{"id":40226,"date":"2025-05-28T23:27:59","date_gmt":"2025-05-28T23:27:59","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=40226"},"modified":"2025-05-28T23:27:59","modified_gmt":"2025-05-28T23:27:59","slug":"guia-pratico-para-subir-na-vida-sem-saber-fazer-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2025\/05\/28\/guia-pratico-para-subir-na-vida-sem-saber-fazer-nada\/","title":{"rendered":"Guia Pr\u00e1tico para Subir na Vida Sem Saber Fazer Nada"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_8449\" style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8449\" class=\"wp-image-8449 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Nuno-Catita10.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"467\" \/><p id=\"caption-attachment-8449\" class=\"wp-caption-text\">Nuno Catita<\/p><\/div>\n<p>Quer mandar? Nada mais f\u00e1cil. Em Portugal, chega-se a um cargo pol\u00edtico com tr\u00eas ingredientes simples: cart\u00e3o partid\u00e1rio, talento para fingir que se ouve, e um sorriso t\u00e3o vazio quanto as promessas em tempo de campanha. Ser um bom pol\u00edtico? J\u00e1 exige mais trabalho. E ser Presidente de C\u00e2mara, Junta ou at\u00e9 da comiss\u00e3o de festas do bairro, devia ser coisa s\u00e9ria. Mas neste pa\u00eds, basta parecer que se quer. E, \u00e0s vezes, nem isso \u00e9 preciso.<\/p>\n<p>Nos bastidores da pol\u00edtica local, muitos encaram a elei\u00e7\u00e3o como um chamamento divino. Acreditam que sentar-se na cadeira do poder \u00e9 uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o sagrada, e n\u00e3o uma fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Esquecem-se de um pormenor: a cadeira n\u00e3o \u00e9 deles. Nunca foi. \u00c9 da popula\u00e7\u00e3o. Mas pronto, basta ganhar umas elei\u00e7\u00f5es para se achar iluminado, e, j\u00e1 agora, automaticamente competente. Como se votos transferissem intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Ser Presidente de C\u00e2mara, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 vencer um campeonato de promessas e depois tirar quatro anos de f\u00e9rias remuneradas. \u00c9 assumir um compromisso s\u00e9rio com todas as freguesias, mesmo aquelas onde se perdeu por goleada. \u00c9 perceber que o concelho n\u00e3o acaba na pra\u00e7a central nem come\u00e7a no caf\u00e9 do costume, e que as freguesias n\u00e3o s\u00e3o extens\u00f5es inc\u00f3modas de um poder centralizador e paternalista.<\/p>\n<p>Depois vem a escolha das equipas. E aqui \u00e9 que a coisa descamba. Porque as equipas, em vez de se formarem com base em compet\u00eancia, formam-se com base em copos partilhados, favores antigos e milit\u00e2ncia cega. Colou cartazes? D\u00e1 um pelouro. Sempre disse &#8220;sim, senhor presidente&#8221;? D\u00e1-lhe um lugar. Sabe pensar por si? Ui, perigoso. Pode fazer sombra. E a sombra \u00e9 o pior inimigo dos autarcas que confundem protagonismo com trabalho feito.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 os que acham que mandar \u00e9 mandar calar. Os que confundem lideran\u00e7a com autoritarismo, e gest\u00e3o com gritaria. Rodeiam-se de figurantes que abanam a cabe\u00e7a com entusiasmo, mas sem ideias. Tratam os Presidentes de Junta como funcion\u00e1rios e a popula\u00e7\u00e3o como um n\u00famero no boletim eleitoral. Para esses, governar \u00e9 um exerc\u00edcio de ego, n\u00e3o de responsabilidade. E escutar cr\u00edticas? S\u00f3 se for para responder com desd\u00e9m ou ironia agressiva.<\/p>\n<p>E se olharmos para Lisboa, o panorama n\u00e3o inspira mais esperan\u00e7a. O Parlamento est\u00e1 cheio de candidatos que tratam o cargo como almofada de seguran\u00e7a. A Assembleia da Rep\u00fablica virou incubadora de autarcas falhados. S\u00e3o os \u201cdeputados trampolim\u201d, cuja miss\u00e3o \u00e9 garantir um lugar onde cair se a corrida municipal correr mal. \u00c9 o tal \u201cPlano B pol\u00edtico\u201d, essa indec\u00eancia travestida de estrat\u00e9gia: uma candidatura n\u00e3o como ato de servi\u00e7o p\u00fablico, mas como investimento pessoal.<\/p>\n<p>Os partidos, os \u201ccl\u00e1ssicos\u201d, os do arco-da-governabilidade e do \u201cn\u00f3s \u00e9 que sabemos\u201d, andam em piloto autom\u00e1tico. As mesmas ideias gastas, os mesmos nomes de sempre, os mesmos protagonistas reciclados como se fossem insubstitu\u00edveis. Em vez de se reinventarem, preferem sobreviver. E, nessa \u00e2nsia de autopreserva\u00e7\u00e3o, perderam o contacto com a realidade. Com os eleitores. Com o pa\u00eds real. Depois espantam-se com o crescimento dos extremos, com a entrada da raiva no Parlamento e com o tom incendi\u00e1rio das novas vozes. Mas quem \u00e9 que deixou o f\u00f3sforo perto de um po\u00e7o de petr\u00f3leo?<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 simples: enquanto os partidos tradicionais continuarem a tratar a pol\u00edtica como um clube privado, onde os lugares se herdam ou se negociam, a frustra\u00e7\u00e3o dos eleitores s\u00f3 vai crescer. E onde h\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 espa\u00e7o para populismo. \u00c9 um fen\u00f3meno t\u00e3o previs\u00edvel quanto evit\u00e1vel, mas para isso seria preciso mudar. E mudar d\u00e1 trabalho. Mais vale repetir os mesmos nomes, repetir os mesmos erros, e culpar os outros pelo resultado.<\/p>\n<p>Ser um verdadeiro pol\u00edtico devia come\u00e7ar com uma pergunta simples: <em>\u201cEstou aqui para servir ou para ser servido?\u201d<\/em> Se a resposta n\u00e3o for clara, ent\u00e3o o melhor \u00e9 ficar quieto. No sof\u00e1 de casa. Porque a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 para vaidosos de cartaz , fomentar ambi\u00e7\u00f5es pessoais e gan\u00e2ncia. \u00c9 para quem tem espinha, cabe\u00e7a e consci\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil? Pois n\u00e3o. Mas quem quer o lugar, que o honre. Ou ent\u00e3o que o desocupe, para dar espa\u00e7o a quem, de facto, o merece. J\u00e1 basta de amadores com cart\u00e3o e profissionais da conveni\u00eancia. E, sobretudo, j\u00e1 basta de fingir que est\u00e1 tudo bem. Porque n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 Nuno catita<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quer mandar? Nada mais f\u00e1cil. Em Portugal, chega-se a um cargo pol\u00edtico com tr\u00eas ingredientes simples: cart\u00e3o partid\u00e1rio, talento para fingir que se ouve, e um sorriso t\u00e3o vazio quanto as promessas em tempo de campanha. Ser um bom pol\u00edtico? J\u00e1 exige mais trabalho. 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