{"id":5850,"date":"2021-07-14T17:23:53","date_gmt":"2021-07-14T17:23:53","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=5850"},"modified":"2021-07-14T20:48:45","modified_gmt":"2021-07-14T20:48:45","slug":"carlos-fiolhais-deu-a-ultima-licao-na-universidade-de-coimbra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2021\/07\/14\/carlos-fiolhais-deu-a-ultima-licao-na-universidade-de-coimbra\/","title":{"rendered":"Carlos Fiolhais deu a \u00faltima li\u00e7\u00e3o na Universidade de Coimbra"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_5852\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5852\" class=\"wp-image-5852\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Carlos-Fiolhais-Ro\u0301mulo-de-Carvalho-Fotografia-\u00a9-UC-Karine-Paniza-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Carlos-Fiolhais-Ro\u0301mulo-de-Carvalho-Fotografia-\u00a9-UC-Karine-Paniza-1.jpg 750w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Carlos-Fiolhais-Ro\u0301mulo-de-Carvalho-Fotografia-\u00a9-UC-Karine-Paniza-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-5852\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Fiolhais (Foto: UC-Karine-Paniza)<\/p><\/div>\n<p>Carlos Fiolhais \u00e9 uma figura incontorn\u00e1vel da cultura portuguesa contempor\u00e2nea, detentor de uma inteligente curiosidade insaci\u00e1vel e apaixonada pelo conhecimento. A prop\u00f3sito da sua \u00faltima li\u00e7\u00e3o na Universidade de Coimbra, no dia 12 de Julho de 2021, a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Imprensa fez-lhe uma entrevista que percorre brevemente a sua vida e os seus principais interesses.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Piedade (AP)<\/strong> &#8211; <strong>Qual a recorda\u00e7\u00e3o mais antiga que tem de si mesmo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Fiolhais (CF)<\/strong> &#8211; \u00c9 muito dif\u00edcil responder, pois n\u00e3o me foco muito no passado. Mas lembro-me de morar na Ajuda, em Lisboa, e de andar a brincar nos Jardim da Pra\u00e7a do Imp\u00e9rio frente aos Jer\u00f3nimos e a correr na Rosa dos Ventos, junto ao Padr\u00e3o dos Descobrimentos. Eu era muito novo no Restelo, espero nunca me tornar um &#8220;velho do Restelo&#8221;. Vim para Coimbra aos 7 anos, onde j\u00e1 me lembro bem da escola dos Olivais e do liceu D. Jo\u00e3o III, incluindo do exame da quarta classe e da prova de admiss\u00e3o aos liceus.<\/p>\n<p><strong>AP<\/strong> &#8211;<strong> O seu &#8220;entrela\u00e7amento&#8221; com a ci\u00eancia e com a F\u00edsica ocorre quando?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CF<\/strong> &#8211; Fui descobrindo a ci\u00eancia, em particular a F\u00edsica, nos anos liceais. N\u00e3o tanto atrav\u00e9s das aulas e dos professores (a quem, de resto, muito devo e sem os quais n\u00e3o seria quem sou), mas mais atrav\u00e9s dos livros de divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, na biblioteca da escola e na Biblioteca Municipal de Coimbra. Requisitava tr\u00eas livros de cada vez, que era o m\u00e1ximo permitido, e passados poucos dias ia l\u00e1 buscar mais tr\u00eas. Entre eles estavam os livrinhos da colec\u00e7\u00e3o &#8220;Ci\u00eancia para Gente Nova&#8221; de R\u00f3mulo de Carvalho, que mais tarde conheci pessoalmente e que \u00e9 hoje o patrono de um centro Ci\u00eancia Viva que fundei. Tomei a\u00ed consci\u00eancia que a ci\u00eancia, isto \u00e9, a busca pelos seres humanos de conhecimento sobre o mundo, era uma aventura na qual tamb\u00e9m eu podia participar. Depois de entrar na Universidade comecei, ainda que de forma modesta, a faz\u00ea-lo e tomei-lhe o gosto.<\/p>\n<p><strong>AP<\/strong> &#8211;<strong> Tem um papel incomensur\u00e1vel na promo\u00e7\u00e3o da cultura cient\u00edfica em Portugal. \u00c9 poss\u00edvel haver uma suficiente literacia cient\u00edfica na sociedade sem haver boa educa\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias nas escolas? Qual o papel dos comunicadores de ci\u00eancia neste desafio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CF<\/strong> &#8211; Tenho participado na medida em que sei e posso, em larga medida com outros colegas, em processos, bastante variados, de comunica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia para toda a gente, mostrando que ela faz parte da cultura humana. A cultura cient\u00edfica pode come\u00e7ar na escola, mas n\u00e3o acaba a\u00ed. O ensino formal \u00e9 um meio indispens\u00e1vel, mas o ensino informal, que se faz todos os dias atrav\u00e9s da imprensa, da r\u00e1dio, da televis\u00e3o, da Internet, dos museus, dos jardins e parque naturais, dos s\u00edtios geol\u00f3gicos, da observa\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us, etc., \u00e9 um complemento essencial. Na escola a ci\u00eancia pode ser mais forte, designadamente come\u00e7ando mais cedo. E, na vida, temos de estar mais atentos \u00e0 ci\u00eancia que est\u00e1 por todo o lado. Os comunicadores de ci\u00eancia, as pessoas que sabem e gostam de transmitir ci\u00eancia, s\u00e3o mediadores imprescind\u00edveis entre a ci\u00eancia e os cidad\u00e3os. O seu papel entre n\u00f3s pode e deve ser maior. Oxal\u00e1 se criem as condi\u00e7\u00f5es para isso<\/p>\n<p><strong>AP &#8211; Qual o papel da cultura cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica na democracia portuguesa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CF<\/strong> &#8211; A cultura cient\u00edfica \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de cidadania nas sociedades modernas. Hoje, ningu\u00e9m pode estar verdadeiramente apto a participar na sociedade, sem ter uma base m\u00ednima de conhecimentos da ci\u00eancia e do m\u00e9todo que os proporciona.<\/p>\n<p>Vivemos num tempo da intelig\u00eancia artificial, da edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, da nanotecnologia, etc. em que se abrem novas possibilidades tecnol\u00f3gicas que interferem nas nossas vidas, levantando por isso quest\u00f5es \u00e9ticas e legais sobre as quais todos somos chamados a participar. Vivemos tamb\u00e9m num mundo em que h\u00e1 amea\u00e7as como as pandemias e as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas cuja solu\u00e7\u00e3o nos desafia a todos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, e mais em geral, vivemos num mundo amea\u00e7ado por not\u00edcias falsas, no qual temos de exercer racionalidade, isto \u00e9, temos continuadamente de saber distinguir entre a verdade e a mentira.<\/p>\n<p>Ora a ci\u00eancia \u00e9 fonte do exerc\u00edcio de esp\u00edrito cr\u00edtico que t\u00e3o necess\u00e1rio \u00e9 hoje para a nossa vida.<\/p>\n<p><strong>AP &#8211; Os \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social, nomeadamente a imprensa escrita, desempenham um papel fulcral para uma boa sa\u00fade democr\u00e1tica da sociedade. Onde &#8220;cabe&#8221; a ci\u00eancia nos m\u00e9dia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CF<\/strong> &#8211; Os m\u00e9dia, incluindo a imprensa escrita, s\u00e3o o &#8220;cimento&#8221; da sociedade, ao assegurarem a comunica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias e opini\u00f5es. Permitem a coes\u00e3o e tamb\u00e9m o di\u00e1logo democr\u00e1tico. Como boa parte da nossa vida tem hoje a ver com a ci\u00eancia e a tecnologia que lhe est\u00e1 intimamente associada &#8211; bastar\u00e1 referir a sa\u00fade, as comunica\u00e7\u00f5es, etc. &#8211; \u00e9 natural que a ci\u00eancia esteja presente nos m\u00e9dia. Os jornais de refer\u00eancia, internacionais e nacionais, t\u00eam-na desde h\u00e1 muito nas suas p\u00e1ginas e, felizmente, o mesmo tem acontecido mais recentemente com os jornais regionais.<\/p>\n<p><strong>AP<\/strong> &#8211;<strong> Sabemos da sua enorme paix\u00e3o pela literatura, pelos livros. Se tivesse de levar s\u00f3 cinco livros para uma viagem interplanet\u00e1ria, quais levaria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CF<\/strong> &#8211; \u00c9 um desafio muito dif\u00edcil, mas vou tentar, limitando-me apenas a livros de divulga\u00e7\u00e3o da colec\u00e7\u00e3o &#8220;Ci\u00eancia Aberta&#8221; da Gradiva, que dirijo. Poderia dar-se o caso de encontrar extraterrestres, que n\u00e3o soubessem tanta ci\u00eancia como n\u00f3s&#8230; &#8220;Cosmos&#8221; de Carl Sagan; &#8220;A Nova Alian\u00e7a&#8221; de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers; &#8220;Os tr\u00eas primeiros minutos&#8221; de Steven Weinberg; &#8220;O que \u00e9 uma lei f\u00edsica&#8221;, de Richard Feynman; e &#8220;Quando as Galinhas Tiverem Dentes&#8221;, de Stephen Jay Gould. Foram livros que me marcaram e que poderiam marcar os extraterrestres&#8230;<\/p>\n<p><strong>AP<\/strong> &#8211; <strong>Acaba de terminar uma etapa da sua vida enquanto estimado professor universit\u00e1rio de F\u00edsica. Publicou v\u00e1rias dezenas de livros. Enquanto investigador tem um dos artigos cient\u00edficos mais citados de cientistas portugueses (mais de 24 mil cita\u00e7\u00f5es). E agora o futuro? Pode-nos destapar o v\u00e9u dos seus pr\u00f3ximos horizontes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CF<\/strong> &#8211; Hoje \u00e9 apenas o primeiro dia do resto da minha vida. Espero continuar a viver, tendo agora mais tempo para ler, escrever e espalhar a ci\u00eancia. S\u00f3 deixei as aulas e alguma investiga\u00e7\u00e3o, dando o lugar aos mais novos, mas esperando continuar a fazer investiga\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia e a aprofundar a cultura cient\u00edfica. S\u00f3 deixo de ser funcion\u00e1rio, ao fim de 44 anos de actividade ininterrupta desde os 21 anos, mas espero continuar a funcionar&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 Ant\u00f3nio Piedade<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Fiolhais \u00e9 uma figura incontorn\u00e1vel da cultura portuguesa contempor\u00e2nea, detentor de uma inteligente curiosidade insaci\u00e1vel e apaixonada pelo conhecimento. 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