processo.<\/p>\n<p>O caso muda de figura quanto \u00e0 compet\u00eancia pol\u00edtica para gerir o Pa\u00eds em tempo de pandemia, em que sa\u00fade e economia deveriam estar sempre associadas. \u00c9 neste cap\u00edtulo que, na minha opini\u00e3o, o Governo falhou rotundamente, com o comprova o infeliz lugar de pior pa\u00eds do mundo na gest\u00e3o da pandemia no m\u00eas de janeiro. Ao contr\u00e1rio do que nos querem fazer crer, n\u00e3o foi um acaso, nem uma consequ\u00eancia da variante brit\u00e2nica do v\u00edrus, foi mesmo incompet\u00eancia porque j\u00e1 todos sab\u00edamos que o crescimento da propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus era exponencial e, por isso, deveria ter sido contido atempadamente, logo a partir de setembro ou outubro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se compreende que o Governo tenha mantido o Pa\u00eds confinado na primeira vaga com 300 casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es e tenha ignorado 3, 4 ou 5 mil casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es. Hoje mesmo, a It\u00e1lia est\u00e1 a confinar com os mesmos valores que Portugal tinha em outubro ou novembro. A Fran\u00e7a imp\u00f5e confinamentos regionais com os mesmos valores. O que fez o Governo portugu\u00eas esperar por mais de 10 mil casos di\u00e1rios durante uma semana para finalmente agir \u00e9 a pergunta \u00f3bvia para a qual ainda n\u00e3o tivemos resposta.<\/p>\n<p>Muito se tem falado do Natal e da explos\u00e3o de casos resultantes dos milhares de encontros familiares realizados em todo o Pa\u00eds. Ora, se \u00e9 verdade que n\u00e3o fazia sentido proibir o encontro familiar no Natal, j\u00e1 n\u00e3o se compreende porque raz\u00e3o o Governo portugu\u00eas n\u00e3o imp\u00f4s regras, como fizeram a generalidade dos Pa\u00edses europeus. Nem era necess\u00e1rio ser criativo, bastava copiar o que os parceiros europeus fizeram. A B\u00e9lgica imp\u00f4s a proibi\u00e7\u00e3o de encontros de mais do que um elemento exterior ao n\u00facleo familiar. Caso fosse apenas uma pessoa em casa, podia convidar mais duas, mas n\u00e3o podiam usar a mesma casa de banho. Espanha, Fran\u00e7a, Alemanha e muitos outros pa\u00edses impuseram tamb\u00e9m restri\u00e7\u00f5es, noutros modelos, que tamb\u00e9m funcionaram.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Costa, na sua bonomia, apelou ao \u201cbom senso dos portugueses\u201d. Ora, como todos sabemos, o bom senso \u00e9 uma batata, n\u00e3o existe. Naturalmente, o ser humano \u00e9 um animal de h\u00e1bitos e fez o que sempre fez nos encontros familiares natal\u00edcios. A grande maioria das habita\u00e7\u00f5es n\u00e3o permite sequer distanciamentos sociais e o frio do inverno tamb\u00e9m n\u00e3o permite o arejamento das casas. O uso de m\u00e1scara de pouco ou nada serviu porque as pessoas tiveram de as tirar durante as habitualmente longas refei\u00e7\u00f5es. Cumpriu-se a Lei de Murphy: se pode correr mal, vai correr mal.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, o Governo prop\u00f4s a interdi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o entre concelhos em quatro fins de semana alargados: nos feriados de 1 de novembro, de 1e 8 de dezembro e 1 de janeiro. Nunca entendi o alcance desta medida: ser\u00e1 que as pessoas deixam de interagir socialmente s\u00f3 porque n\u00e3o podem mudar de concelho? Ora, provavelmente, a maioria das pessoas tem muitos dos seus amigos e familiares no pr\u00f3prio concelho onde reside e, portanto, podem encontrar-se e propagar o v\u00edrus. Da\u00ed esta medida ser, no m\u00ednimo, de uma efic\u00e1cia muito duvidosa. Isso mesmo se pode comprovar analisando o gr\u00e1fico de casos di\u00e1rios, cujas curvas nunca desceram, pelo menos significativamente, nas duas semanas ap\u00f3s estas restri\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00f5es entre concelhos. Porqu\u00ea insistir ent\u00e3o nela?<\/p>\n<p>Al\u00e9m de infernizar a vida de muitos cidad\u00e3os, que se viram impedidos de se deslocarem pelas mais variadas raz\u00f5es que n\u00e3o se traduziam em qualquer acr\u00e9scimo de propaga\u00e7\u00e3o de v\u00edrus (por exemplo, uma fam\u00edlia que se desloca para uma segunda habita\u00e7\u00e3o um fim de semana e regressa a casa), continuou a permitir o encontro social de pessoas dentro do mesmo concelho e a consequente propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. O exemplo mais evidente foram os milhares de almo\u00e7os e jantares realizados por todo o Pa\u00eds durante o feriado do fim de ano e que contribuiu para o aumento de casos de infe\u00e7\u00e3o nas duas primeiras semanas de janeiro.<\/p>\n<p><strong>A gest\u00e3o da pandemia em janeiro<\/strong><\/p>\n<p>Perante os sucessivos erros cometidos desde setembro (como a permiss\u00e3o de casamentos e batizados com centenas de pessoas, primeiro, e apenas limitado a 50 depois) e a sucess\u00e3o de miniconfinamentos, sempre sem resultados vis\u00edveis, mas sempre repetidos (porqu\u00ea?), agravados pelos erros de palmat\u00f3ria cometidos em dezembro, como j\u00e1 expliquei, n\u00e3o restava outra alternativa sen\u00e3o o confinamento total.<\/p>\n<p>Por isso, logo no dia 8 de janeiro, defendi o encerramento das escolas. Por duas raz\u00f5es: a primeira era a onda de frio anormal para o qual as escolas portuguesas n\u00e3o est\u00e3o preparadas e que limita enormemente as aprendizagens (a fotografia publicada num jornal de um alunos com mantas e gorro tornou-se viral e retrata bem o problema que o Governo quis ignorar) a segunda era o descontrolo j\u00e1 bem vis\u00edvel da pandemia e que inevitavelmente se iria agravar muito mais (o tal crescimento exponencial que j\u00e1 todos t\u00ednhamos visto em It\u00e1lia, Espanha e at\u00e9 em Portugal em mar\u00e7o de 2020).<\/p>\n<p>Mais uma vez, o Governo tentou a fuga para a frente, repetindo a cassete de que o Pa\u00eds n\u00e3o aguentaria um segundo confinamento, depois optou por fechar os suspeitos do costume (com\u00e9rcio, restaura\u00e7\u00e3o e centros comerciais) e s\u00f3 depois de um clamor nacional e de admitir que os n\u00edveis de mobilidade dos cidad\u00e3os quase n\u00e3o haviam mudado, decidiu encerrar as escolas.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que dizem o Governo e o Presidente da Rep\u00fablica, o erro da gest\u00e3o da pandemia n\u00e3o ocorreu em dezembro, mas em outubro e novembro, quando os n\u00fameros de novos infetados di\u00e1rios subiram para os 3, 4 e 5 mil. Todos sabiam que a progress\u00e3o do cont\u00e1gio \u00e9 exponencial e que s\u00f3 poderia escalar para os 7, 8, 9 ou 10 mil casos. Tamb\u00e9m o escrevi na ocasi\u00e3o. O Natal foi apenas o gatilho para atingir um resultado que era perfeitamente previs\u00edvel.<\/p>\n<p>A desculpa do Governo de que foi apanhado desprevenido com o aparecimento da variante inglesa n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida para o resultado de dezembro, sabendo-se que na primeira semana de janeiro se situava apenas nos 6% e s\u00f3 no final do m\u00eas atingiu a casa dos 40%. A variante inglesa do v\u00edrus SARS-CoV-2 foi apenas respons\u00e1vel por atingirmos mais rapidamente o pico de 16 mil novos casos di\u00e1rios, no final de janeiro, n\u00e3o por atingirmos o patamar dos 10 mil casos, valor mais do que suficiente para p\u00f4r em causa a capacidade de resposta do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>A gest\u00e3o da pandemia em fevereiro<\/strong><\/p>\n<p>Fevereiro foi um m\u00eas not\u00e1vel na redu\u00e7\u00e3o da pandemia em Portugal, baixando para o patamar dos mil casos di\u00e1rios, id\u00eanticos aos do m\u00eas de outubro. Surpresa? Tamb\u00e9m aqui n\u00e3o podemos falar de uma grande surpresa por duas raz\u00f5es: estivemos sujeitos a um dos confinamentos mais agressivos do mundo e essa circunst\u00e2ncia n\u00e3o poderia deixar de ter resultados significativos, por um lado, e os portugueses voltaram a sentir o medo que j\u00e1 sentiram durante o primeiro confinamento, com as imagens alarmantes de hospitais \u00e0 beira da rotura, e por isso, respeitaram as regras do confinamento.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o se compreende que Governo, Presidente da Rep\u00fablica e o grupo de cientistas que re\u00fane no INFARMED \u2013 designemo-lo assim\u2013 tenham desde logo pr\u00e9-anunciado no in\u00edcio de fevereiro \u2013 j\u00e1 com o n\u00famero de infe\u00e7\u00f5es di\u00e1rias em queda acentuada &#8211; um confinamento geral at\u00e9 \u00e0 P\u00e1scoa: dois meses depois!<\/p>\n<p>Durante os \u00faltimos meses, os portugueses foram brindados com erros calamitosos nas previs\u00f5es dos matem\u00e1ticos que vieram a p\u00fablico prever o n\u00famero de infe\u00e7\u00f5es, chegando a ver desmentidas no pr\u00f3prio dia \u00e0 tarde previs\u00f5es divulgadas nessa manh\u00e3 para as semanas seguintes!<\/p>\n<p>Portanto, com tamanho historial de erros grosseiros, n\u00e3o se compreende como \u00e9 que um grupo de matem\u00e1ticos em fevereiro se atreve a fazer previs\u00f5es para abril, mais de dois meses depois! Seguramente, com tantas vari\u00e1veis imprevis\u00edveis (efeito das variantes do v\u00edrus, grau de vacina\u00e7\u00e3o, comportamento da popula\u00e7\u00e3o, etc.) quaisquer previs\u00f5es seriam sempre mais futurologia que ci\u00eancia. Como seria espect\u00e1vel, os tais matem\u00e1ticos enganaram-se e o n\u00edvel da pandemia recuou consideravelmente para um n\u00edvel que j\u00e1 n\u00e3o justificava um confinamento total.<\/p>\n<p>O que assistimos depois por parte de todos \u2013 Governo, Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e cientistas foi, n\u00e3o uma admiss\u00e3o do erro, como seria normal e saud\u00e1vel numa democracia e numa comunidade cient\u00edfica, mas uma fuga para a frente, com a divulga\u00e7\u00e3o de novas linhas vermelhas, cada vez mais exigentes: agora j\u00e1 n\u00e3o eram dois mil casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es, dois mil casos de internamentos em enfermaria e 200 casos em cuidados intensivos, mas mil casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es, 1500 casos de internamentos e enfermaria e 200 casos em cuidados intensivos.<\/p>\n<p>Como a maioria destes indicadores foi tamb\u00e9m atingido, voltaram a alterar as linhas vermelhas para 500 casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es, 1000 casos de internamentos e enfermaria e 200 casos em cuidados intensivos. As linhas vermelhas tornaram-se curvas deslizantes, que se ajustavam ao objetivo tra\u00e7ado em meados de fevereiro, sem qualquer base cient\u00edfica ou de racionalidade: confinar at\u00e9 \u00e0 P\u00e1scoa, custasse o que custasse, fossem quais fossem os indicadores.<\/p>\n<p>Os argumentos sucessivamente apresentados por Governo, Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e at\u00e9 cientistas foram extraordin\u00e1rios e um caso de par\u00f3dia muito bem aproveitados pelo humorista Ricardo Ara\u00fajo Pereira no seu programa \u201cIsto \u00e9 Gozar com quem trabalha\u201d para deixar a nu as incoer\u00eancias de discurso.<\/p>\n<p><strong>\u201cA P\u00e1scoa n\u00e3o pode ser repeti\u00e7\u00e3o do Natal\u201d: compara\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis s\u00e3o geralmente compara\u00e7\u00f5es erradas<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, \u201cos portugueses n\u00e3o entenderiam que se desconfinasse antes da P\u00e1scoa, para se confinar durante a P\u00e1scoa, para se desconfinar logo a seguir.\u201d Como assim? Foi precisamente isso que foi feito nos feriados de 1 de novembro, 1 e 8 de dezembro e 1 de janeiro! Confinou-se e depois desconfinou-se, sem nenhum problema. Ningu\u00e9m se queixou de problemas de entendimento, nem o Governo, nem o Presidente da Rep\u00fablica, nem ningu\u00e9m, que eu saiba! Como tal, com o devido respeito, este \u00e9 um argumento sem qualquer sentido.<\/p>\n<p>O segundo argumento, tamb\u00e9m extraordin\u00e1rio, \u00e9 que \u201c a P\u00e1scoa n\u00e3o pode ser a repeti\u00e7\u00e3o do Natal.\u201d Em primeiro lugar, os encontros familiares s\u00e3o muito menos frequentes na P\u00e1scoa que no Natal, em que muitas fam\u00edlias aproveitam para fazer f\u00e9rias em novos lugares, frequentemente em hot\u00e9is, casas alugadas ou at\u00e9 campismo. Portanto, mesmo que n\u00e3o houvesse quaisquer restri\u00e7\u00f5es, como no Natal, as consequ\u00eancias seriam muito menores porque h\u00e1 muito menos encontros familiares.<\/p>\n<p>Por outro lado, desloca\u00e7\u00f5es para fora da resid\u00eancia habitual n\u00e3o significa necessariamente maior risco de contrair infe\u00e7\u00f5es. Os hot\u00e9is, como se comprovou durante o ver\u00e3o de 2020, s\u00e3o lugares seguros, cumprindo todas as regras de seguran\u00e7a sanit\u00e1ria e que foram aprovadas pelas autoridades de sa\u00fade. Se foram seguros no ver\u00e3o de 2020, n\u00e3o tendo sido registados aumento de infe\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o ser\u00e3o seguros na P\u00e1scoa de 2021?<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, a perman\u00eancia em casa pode tamb\u00e9m potenciar um aumento de infe\u00e7\u00f5es, como se verificou durante o Ano Novo, em que foi decretado o confinamento e a proibi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o entre concelhos. Milhares de almo\u00e7os e jantares de amigos se realizaram, apesar de cumprirem todas as regras de confinamento, causando milhares de novas infe\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Antevejo que possa acontecer o mesmo nesta P\u00e1scoa, com a subida do n\u00famero de infe\u00e7\u00f5es, \u00e0 boleia do bom tempo e da diminui\u00e7\u00e3o do medo da pandemia. A verdade \u00e9 que o Homem \u00e9 um ser social, juntando-se naturalmente para promover o seu bem-estar emocional e n\u00e3o \u00e9 preciso mudar de concelho para reunir amigos e familiares que, muitas vezes, vivem no mesmo concelho.<\/p>\n<p>Mais seguro seria deixar as fam\u00edlias sair nesta P\u00e1scoa para fora do seu domic\u00edlio, por duas raz\u00f5es: primeiro, geralmente \u00e9 apenas o n\u00facleo familiar que viaja e, na aus\u00eancia de bares e discotecas abertas, interage apenas entre si, n\u00e3o causando novas infe\u00e7\u00f5es e, em segundo lugar, seria muito ben\u00e9fico para o setor da hotelaria, que t\u00e3o necessitado est\u00e1 de receitas para sobreviver.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a P\u00e1scoa nunca seria o Natal por uma outra raz\u00e3o: no momento em que escrevo (13 de mar\u00e7o) j\u00e1 h\u00e1 mais de um milh\u00e3o de pessoas vacinadas e 800 mil com anticorpos contra o coronav\u00edrus por terem sido infetadas com o SARS-CoV-2. Na P\u00e1scoa, o n\u00famero de vacinados j\u00e1 estar\u00e1 pr\u00f3xima dos dois milh\u00f5es, portanto o cen\u00e1rio do pico de infe\u00e7\u00f5es do Natal \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 irrepet\u00edvel como materialmente imposs\u00edvel de acontecer.<\/p>\n<p>Corrigir o &#8220;erro do Natal&#8221; seria definir regras para as desloca\u00e7\u00f5es dos portugueses durante a P\u00e1scoa, que n\u00e3o foram implementadas inexplicavelmente em dezembro. Proibir todos os portugueses de sa\u00edrem de casa \u00e9 mais uma prova de incompet\u00eancia e a confiss\u00e3o de que \u00e9 o Governo \u00e9 incapaz de definir regras de mobilidade que impe\u00e7am a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, pelo menos em grande escala. Nada impede que o conceito de &#8220;bolha familiar&#8221; se aplique tamb\u00e9m \u00e0 mobilidade. Esta proibi\u00e7\u00e3o absoluta de viajar na P\u00e1scoa n\u00e3o vai ocorrer na generalidade dos pa\u00edses europeus. A It\u00e1lia, com um n\u00edvel de infe\u00e7\u00f5es di\u00e1rias cinco vezes superior a Portugal, \u00e9 uma das exce\u00e7\u00f5es e compreende-se.<\/p>\n<p>Esta obsess\u00e3o de tudo proibir em nome da pandemia come\u00e7a a ser combatida por um n\u00famero cada vez maior de portugueses, que j\u00e1 come\u00e7ou a desconfinar mesmo em pleno Estado de Emerg\u00eancia. Espero que a P\u00e1scoa de 2021 n\u00e3o esteja para este Governo como o Carnaval de 1993 esteve para o Governo de Cavaco Silva, em que o primeiro-ministro de ent\u00e3o decidiu proibir o Carnaval, recusando atribuir toler\u00e2ncia de ponto aos funcion\u00e1rios do Estado, tendo tido como resposta uma massiva desobedi\u00eancia civil. Seguramente, se os portugueses ficarem em casa desta vez ser\u00e1 pelo medo das multas, n\u00e3o da pandemia.<\/p>\n<p><strong>A variante inglesa: o novo Adamastor para amedrontar os portugueses<\/strong><\/p>\n<p>Os cientistas informaram que a nova variante inglesa do SARS-CoV-2 \u00e9 cerca de 70% mais contagiosa que a variante inicial. Naturalmente, aceito a informa\u00e7\u00e3o como v\u00e1lida. O que n\u00e3o aceito \u00e9 que essa informa\u00e7\u00e3o seja utilizada para amedrontar as pessoas e lev\u00e1-las a aceitar este longu\u00edssimo confinamento \u2013 traduzido em 13 Estados de Emerg\u00eancia, que podem chegar a 15! &#8211; que p\u00f5e em causa um dos princ\u00edpios do estado de Direito e que existe desde os prim\u00f3rdios da humanidade: o direito \u00e0 circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a nova variante inglesa do SARS-CoV-2 n\u00e3o \u00e9 um exclusivo de Portugal estando disseminada por toda a Europa. Ora, os n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus na generalidade dos pa\u00edses europeus continua moderado \u2013 exceptuando dois ou tr\u00eas casos em mais de 30 pa\u00edses, muitos dos quais n\u00e3o est\u00e3o confinados (como a Fran\u00e7a, exceptuando algumas localidades), ou t\u00eam confinamentos mais suaves (como a Espanha) ou j\u00e1 est\u00e3o desconfinados (como a Alemanha ou o Reino Unido). Se a variante inglesa n\u00e3o impede os desconfinamentos nos outros pa\u00edses europeus porque raz\u00e3o nos continuam a dizer que vem a\u00ed o Diabo e, por isso, temos de continuar confinados e a empobrecer brutalmente a cada dia que passa?<\/p>\n<p>Na verdade, conv\u00e9m n\u00e3o esquecermos que n\u00e3o h\u00e1 confinamentos gr\u00e1tis. Milhares de empregos se v\u00e3o perder e milhares de empresas v\u00e3o falir, agora ou mais \u00e0 frente, quando se acabarem as morat\u00f3rias de cr\u00e9dito. Tudo isto, por causa de fantasias e medos irracionais sem qualquer ades\u00e3o \u00e0 realidade, como procurei demonstrar. A pandemia \u00e9 um problema para Portugal, mas n\u00e3o pode ficar ref\u00e9m do medo da pandemia.<\/p>\n<p><strong>O n\u00edvel zero de contamina\u00e7\u00f5es: a compara\u00e7\u00e3o errada e imposs\u00edvel com a Isl\u00e2ndia e a Austr\u00e1lia<\/strong><\/p>\n<p>Paulo Portas, no seu programa de coment\u00e1rio na TVI, veio dar o exemplo da Isl\u00e2ndia e da Austr\u00e1lia para afirmar que \u00e9 poss\u00edvel conter a transmiss\u00e3o do v\u00edrus a n\u00edveis pr\u00f3ximos de zero. E, apesar de alertado pelo moderador Jos\u00e9 Aberto Carvalho de que se trata de lhas, insistiu em dar o exemplo destes dois pa\u00edses como exemplos na gest\u00e3o da pandemia.<\/p>\n<p>Outros, como um grau de responsabilidade muito mas elevado como alguns cientistas, sa\u00edram tamb\u00e9m a terreiro a dar o exemplo de outros pa\u00edses com baixos n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o como exemplos: Coreia do Sul, Taiwan e Dinamarca, todos democracias. Na verdade, a Coreia do Sul n\u00e3o \u00e9 uma ilha, mas \u00e9 uma pen\u00ednsula, em que do outro lado da fronteira est\u00e1 a ultra-isolada Coreia do Norte. Portanto, a Coreia do Sul \u00e9 equivalente a uma ilha. J\u00e1 Taiwan \u00e9 mesmo uma ilha.<\/p>\n<p>Resta a Dinamarca, t\u00e3o citada pelo nosso grupo de cientistas. Na verdade, a Dinamarca tem \u00a0443 ilhas, das quais 78 habitadas, uma fonteira estreita com a Alemanha com apenas 68 km. Desde 2000, est\u00e1 ligada \u00e0 Su\u00e9cia pela Ponte do \u00d8resund. Ora, nada deste pa\u00eds semi-isolado do resto da Europa tem a ver com Portugal, com uma fronteira terrestre com Espanha de cerca de mil quil\u00f3metros!<\/p>\n<p>Naturalmente, \u00e9 muito f\u00e1cil os pa\u00edses citados controlarem quem entra no seu pa\u00eds atrav\u00e9s dos port\u00f5es dos aeroportos, onde s\u00f3 entra um de cada vez, exigindo teste PCR ou, agora, comprovativo de vacina\u00e7\u00e3o. Como ser\u00e1 relativamente f\u00e1cil para a Madeira ou os A\u00e7ores faz\u00ea-lo. Naturalmente, este controlo \u00e9 incomparavelmente mais dif\u00edcil de realizar em pa\u00edses com grandes fronteiras terrestres abertas, como Portugal, Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia ou Alemanha, onde habitualmente entram a cada hora, milhares de pessoas sem qualquer controlo.<\/p>\n<p>Como tal, n\u00e3o me parece leg\u00edtimo ou s\u00e9rio comparar Portugal com os seus mil quil\u00f3metros de fronteira terrestre com ilhas ou semi-ilhas, classificando estas como \u201ccampe\u00f5es da luta contra a COVID-19. \u201c N\u00e3o, estes pa\u00edses n\u00e3o t\u00eam governos n\u00e3o s\u00e3o mais inteligentes, n\u00e3o s\u00e3o mais competentes, nem t\u00eam povos mais respons\u00e1veis, s\u00e3o apenas ilhas. E isso, como aqui procurei demonstrar, faz toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Sendo assim, n\u00e3o me parece s\u00e9rio prometer \u2013 como Governo, Presidente da Rep\u00fablica e cientistas parecem fazer crer, embora ainda n\u00e3o o tenham assumido &#8211; que Portugal se possa comparar a Taiwan ou \u00e0 Dinamarca e ter um n\u00famero de infe\u00e7\u00f5es por coronav\u00edrus pr\u00f3ximo de zero. S\u00f3 o poder\u00edamos conseguir em confinamento permanente e com fronteiras fechadas permanentemente, o que levaria rapidamente Portugal ao colapso econ\u00f3mico e social.<\/p>\n<p>Estou em crer que a vacina\u00e7\u00e3o massiva da popula\u00e7\u00e3o portuguesa \u2013 e europeia \u2013 trar\u00e1 a pandemia para n\u00edveis residuais a partir do ver\u00e3o. Contudo, continuo a afirmar que confin\u00e1mos demais e mal. Na primeira vaga, em que 1\/3 dos concelhos tiveram zero casos de infe\u00e7\u00e3o, bastariam 15 dias de confinamento geral e, quanto muito, mais 15 dias de um ou outro confinamento regional. Infelizmente, Governo e Presidente da Rep\u00fablica preferiram manter o pa\u00eds mais um ou dois meses (conforme os sectores) a destruir emprego.<\/p>\n<p>Nesta terceira vaga (ou segunda, na minha opini\u00e3o), vamos estar mais dois meses confinados (mar\u00e7o e abril) do que o estritamente necess\u00e1rio, com um impacto brutal na nossa economia, de que s\u00f3 daremos conta totalmente dentro de alguns meses, quando as d\u00edvidas de milh\u00f5es de fam\u00edlias e empresas tiverem de ser pagas. Cada m\u00eas que passa com metade do Pa\u00eds parado \u00e9 o equivalente ao deflagrar de uma bomba at\u00f3mica econ\u00f3mica. Ant\u00f3nio Costa j\u00e1 se declarou surpreendido com os efeitos econ\u00f3micos do primeiro confinamento, espero que nos poupe \u00e0 mesma declara\u00e7\u00e3o para o segundo confinamento.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 famosa bazuca da Uni\u00e3o Europeia, muito dinheiro para ser gasto muito depressa tem todos os ingredientes para correr mal. Consequ\u00eancias? Corrup\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fico de influ\u00eancias e investimentos sem qualquer benef\u00edcio para o desenvolvimento do Pa\u00eds. J\u00e1 vimos este filme antes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel que se compense o erro do Natal e janeiro (confinar demasiado tarde), com um erro de sentido oposto na P\u00e1scoa (desconfinar demasiado tarde), para limpar a imagem do primeiro-ministro de laxista na gest\u00e3o da pandemia e se tornar agora o campe\u00e3o da gest\u00e3o da pandemia, reduzindo-a quase a zero. Pode ser que a limpeza funcione e que a imagem do primeiro-ministro melhore, mas o pre\u00e7o a pagar \u00e9 inadmiss\u00edvel. Lojas encerradas, filas para os Bancos Alimentares e desemprego s\u00e3o apenas a ponta vis\u00edvel do iceberg do que est\u00e1 para ocorrer.<\/p>\n<p>Continuamos \u00e0 espera que Governo, Presidente da Rep\u00fablica e o seu grupo de cientistas do INFARMED nos expliquem porque \u00e9 que n\u00e3o quiseram confinar o Pa\u00eds, com 5, 7 ou 10 mil casos di\u00e1rios de COVID-19 (em dezembro e janeiro) e agora exijam que os portugueses permane\u00e7am confinados \u2013 com um dos confinamentos mais agressivos do mundo &#8211; com menos de 500 casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O programa de desconfinamento chega com um m\u00eas de atraso e, em muitos casos, ser\u00e1 demasiado tarde para muitas empresas. Recordo que mesmo ap\u00f3s o desconfinamento geral, essas empresas continuar\u00e3o a ter restri\u00e7\u00f5es no seu funcionamento durante meses e n\u00edveis de fatura\u00e7\u00e3o muito inferiores ao per\u00edodo pr\u00e9-pandemia. Tamb\u00e9m o turismo continuar\u00e1 afetado nos pr\u00f3ximos meses ou anos, por via das restri\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, do medo dos turistas de viajar para longe e da crise econ\u00f3mica que ir\u00e1 afetar toda a economia mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o agravar este panorama j\u00e1 muito sombrio \u2013 com confinamentos desajustados fora de tempo &#8211; era o m\u00ednimo que se poderia esperar dos nossos governantes. N\u00e3o foram eles que nos garantiram em novembro, dezembro e janeiro de que o Pa\u00eds n\u00e3o aguentaria novo confinamento? Ent\u00e3o agora j\u00e1 podemos ficar confinados meses a fio, sem problema, mesmo com n\u00fameros residuais de COVID-19? A agenda do medo pode ser popular, pelo menos para uma parte dos portugueses, mas n\u00e3o \u00e9 coerente, n\u00e3o \u00e9 racional, nem serve o Pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0M\u00e1rio Lopes<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O negacionismo da COVId-19 tem sido combatida \u2013 e bem \u2013 pela generalidade da comunica\u00e7\u00e3o social e por organismos p\u00fablicos, como a Ordem dos M\u00e9dicos. Perante os efeitos devastadores da pandemia \u2013 em Portugal e no mundo \u2013 n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel, em nome de uma alegada liberdade de informa\u00e7\u00e3o, se propaguem informa\u00e7\u00f5es falsas e sem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2265,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2263"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2277,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2263\/revisions\/2277"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}