{"id":41469,"date":"2025-10-11T18:09:16","date_gmt":"2025-10-11T18:09:16","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=41469"},"modified":"2025-10-11T18:19:54","modified_gmt":"2025-10-11T18:19:54","slug":"jornalista-e-escritora-americana-anne-applebaum-no-folio-a-russia-ja-perdeu-muitas-guerras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2025\/10\/11\/jornalista-e-escritora-americana-anne-applebaum-no-folio-a-russia-ja-perdeu-muitas-guerras\/","title":{"rendered":"Jornalista e escritora americana Anne Applebaum no F\u00d3LIO: \u201cA R\u00fassia j\u00e1 perdeu muitas guerras\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_41471\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-41471\" class=\"wp-image-41471\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FOLIO-Autores-mesa-20.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FOLIO-Autores-mesa-20.jpg 566w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FOLIO-Autores-mesa-20-300x229.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-41471\" class=\"wp-caption-text\">Raquel Vaz-Pinto, Anne Applebaum e Germano Almeida<\/p><\/div>\n<p>A jornalista e escritora norte-americana Anne Applebaum lembrou, esta sexta-feira, dia 10 de outubro, no primeiro dia das mesas de autores do F\u00d3LIO, que a R\u00fassia j\u00e1 perdeu muitas guerras, pelo que \u00e9 importante abandonar a ideia de que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o pode vencer o conflito, defendendo o seu territ\u00f3rio. A afirma\u00e7\u00e3o foi feita no F\u00d3LIO \u2013 Festival Liter\u00e1rio Internacional de \u00d3bidos, durante uma conversa com a docente, autora e analista de pol\u00edtica internacional Raquel Vaz-Pinto, sobre o tema \u201cMedo\u201d, moderada pelo jornalista Germano Almeida.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter estado na Ucr\u00e2nia h\u00e1 poucas semanas, Anne Applebaum garantiu que os ucranianos n\u00e3o pensam que v\u00e3o ser derrotados. \u201cEles sabem o tipo de regime que iam enfrentar, e que n\u00e3o podem deixar de combater, porque iam morrer apenas de forma diferente\u201d, revelou. Apesar de os europeus apoiarem financeiramente o pa\u00eds liderado por Zelensky, afirmou desconhecer se ir\u00e3o manter o tabu em rela\u00e7\u00e3o ao envio de tropas para a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>\u201cVai surgir um momento em que as pessoas em Moscovo v\u00e3o perguntar: porque \u00e9 que estamos a fazer isto? Para qu\u00ea?\u201d, afirmou a autora de \u201cGulag: Uma Hist\u00f3ria\u201d, premiado com um Pr\u00e9mio Pulitzer, a prop\u00f3sito do fim da guerra. \u201cNas \u00faltimas semanas, houve muitos suic\u00eddios estranhos de pessoas que questionaram o regime. Quando \u00e9 que o custo vai ser t\u00e3o alto que Putin vai parar?\u201d, interrogou. \u201cOs ucranianos acharam que se morressem russos suficientes iam parar de lutar, mas depois perceberam que s\u00f3 se preocupam com dinheiro.\u201d<\/p>\n<p>E se Anne Applebaum defendeu que os russos combatem para recriar o seu imp\u00e9rio e porque t\u00eam medo de Putin, Raquel Vaz-Pinto acrescentou que o l\u00edder russo, tal como a China, quer uma Europa dividida, sem a vantagem da escala, e que os EUA n\u00e3o sejam vistos como aliados. \u201cO Kremlin financiou a direita e a esquerda radical em toda a Europa, para introduzir ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa e \u00e0 NATO\u201d, denunciou. \u201cOs russos est\u00e3o a testar os europeus com drones e com Migs [ca\u00e7as], para causar medo, e as elites dos pa\u00edses pensarem duas vezes se querem ajudar a Ucr\u00e2nia.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 pergunta por que motivo a sociedade norte-americana est\u00e1 polarizada, Anne Applebaum respondeu que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as liga\u00e7\u00f5es entre as pessoas da comunidade, a n\u00edvel local, que \u201cpraticavam a democracia porque trabalhavam umas com as outras\u201d, come\u00e7ou a perder-se. \u201cAs organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias desapareceram, e t\u00eam sido substitu\u00eddas pelas rela\u00e7\u00f5es na internet com as pessoas que concordam connosco\u201d, referiu.<\/p>\n<p>\u201cVivemos um tempo de constante mudan\u00e7a, e esta \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o para os norte-americanos se odiaram e terem medo uns dos outros\u201d, garantiu a jornalista e escritora. \u201cMas as pessoas n\u00e3o se limitam a ter opini\u00f5es diferentes, mas informa\u00e7\u00f5es sobre factos diferentes, o que torna muito dif\u00edcil chegar a uma conclus\u00e3o\u201d, observou. \u201cA exist\u00eancia destas divis\u00f5es criou um medo genu\u00edno. As pessoas t\u00eam medo do que possa acontecer.\u201d<\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio desanimador, Raquel Vaz-Pinto considerou que as pessoas ainda t\u00eam a capacidade de tirar li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX, pelo que n\u00e3o podem pensar que os seus problemas s\u00e3o os piores do mundo. \u201cRoosevelt [presidente norte-americano] dizia que n\u00e3o devemos ceder ao medo. E hoje temos uma das fontes do medo em alguns partidos, que t\u00eam em comum a vis\u00e3o das mulheres como cidad\u00e3s de segunda classe\u201d, denunciou. \u201cA maioria de n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel a retroceder.\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma tend\u00eancia para sermos fatalistas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, e at\u00e9 ao presente. Uma forma de combater isso \u00e9 olhar para outras gera\u00e7\u00f5es que tiveram de lidar com desafios enormes, como a I ou a II Guerras Mundiais\u201d, aconselhou a especialista em assuntos internacionais. \u201cPrecisamos de ler mais e de aprender mais com a nossa Hist\u00f3ria. Tivemos uma ditadura 50 anos\u201d, frisou. \u201cMesmo nos tempos mais sombrios, as coisas podem mudar. Quem imaginaria que o muro de Berlim ia cair, ou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica desintegrar-se? Temos de deixar de ter medo, de defender e de lutar pelos nossos direitos.\u201d<\/p>\n<p>A meio da tarde, na abertura do F\u00d3LIO Autores, a escritora finlandesa IIida Turpeinen manifestou preocupa\u00e7\u00e3o com o facto de os populistas contestarem a ci\u00eancia, algo que nunca aconteceu no pa\u00eds, levando a que a percentagem de 95% da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a punha em causa esteja a diminuir. \u201cAs quest\u00f5es ambientais n\u00e3o s\u00e3o discutidas, e as cat\u00e1strofes est\u00e3o a acontecer\u201d, denunciou, durante uma conversa com a autora sul-coreana Cho Nam-joo, sobre o tema \u201cExist\u00eancia\u201d, moderada pela jornalista Luciana Leiderfab, que decorreu no F\u00d3LIO \u2013 Festival Liter\u00e1rio Internacional de \u00d3bidos.<\/p>\n<p>Iida Turpeinen lamentou que o discurso cient\u00edfico tenha entrado em descr\u00e9dito. \u201c\u00c9 perigoso quando come\u00e7amos a fazer pol\u00edtica a partir do medo\u201d, afirmou. \u201cPerdemos quase 400 seres \u00fanicos. Como podemos ajudar, se n\u00e3o sabemos que isso est\u00e1 a acontecer?\u201d, questionou. \u201cA recorda\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante. Falamos nas guerras para que n\u00e3o voltem a acontecer, mas se n\u00e3o nos apercebemos o que est\u00e1 a acontecer a outras esp\u00e9cies, como \u00e9 que nos podemos lembrar delas?\u201d<\/p>\n<p>Convicta de que contribuiu para o \u201cdespertar deste torpor\u201d, com a publica\u00e7\u00e3o de \u201cA Exist\u00eancia da Vida\u201d, a autora contou que o livro foi escrito ap\u00f3s ter encontrado um grande esqueleto de um animal que n\u00e3o conhecia, em 2016, no Museu Finland\u00eas de Hist\u00f3ria Natural, em Hels\u00ednquia. \u201cLi que era uma vaca-marinha-de-Steller, de que s\u00f3 havia dois esqueletos, e fui direta para a biblioteca pesquisar\u201d, recorda. \u201cFui orientada pela incapacidade de entender a nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, que sempre me inquietou.\u201d<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o para as pessoas agirem como se n\u00e3o soubessem que \u201ca natureza tem limites e \u00e9 vulner\u00e1vel\u201d foi encontrada durante a procura de informa\u00e7\u00e3o sobre a vaca-marinha. \u201cComecei a ler livros do s\u00e9culo XVIII, e a forma como descrevem a natureza \u00e9 muito estranha. Depois, percebi que era por n\u00e3o terem ideia que a extin\u00e7\u00e3o era poss\u00edvel\u201d, justificou. Na \u00e9poca, a cria\u00e7\u00e3o do mundo era atribu\u00edda a Deus, e a ideia de interferir na natureza era uma \u201cblasf\u00e9mia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDe repente, o mundo tornou-se mais f\u00e1cil de compreender. Tinha de mergulhar na hist\u00f3ria e ver como cheg\u00e1mos aqui\u201d, explicou Iida Turpeinen. \u201cAs pessoas tentaram fazer o que sabiam melhor com os conhecimentos que tinham\u201d, acrescentou. O que n\u00e3o imaginava \u00e9 que quando o livro foi publicado na Finl\u00e2ndia, as pessoas quisessem ir ao museu tocar no esqueleto da vaca-marinha, que sempre esteve \u00e0 vista de todos, pelo que tiveram de colocar uma barreira \u00e0 volta. \u201cAcabei por p\u00f4r em risco o esqueleto\u201d, confessou.<\/p>\n<p>A autora finlandesa disse ainda que quando decidiu escrever um romance sobre hist\u00f3ria da ci\u00eancia, leu muitos livros sobre o tema, e sentiu-se \u201cincomodada por parecer que as mulheres n\u00e3o existem\u201d. Decidiu, por isso, que metade das personagens seria do sexo feminino. \u201cGosto de trabalhar com arquivos e de pesquisar bastante, e acabei por encontrar mulheres muito importantes. Na ci\u00eancia, est\u00e3o por todo o lado. Mesmo que n\u00e3o fossem aceites nos s\u00e9culos XVIII e XIX, existiam.\u201d<\/p>\n<p>Cho Nam-joo, romancista sul-coreana que participou na conversa, referiu que a personagem principal de \u201cKim Jiyoung, nascida em 1982\u201d \u00e9 uma mulher comum, com a qual se pode criar empatia. \u201cQueria contar a hist\u00f3ria sem ter uma atitude condescendente. As mulheres na Coreia s\u00e3o trabalhadoras e saud\u00e1veis, mas, por vezes, est\u00e3o desesperadas. Muitas vezes, estas personagens s\u00e3o retratadas como figuras distorcidas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Baseado na sua experi\u00eancia como mulher que deixou o emprego e se tornou dona de casa depois de ser m\u00e3e, o terceiro livro de Cho Nam-joo retrata os impactos da desigualdade de g\u00e9nero, que explicou decorrerem de problemas provocados pela estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do pa\u00eds. \u201cAs pessoas, no passado, n\u00e3o prestavam muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres\u201d, admitiu. \u201cO movimento metoo [movimento feminista global de den\u00fancia de ass\u00e9dio sexual] foi muito importante\u201d, assegurou. Em 2019, o best seller foi adaptada ao cinema pelo realizador coreano Kim Do Young.<\/p>\n<p>\u201cNa Coreia, h\u00e1 um cr\u00edtico de cinema que diz que devemos ter um plano para a nossa vida di\u00e1ria, mas n\u00e3o para toda a nossa vida. Nem sempre as coisas acontecem, e \u00e9 melhor deixar as coisas fluir, tomar a melhor decis\u00e3o e viver da melhor forma\u201d, contou Cho Nam-joo. Teoria que Iida Turpeinen contrap\u00f4s, invocando um soci\u00f3logo, que defende que o futuro n\u00e3o \u00e9 algo que acontece, mas \u00e9 constru\u00eddo. \u201c\u00c9 urgente que continuemos a imaginar o mundo em que gostar\u00edamos de viver, haver mais utopia, e entusiasmo de podermos mudar as coisas, porque vamos ter um futuro muito sombrio.\u201d<\/p>\n<p>Fonte: JP|GCI|CMO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A jornalista e escritora norte-americana Anne Applebaum lembrou, esta sexta-feira, dia 10 de outubro, no primeiro dia das mesas de autores do F\u00d3LIO, que a R\u00fassia j\u00e1 perdeu muitas guerras, pelo que \u00e9 importante abandonar a ideia de que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o pode vencer o conflito, defendendo o seu territ\u00f3rio. 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