{"id":42558,"date":"2026-02-07T22:03:15","date_gmt":"2026-02-07T22:03:15","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=42558"},"modified":"2026-02-07T22:04:26","modified_gmt":"2026-02-07T22:04:26","slug":"segredos-manipulacoes-e-mentiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2026\/02\/07\/segredos-manipulacoes-e-mentiras\/","title":{"rendered":"Segredos, manipula\u00e7\u00f5es e mentiras"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_42560\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-42560\" class=\"wp-image-42560 size-medium\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Antonio-Eloy-300x283.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Antonio-Eloy-300x283.webp 300w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Antonio-Eloy.webp 364w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-42560\" class=\"wp-caption-text\">Ant\u00f3nio Eloy<\/p><\/div>\n<p>Essa \u00e9 a hist\u00f3ria da nuclear. Desde o seu in\u00edcio. Nasceu com a guerra. Cresceu com segredos, manipula\u00e7\u00f5es, mentiras e mortos, muitos, muitos mortos. Vou descrever alguns acidentes ou incidentes nucleares, na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica ou nos envolvendo, que causaram muitos, muitos desses, alguns nunca determinados na rela\u00e7\u00e3o causa efeitos. N\u00e3o creio em bruxas mas como se diz aqui ao lado, pelas espanhas, \u201cque las hay, hay!\u201d<\/p>\n<p>1- Vou come\u00e7ar pela hist\u00f3ria do grave, grav\u00edssimo acidente em Vandell\u00f3s. O hidrog\u00e9nio que refrigera o alternador incendiou-se e perderam-se os turbosoplantes 1 e 2 (motores a jacto com um grande ventilador frontal que arrefece o reactor) e os defeitos de isolamento produzidos nos 3 e 4 provocaram o disparo das caldeiras auxiliares, a sala de comando ficou afectada por fumo denso, a rede de altifalantes, megafonia, assim como a central telef\u00f3nica que ficou inutilizada (n\u00e3o havia telem\u00f3veis).<\/p>\n<p>Como nos diz um dos trabalhadores (que salvaram a situa\u00e7\u00e3o!) \u201dnunca saberemos o que se<\/p>\n<p>teria passado se se tivesse perdido totalmente a refrigera\u00e7\u00e3o do n\u00facleo do reactor&#8230; a subida de temperatura e a fus\u00e3o do n\u00facleo, a ruptura do contendor que o alojava e possivelmente a igni\u00e7\u00e3o da<\/p>\n<p>grafite do reactor\u201d &#8230; e boum, outro Chernobyl!<\/p>\n<p>Mas essa est\u00f3ria \u00e9 colocada debaixo do tapete, chamar a aten\u00e7\u00e3o para o risco, para o facto de uma nuclear n\u00e3o ser uma f\u00e1brica de conservas de sardinhas, mas algo de grande, grande risco e perigo, e<\/p>\n<p>para o esfor\u00e7o inacredit\u00e1vel dos trabalhadores para dominar o inc\u00eandio e a inunda\u00e7\u00e3o, e reconhecer o m\u00e9rito e valentia destes n\u00e3o passa pelos executivos e pelo poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>S\u00f3 agora gra\u00e7as ao trabalho de levantamento feito por Julio P\u00e9rez Sanz (\u201cLos H\u00e9roes Silenciados de Vandell\u00f3s\u201d Editorial C\u00edrculo Rojo), funcion\u00e1rio reformado do Conselho de Seguran\u00e7a Nuclear (que<\/p>\n<p>tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel por estas omiss\u00f5es) e membro da ASTECSN (Asociaci\u00f3n Profesional de T\u00e9cnicos en Seguridad Nuclear y Protecci\u00f3n Radiol\u00f3gica) \u00e9 que se sabe da imin\u00eancia de um desastre de enormes propor\u00e7\u00f5es e do que devemos ao labor e sacrif\u00edcio dos trabalhadores da central (que mesmo os que estavam de folga acorreram a ajudar a combater o inc\u00eandio e a inunda\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fora o empenho, e o sacrif\u00edcio at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o das dezenas de trabalhadores, sem uma pauta, sem instru\u00e7\u00f5es centrais, sem um plano, que se dispuseram ao maior e =t\u00e2nico esfor\u00e7o hoje, como cito \u201cEst\u00e1bamos alli para que esto no se borrara del mapa como Chernobyl, pero em fin, gracias a Dios no pas\u00f3 nada\u201d. Ou seja s\u00f3 por uma conjuga\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria de factores n\u00e3o houve fus\u00e3o do reactor.<\/p>\n<p>2- A pen\u00ednsula j\u00e1 esteve, tamb\u00e9m, \u00e0 beira de Hiroxima. Em 1966 os U.S.A. aqui lan\u00e7aram 4, quatro artefactos nucleares, 4 bombas, acidentalmente. Ca\u00edram em Palomares (Almeria). \u00c9 certo que n\u00e3o<\/p>\n<p>estavam activadas, mas 2 rebentaram e o plut\u00f3nio que continham espalhou-se. Al\u00e9m dos tripulantes do bombardeiro que chocou com uma pequena aeronave de abastecimento, n\u00e3o se sabe (porque os<\/p>\n<p>estudos nunca, nunca, foram divulgados) quantos mortos e contaminados houve em terra. J\u00e1 no mar gastaram-se milh\u00f5es para recuperar uma das bombas que a\u00ed caiu. Merecia um filme esta est\u00f3ria. At\u00e9 se viu, rid\u00edculo, o ministro Fraga Iribarne e outros pr\u00f3ceres do franquismo a tomar banho nessa zona, para sossegar os \u201cganh\u00f3cios\u201d&#8230;sobretudo o turismo.<\/p>\n<p>Ainda hoje soldados americanos, que sem qualquer protec\u00e7\u00e3o recolheram res\u00edduos, protestam por apoios ou est\u00e3o mortos por leucemias e cancros, e os solos continuam altamente contaminados.<\/p>\n<p>E continua por fazer um levantamento de todas as zonas radioactivamente contaminadas em Espanha&#8230;(ver tamb\u00e9m o ponto 5 deste texto, outro enorme acidente nuclear.)<\/p>\n<p>3- Em Zaragoza, outro acidente me=do para debaixo do tapete, que me recorda os tr\u00e1gicos eventos de Goiana, em 1987, no qual morreram, registadas 104 pessoas e h\u00e1 1600 contaminados. Ignora-se quantos n\u00e3o ter\u00e3o morrido, pelo manuseamento por populares de res\u00edduos hospitalares radioactivos.<\/p>\n<p>Pois em Zaragoza est\u00e3o registados cerca de 30 mortos devido a mau funcionamento radiol\u00f3gico. Conto em 1990, em 19 de Dezembro de 1990 o Conselho de Seguran\u00e7a Nuclear realizou a revis\u00e3o anual, que se havia atrasado 6 meses e descobriu uma anomalia na pot\u00eancia no acelerador de electr\u00f5es. S\u00f3 ordenou a sua paragem 4 dias depois&#8230;.<\/p>\n<p>A empresa nuclear General Electric foi condenada a indemnizar em 15 milh\u00f5es de pesetas cada fam\u00edlia, mas os atingidos pelo deficiente funcionamento destes instrumentos j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estavam. A<\/p>\n<p>radioactividade mata.<\/p>\n<p>4- E mais esta, em Maio de 1998 na empresa ACERINOX, no Campo de Gibraltar fundiu-se uma c\u00e1psula met\u00e1lica em cujo interior havia uma fonte radioactiva de Cesio 137. Estava em sucata de a\u00e7o inoxid\u00e1vel importado dos U.S.A., foi chamado o C.S.N. e o resultado \u00e9 o sabido, embora 6 trabalhadores apresentassem res\u00edduos radioactivos. E a f\u00e1brica esteve parada mais de 4 meses.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o acaba aqui, a centenas de metros de Huelva, nas marismas, a Greenpeace identificou is\u00f3topos radioactivos de C\u00e9sio 137, procedentes de mais de 7.000 toneladas desse acidente que a\u00ed se enterraram contaminando tamb\u00e9m os rios Odiel e Tinto. (A nuvem radioactiva resultante deste acidente percorreu a Europa, e este caso n\u00e3o acaba aqui. Faz lembrar o teflon, que incorpora res\u00edduos dos lan\u00e7amentos nucleares na atmosfera, e onde comemos.<\/p>\n<p>5- Entre Setembro de 1973 e Julho de 1974, restos de um acidente num pequeno reactor experimental que a Junta de Energ\u00eda Nuclear tinha em Madrid foram depositados nas antigas minas de ur\u00e2nio de La Haba, em Badajoz. E no ano 1990, mais 323 bidons e em 1992 e 1993 outros 577 bidons procedentes do CIEMAT (Centro de Investigaciones Energ\u00e9ticas, Medioambientales y Tecnol\u00f3gicas) que continham &#8221;escombros, subst\u00e2ncias nucleares, materiais radioactivos e minerais<\/p>\n<p>de ur\u00e1nio&#8221;.<\/p>\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o, que foi ver=da no Manzanares, afluente do Jarama e este do Tejo chegou at\u00e9 \u00e0 foz deste e ainda hoje os campos de Toledo tem altos n\u00edveis radiol\u00f3gicos. Em Portugal tivemos um desses reactores em Sacav\u00e9m, felizmente n\u00e3o h\u00e1 registos. Foi desmantelado e os seus res\u00edduos foram de volta para os U.S.A. Mas seria \u00fatil fazer um levantamento da situa\u00e7\u00e3o&#8230;.<\/p>\n<p>6- Muitos j\u00e1 o esqueceram. Muitas guerras t\u00eam passado e essa nos Balc\u00e3s foi a primeira em que foi utilizado ur\u00e2nio empobrecido no armamento utilizado. Ignoro se tal pr\u00e1tica continua. Um militar<\/p>\n<p>portugu\u00eas morreu devido a ter estado em contacto com esse armamento e muitos foram contaminados. Ainda hoje as zonas onde esse ur\u00e2nio foi utilizado apresentam elevadas taxas de cancros e leucemias.<\/p>\n<p>7- Urgeiri\u00e7a. Aqui come\u00e7ou tudo. A bomba de Hiroxima \u00e9 prov\u00e1vel que tivesse material desta mina. Se n\u00e3o foi com o dela, que o Little Boy (bomba que arrasou Hiroxima!) foi feito, como diz o lobo, foram as suas sucessoras. Mas o que \u00e9 facto \u00e9 que largas dezenas de trabalhadores e seus<\/p>\n<p>familiares foram afectados pela extrac\u00e7\u00e3o, sem condi\u00e7\u00f5es nem a m\u00ednima protec\u00e7\u00e3o contra este min\u00e9rio, nesta zona. Muitos faleceram, muitos ainda carregam o \u00f3nus deste trabalho sem outro sentido que n\u00e3o a inutilidade da bomba e as centrais mais poluidoras e mais caras do mundo para aquecer \u00e1gua a partir da fiss\u00e3o nuclear. Os brasileiros as chamam chaleiras.<\/p>\n<p>8- Na Pen\u00ednsula, temos centenas de incidentes, dezenas foram classificados na lista de incidentes graves em centrais nucleares da INES (Escala Internacional de Eventos\/ Acontecimentos Nucleares e Radiol\u00f3gicos, que vai de 0 a 7, o 0 j\u00e1 \u00e9 considerado!), Almaraz \u00e9 a recordista. Na Pen\u00ednsula temos locais altamente contaminados. Palomares, Urgeiri\u00e7a, El Cabril (local em C\u00f3rdoba, onde se acumulam res\u00edduos de pequena e m\u00e9dia actividade radioactiva), em todos esses locais deve haver vigil\u00e2ncia, monitoriza\u00e7\u00e3o e cuidados com a vida dos residentes e dos trabalhadores ou ex-trabalhadores.<\/p>\n<p>E n\u00e3o esque\u00e7amos os fundos marinhos, entre a Galiza e os A\u00e7ores onde foram depositados e filmados rotos bidons de res\u00edduos altamente radioactivos. Em todos esses locais deve haver vigil\u00e2ncia, monitoriza\u00e7\u00e3o e cuidados com a vida dos residentes e dos trabalhadores. E tamb\u00e9m nos A\u00e7ores, na ilha Terceira, na Base das Lajes, estiveram armazenadas armas nucleares e registou-se, ou melhor regista-se contamina\u00e7\u00e3o de solos.<\/p>\n<p>9- Ainda Almaraz. Acab\u00e1mos de editar o livro \u201c Amanecer Sin Almaraz\u201d edi\u00e7\u00e3o da ADENEX, com coordena\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Maria Gonz\u00e1lez Mason (Chema) com quase trezentas p\u00e1ginas, al\u00e9m de alguns artigos de opini\u00e3o. Conta-nos ano por ano desde 1981 at\u00e9 2025, ano por ano todos os acidentes ou incidente que ocorreram. Estarrecedor, muitos est\u00e3o no listado INES muitos, quase todos os denunci\u00e1mos. A hist\u00f3ria da nossa oposi\u00e7\u00e3o, ib\u00e9rica, a estas centrais merece muitos livros. Este<\/p>\n<p>\u00e9 um verdadeiro comp\u00eandio. Fundamental.<\/p>\n<p>10- A nuclear \u00e9 a pedra de toque do ecologismo, articula-se com tudo. A polui\u00e7\u00e3o do ber\u00e7o ao excreta, qu\u00edmica e radioactiva. E os res\u00edduos, sem solu\u00e7\u00e3o, sem nenhuma solu\u00e7\u00e3o, quando nos anos 50 a anunciavam para amanh\u00e3, nunca mais chega. A economia, n\u00e3o \u00e9 capaz de subsistir em mercado aberto, os custos s\u00f3 se podem manter com muitos, muitos subs\u00eddios e trapa\u00e7as. Socialmente \u00e9 recusada, quando h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 transpar\u00eancia, \u00e9 desprezada a todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>E politicamente \u00e9 um projecto de sociedade sinistro, de vigil\u00e2ncia, de policiamento, de risco permanente, de Estados policiais. E corresponde a um paradigma um padr\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o da vida e da biodiversidade, por sugestionar uma l\u00f3gica de crescimento, mais crescimento, mais produ\u00e7\u00e3o, sem prever as consequ\u00eancias, sem futuro. A nuclear \u00e9 o contr\u00e1rio da sufici\u00eancia pr\u00f3spera que defendemos. E n\u00e3o serve de nada para lutar contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1=cas, mas<\/p>\n<p>esse \u00e9 tema para outra prosa.<\/p>\n<p>Nota final:<\/p>\n<p>Todos estes pontos s\u00e3o abordados em alguns dos nossos livros ou edi\u00e7\u00f5es, e todos eles podem ser encontrados em busca na Wikip\u00e9dia.<\/p>\n<p>Deix\u00e1mos de lado, por raz\u00f5es operativas outros casos como El Hondon, em Cartagena, da Fertiberia, em Rio Tinto, ou em Flix, Tarragona, todos eles deveriam estar no invent\u00e1rio dos solos contaminados que h\u00e1 mais de 25 anos as autoridades espanholas deveriam fazer. Tamb\u00e9m deix\u00e1mos no tinteiro locais que foram de risco, Ferrel, Nisa, Zahinos, Retortillo, Sayago, Valdecaballeros, Cuenca (Villar de Ca\u00f1as), Aldead\u00e1vila de la Ribera e outros, onde gra\u00e7as \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o popular,<\/p>\n<p>empenho de diversos expoentes e envolvimento ecologista n\u00e3o se concretaram as possibilidades de incidentes ou acidentes radiol\u00f3gicos e radioactivos. Hoje est\u00e3o registados em livros e filmes e constituem marcos de momentos exemplares.<\/p>\n<p>Este trabalho tem muitos colaboradores mas n\u00e3o posso deixar de mencionar o nosso amigo Chema, que contribuiu com muitos dados. Os que est\u00e3o em falta s\u00e3o inteiramente da minha responsabilidade, assim como algum erro ou falha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa \u00e9 a hist\u00f3ria da nuclear. Desde o seu in\u00edcio. Nasceu com a guerra. Cresceu com segredos, manipula\u00e7\u00f5es, mentiras e mortos, muitos, muitos mortos. 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