{"id":23177,"date":"2022-12-20T16:21:50","date_gmt":"2022-12-20T16:21:50","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=23177"},"modified":"2022-12-20T16:22:50","modified_gmt":"2022-12-20T16:22:50","slug":"natal-em-50-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2022\/12\/20\/natal-em-50-palavras\/","title":{"rendered":"Natal, em 50 palavras"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_23178\" style=\"width: 246px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-23178\" class=\"wp-image-23178 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Opiniao_antonio-valdemar.jpg\" alt=\"\" width=\"236\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Opiniao_antonio-valdemar.jpg 236w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Opiniao_antonio-valdemar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 236px) 100vw, 236px\" \/><p id=\"caption-attachment-23178\" class=\"wp-caption-text\">Ant\u00f3nio Valdemar<\/p><\/div>\n<p><em>A narrativa de Teixeira Gomes a prop\u00f3sito de uma ceia de pescadores, dentro de um barco, no Algarve, convoca a mem\u00f3ria dos que partiram e j\u00e1 n\u00e3o voltam mais e a presen\u00e7a dos que se encontravam longe e deviam estar perto. <\/em><\/p>\n<p>O Natal, em todos os pa\u00edses do mundo onde \u00e9 celebrado, constitui um tema intermin\u00e1vel. Quantas antologias recolheram textos de poetas, escritores e dramaturgos que, ao longo dos s\u00e9culos, se pronunciaram acerca de todas as motiva\u00e7\u00f5es do Natal? Mas em nenhuma antologia de l\u00edngua portuguesa existe a breve evoca\u00e7\u00e3o de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941) que s\u00f3 com as palavras necess\u00e1rias construiu o cen\u00e1rio para sintetizar os sentimentos mais profundos que emergem nesta quadra do ano.<\/p>\n<p>Retomo o tema com alguns desenvolvimentos. A presen\u00e7a liter\u00e1ria de Teixeira Gomes ficou, muitas vezes, ofuscada pela milit\u00e2ncia partid\u00e1ria para a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica (1910); o desempenho da carreira diplom\u00e1tica, (1911 \u2013 1923), no per\u00edodo tr\u00e1gico da I\u00aa Guerra Mundial, \u00e0 frente da embaixada de Portugal em Londres e, entre 1923 a 1925, o exerc\u00edcio da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, repleto de conflitos nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Enquanto Chefe de Estado, enfrentou crises partid\u00e1rias e militares que desencadearam sucessivas quedas e substitui\u00e7\u00f5es de governos. Procurou a reconcilia\u00e7\u00e3o da classe pol\u00edtica e das For\u00e7as Armadas. Perante o impasse, a agita\u00e7\u00e3o e a inseguran\u00e7a, no dia 10 de Dezembro de 1925, apresentou a demiss\u00e3o. Meses depois, o Ex\u00e9rcito implantava a ditadura militar e entregou, depois, o poder a Salazar para outra ditadura. O regime durou quase meio s\u00e9culo. At\u00e9 ao 25 de Abril de 1974.<\/p>\n<p>Triste, amargurado, desiludido, Teixeira Gomes (propriet\u00e1rio abastado e lavrador rural do Algarve) resolveu, ent\u00e3o, viajar de pa\u00eds em pa\u00eds. Foi o que chamou \u00aba grande Primavera da Liberdade\u201d. Transformado num cidad\u00e3o an\u00f3nimo, avan\u00e7ou para o Mediterr\u00e2neo. Apetecia-lhe voltar aos museus, \u00e0s catedrais, aos pal\u00e1cios, aos jardins. Ver e rever, sem pressa, monumentos e paisagens. Usufruir os acasos do espet\u00e1culo humano das ruas. A curiosidade insaci\u00e1vel associada \u00e0 energia f\u00edsica levaram-no, finalmente, \u00e0 aventura da descoberta do Norte de \u00c1frica. Fazia \u00abcerca de dez quil\u00f3metros de marcha di\u00e1ria, caminhadas sem fim at\u00e9 ao salutar cansa\u00e7o que prepara os sonos profundos de onde se ressurge mais rijo e satisfeito\u201d. Mas ao acentuar-se o envelhecimento mudou, por completo, a vida que levava ao ar livre para \u2013 \u00e9 melhor cit\u00e1-lo \u2013 continuar \u00absaud\u00e1vel, pr\u00f3spero e feliz como um deus que regressou do Olimpo\u00bb.<\/p>\n<p>A reta final decorreu em Bougie, atualmente Bejaia. Tive a honra de ter sido convidado pelo Presidente Jorge Sampaio \u2013 no \u00faltimo dia do exerc\u00edcio do segundo mandato \u2014 para ser o orador quando ali foi colocado um monumento \u00e0 mem\u00f3ria de Teixeira Gomes, da autoria da escultora Irene Vilar. Teixeira Gomes em Bougie morou no pequeno Hotel l\u2019Etoile que possu\u00eda o conforto indispens\u00e1vel. O quarto tinha (e tem) o n\u00famero 13 e uma janela para o mar. A vista abrange a cordilheira de Kabila, sempre coberta de neve. Passou a consagrar-se, em tempo inteiro, \u00e0 escrita. Com uma disciplina di\u00e1ria, de 1931 a 1941, entre os 70 e os 80 anos, na idade em que todos acabam, retomou cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Colaborava em jornais e revistas de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Reeditava livros que lhe deram renome intelectual. Publicava novos livros, que tiveram o maior \u00eaxito, provocaram surpresa e causaram esc\u00e2ndalo liter\u00e1rio e pol\u00edtico, tais como Maria Adelaide e Novelas Er\u00f3ticas. Permanecia na \u00edntegra o homem rebelde, insatisfeito, frontal, aberto ao mundo, \u00abcom todos os sentidos despertos\u00bb \u2013 assim se definiu \u2013 \u00abpara glorificar o esplendor da luz e para divinizar quantas maravilhas ela nos revela, desde o cristal das fontes, que fecundam a terra sequiosa, at\u00e9 ao corpo humano, carne ambulante e sensual, onde se encerra e se propaga a ess\u00eancia da raz\u00e3o e do amor\u00bb. Ambos os livros foram condenados pela Igreja, proibidos pela Censura e confiscados pela PIDE.<\/p>\n<p>Teixeira Gomes, num dos seus \u00faltimos livros, com o t\u00edtulo simb\u00f3lico Regressos, reuniu textos acerca das muitas viagens que fizera para descobrir Portugal. Conhecer as terras e os tesouros que as colocaram no mapa e onde, tamb\u00e9m, exalta a l\u00edngua portuguesa e a sua proje\u00e7\u00e3o no Brasil. Em todas as circunst\u00e2ncias \u00e9 um livro not\u00e1vel. Assim o referiu: \u00abtento agora escrever e provavelmente nunca terminarei este livro\u00bb. \u00abS\u00e3o as impress\u00f5es\u00bb \u2013 esclareceu Teixeira Gomes \u2014 \u00abmais remotas da mocidade (ou as primeiras impress\u00f5es de paisagens e monumentos revistos pela vida fora), colhidas no meu pa\u00eds, e lembradas longe dele, n\u00e3o podia deixar de incluir algumas p\u00e1ginas consagradas \u00e0 minha terra natal. Como ali faltam os monumentos, diligenciarei evoc\u00e1-la em paisagens\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do pequeno grande texto que transcrevemos na integra: \u00abNatal: noite de levante fr\u00edgido, anavalhado. Sobre a ponte. A lua espelha-se na \u00e1gua com um verde p\u00e1lido, cuja vista d\u00e1 acidez ao vento. O rio, em Ferragudo e na pequena enseada do Convento, coalhado de ca\u00edques arribados, que ardem todos com as chamas levantadas sobre o conv\u00e9s pelas \u201ccampanhas\u201d que preparam a ceia. C\u00e9u desmaiado, sem estrelas, com o luar a escorrer como um l\u00edquido sobre vidro \u2026\u00bb<\/p>\n<p>S\u00f3 isto. Um barco na enseada e os pescadores que foram parar ao Algarve, a acenderem o lume para a ceia. Teixeira Gomes recordava o que vira, pr\u00f3ximo da sua casa em Portim\u00e3o, entre o rio e o mar, entre o Arade e o Atl\u00e2ntico que j\u00e1 \u00e9 quase Mediterr\u00e2neo. Deixara o resto para a imagina\u00e7\u00e3o de qualquer um de n\u00f3s. Tudo coube em muito poucas palavras. Os pescadores n\u00e3o esqueciam naufr\u00e1gios e outras fatalidades no alto mar e, sobretudo, a fam\u00edlia em casa, em redor da mesa da consoada.<\/p>\n<p>Era o di\u00e1logo entre todos os que passaram pelas suas vidas. Falavam uns com os outros. Ou recolhiam-se em sil\u00eancios. Uns breves. Outros prolongados e sufocantes. Surgiam os que partiram e j\u00e1 n\u00e3o voltam mais. E os que se encontravam longe e deviam estar perto. Os mortos e os vivos. As horas tristes e as horas alegres. Bastou dizer que era noite. E dizer apenas que tamb\u00e9m era Natal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A narrativa de Teixeira Gomes a prop\u00f3sito de uma ceia de pescadores, dentro de um barco, no Algarve, convoca a mem\u00f3ria dos que partiram e j\u00e1 n\u00e3o voltam mais e a presen\u00e7a dos que se encontravam longe e deviam estar perto. 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