{"id":670,"date":"2021-01-18T23:43:25","date_gmt":"2021-01-18T22:43:25","guid":{"rendered":"https:\/\/tintafresca.net\/?p=670"},"modified":"2021-02-15T21:50:09","modified_gmt":"2021-02-15T21:50:09","slug":"os-erros-grosseiros-do-governo-do-presidente-e-da-oposicao-unidos-na-gestao-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2021\/01\/18\/os-erros-grosseiros-do-governo-do-presidente-e-da-oposicao-unidos-na-gestao-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Os erros do Governo, do Presidente e da Oposi\u00e7\u00e3o unidos na gest\u00e3o da pandemia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_672\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-672\" class=\"wp-image-672 size-full\" src=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Mario_Lopes_2010.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Mario_Lopes_2010.jpg 500w, https:\/\/tintafresca.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Mario_Lopes_2010-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-672\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Lopes<\/p><\/div>\n<p>Desde dezembro de 2019 que a pandemia provocada pelo v\u00edrus SARS-CoV-2 tem provocado a maior crise sanit\u00e1ria do \u00faltimo s\u00e9culo a n\u00edvel planet\u00e1rio. Pelo menos 95 milh\u00f5es de pessoas foram contaminadas com o v\u00edrus e 2 milh\u00f5es de pessoas faleceram da doen\u00e7a COVID-19. Em Portugal o n\u00famero de infetados ascende a 567 mil e o n\u00famero de \u00f3bitos ultrapassa j\u00e1 os 9 mil.<\/p>\n<p><strong>Doen\u00e7a grave ou gripezinha?<\/strong><\/p>\n<p>O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, foi duramente criticado na primeira fase da pandemia por classificar a COVID-19 como \u201cgripezinha\u201d, quando, sobretudo na Europa, j\u00e1 se contavam milhares de mortos e milh\u00f5es de infetados.<\/p>\n<p>Na verdade, embora atinja sobretudo as pessoas mais velhas, n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a de velhos, j\u00e1 que pode atingir gravemente pessoas de todas as idades e com sintomas e consequ\u00eancias f\u00edsicas muito variadas. Comparando com o v\u00edrus da gripe, o SARS-CoV-2 \u00e9 muito mais contagioso, muito mais imprevis\u00edvel e, sobretudo, muito mais mortal.<\/p>\n<p><strong>A indefini\u00e7\u00e3o sobre a efic\u00e1cia da m\u00e1scara de prote\u00e7\u00e3o: a maior falha cient\u00edfica do s\u00e9culo<\/strong><\/p>\n<p>Na \u00c1sia, primeiro, na Europa depois e no resto do mundo a seguir a receita contra o v\u00edrus foi a mesma da pandemia da \u201cGripe Espanhola\u201d de h\u00e1 100 anos: o confinamento e o uso de m\u00e1scara.<\/p>\n<p>Contudo, na Europa, j\u00e1 duramente atingida pela pandemia, surgiram d\u00favidas inesperadas sobre a efic\u00e1cia do uso da m\u00e1scara respirat\u00f3ria e vindas de onde menos se esperava: da classe m\u00e9dica e da pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ora a m\u00e1scara respirat\u00f3ria \u00e9 um dispositivo m\u00e9dico centen\u00e1rio (j\u00e1 fora usada abundantemente na pandemia de Gripe Espanhola\u201d) pelo que o desconhecimento revelado pela classe m\u00e9dica sobre o assunto tem de ser considerado o erro cient\u00edfico do s\u00e9culo. Tanto a classe m\u00e9dica como a pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade vieram garantir que a m\u00e1scara n\u00e3o assegurava a prote\u00e7\u00e3o das pessoas e que poderia at\u00e9 ser um foco adicional de infe\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia \u00e9 t\u00e3o escandalosa quanto \u00e9 sabido que se fazem milhares de estudos e testes a todos os dispositivos m\u00e9dicos \u2013 alguns altamente complexos \u2013 n\u00e3o se compreendendo assim como \u00e9 que \u2013 em mais de um s\u00e9culo &#8211; nunca se fizeram testes a um dispositivo t\u00e3o antigo e t\u00e3o simples como uma m\u00e1scara facial.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que a China, pa\u00eds de onde se sup\u00f5e tenha nascido o v\u00edrus, adotou a m\u00e1scara facial desde a primeira hora, a que se seguiram outros pa\u00edses europeus como a Rep\u00fablica Checa. E s\u00f3 perante o \u00eaxito deste pa\u00eds no controlo da pandemia, a OMS acabou por dar o dito por n\u00e3o dito e passou a recomendar o uso de m\u00e1scara ao fim de v\u00e1rios meses de pandemia, seguida depois pela classe m\u00e9dica, que anunciara antes que a m\u00e1scara cir\u00fargica apenas garantia que o paciente (da cirurgia) n\u00e3o seria infetado e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A afirma\u00e7\u00e3o, conclu\u00edmos depois, n\u00e3o resultava de qualquer estudo cred\u00edvel, mas de pura especula\u00e7\u00e3o. Muito mal ficaram na fotografia tanto a OMS como os cirurgi\u00f5es que vieram a p\u00fablico garantir o que desconheciam.<\/p>\n<p>N\u00e3o me parece justo, contudo, que culpabilize a diretora-geral de Sa\u00fade por ter reproduzido as opini\u00f5es da OMS e dos m\u00e9dicos de Cirurgia: Gra\u00e7a Freitas \u00e9 m\u00e9dica de Sa\u00fade P\u00fablica, n\u00e3o \u00e9 cirurgi\u00e3 nem especialista em testes m\u00e9dicos e, portanto, n\u00e3o pode ser responsabilizada por seguir as orienta\u00e7\u00f5es da maior organiza\u00e7\u00e3o mundial de Sa\u00fade. Ali\u00e1s, essa \u00e9 a norma: as autoridades de sa\u00fade p\u00fablica devem seguir as orienta\u00e7\u00f5es da OMS, por se supor contar com a colabora\u00e7\u00e3o dos maiores especialistas do mundo. Portanto, Gra\u00e7a Freitas foi enganada pela OMS, como o foi toda a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Confinamento ou n\u00e3o confinamento?<\/strong><\/p>\n<p>O confinamento social para o combate \u00e0 pandemia \u00e9 uma medida extrema, n\u00e3o s\u00f3 porque prejudica gravemente as economias, como \u00e9 completamente contranatura em temos sociais. O homo sapiens \u00e9 um ser social que necessita das intera\u00e7\u00f5es sociais para o seu equil\u00edbrio emocional, mas tamb\u00e9m para as entreajudas nos mais diversos dom\u00ednios: escolar, profissional, familiar, etc. Um confinamento social muito prolongado no tempo traria graves problemas a todos, com repercuss\u00f5es graves, primeiro nos dom\u00ednios ps\u00edquico, mas depois em todos os outros dom\u00ednios da nossa vida quotidiana. Ao fim de alguns anos de confinamento n\u00e3o seria de espantar se toda a sociedade entrasse em colapso.<\/p>\n<p>Portanto, sendo uma medida contranatura, s\u00f3 \u00e9 admiss\u00edvel por curtos per\u00edodos e a t\u00edtulo excecional. O crit\u00e9rio que tem sido adotado parece-me correto e razo\u00e1vel: o confinamento geral \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel quando os sistemas de sa\u00fade ficam \u00e0 beira da rotura. A economia \u00e9 sacrificada momentaneamente para salvar vidas. Como j\u00e1 verific\u00e1mos, pelo exemplo de v\u00e1rios pa\u00edses, apesar de ser uma bomba at\u00f3mica em termos econ\u00f3micos, o lock down n\u00e3o tem efeitos imediatos, demorando um a dois meses a produzir efeitos significativos na redu\u00e7\u00e3o dos casos de infe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O confinamento portugu\u00eas da primavera<\/strong><\/p>\n<p>Chegamos ent\u00e3o ao caso portugu\u00eas: ser\u00e1 que este foi o crit\u00e9rio adotado pelo Governo e pelo Presidente da Rep\u00fablica em mar\u00e7o, quando decretaram o confinamento total em todo o Pa\u00eds? N\u00e3o, o pr\u00f3prio primeiro-ministro admite que o n\u00famero de camas ocupadas com casos de COVID-19 nunca ultrapassou os 60% em mar\u00e7o e abril.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o \u2013 <a href=\"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/2021\/01\/19\/aprender-a-viver-com-o-coronavirus\/\">expressei-a na altura<\/a> &#8211; n\u00e3o se justificava uma medida t\u00e3o extrema, com grav\u00edssimas consequ\u00eancias na economia, sobretudo, sabendo que o problema iria demorar meses ou anos a ser resolvido, com a cria\u00e7\u00e3o de uma vacina. Por isso, foi com estupefa\u00e7\u00e3o que ouvi o primeiro-ministro afirmar, alguns meses depois do in\u00edcio do lock down, afirmar que \u201cagora j\u00e1 sabemos as consequ\u00eancias que o confinamento tem na economia\u201d. Ora, um primeiro-ministro de um Pa\u00eds, ao mandar metade do pa\u00eds para casa, n\u00e3o pode ignorar que est\u00e1 a apertar o bot\u00e3o de uma bomba at\u00f3mica econ\u00f3mica. Mesmo sabendo que Ant\u00f3nio Costa \u00e9 jurista de forma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o economista, teria de ter a consci\u00eancia deste ato que at\u00e9 o comum dos cidad\u00e3os poderia facilmente prever. E a equipa econ\u00f3mica do Governo, a come\u00e7ar pelo Ronaldo das Finan\u00e7as (M\u00e1rio Centeno), com doutoramentos em Economia nas melhores universidades americanas, tamb\u00e9m n\u00e3o sabia que estava a premir uma bomba at\u00f3mica econ\u00f3mica?!<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a maior parte dos pa\u00edses europeus optou pelo lock down, mas nos pa\u00edses onde a pandemia chegou primeiro e se alastrou rapidamente, como It\u00e1lia e Espanha, esta era realmente a \u00fanica op\u00e7\u00e3o, face ao congestionamento dos hospitais. Portugal, por ser um pa\u00eds perif\u00e9rico e por os clubes portugueses terem sido afastados precocemente das competi\u00e7\u00f5es europeias de futebol, n\u00e3o contou com a importa\u00e7\u00e3o de muitos cont\u00e1gios. Nada justificava que se gastassem todas as balas numa guerra econ\u00f3mica que todos sab\u00edamos iria ser longa e dif\u00edcil.<\/p>\n<p>N\u00e3o colhe o argumento de que no in\u00edcio era tudo novidade e havia que prevenir, porque a pandemia chegou a Portugal com um m\u00eas de atraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia e com dois meses de atraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, o primeiro pa\u00eds do mundo a reconhecer ter um coronav\u00edrus na sua comunidade. Portanto, quando chegou a Portugal j\u00e1 sab\u00edamos como se transmitia, em grande parte, como se tratava e qual o grupo mais afetado (os idosos).<\/p>\n<p>Nada justificava tamanha onda de alarme, cavalgada por um presidente da Rep\u00fablica assumidamente hipocondr\u00edaco e por uma opini\u00e3o p\u00fablica naturalmente pouco esclarecida. N\u00e3o cabe ao povo ter obriga\u00e7\u00e3o de ser muito esclarecido, sobretudo tendo em conta a modesta literacia cient\u00edfica dos portugueses, mas aos respons\u00e1veis pol\u00edticos exige-se outro n\u00edvel de responsabilidade e se n\u00e3o t\u00eam a necess\u00e1ria literacia cient\u00edfica, n\u00e3o lhes faltam assessores qualificados para os informarem devidamente.<\/p>\n<p>E, neste particular, todos estiveram mal: do primeiro-ministro ao Presidente da Rep\u00fablica, dos partidos da oposi\u00e7\u00e3o (principalmente, PSD, BE e CDS). Vingou a ideia de que a pandemia era um assunto muito grave e, por isso, deviam ficar calados e apoiar tudo o que o Governo propusesse.<\/p>\n<p>Ora, na minha opini\u00e3o, deviam ter escolhido o caminho oposto: a pandemia \u00e9 de facto, um assunto muito grave, mas, por isso mesmo, deviam procurar estudar o assunto at\u00e9 ao limite e n\u00e3o demitirem-se das suas fun\u00e7\u00f5es de fiscalizar o governo e de proporem solu\u00e7\u00f5es alternativas. Apenas mais tarde, o PCP e a Iniciativa Liberal propuseram alternativas e, por isso, votaram contra o Estado de Emerg\u00eancia. E mesmo admitindo que o PCP e a IL tamb\u00e9m n\u00e3o se deram ao trabalho de estudar devidamente os assuntos, pelo menos tiveram o m\u00e9rito de pensar pela sua cabe\u00e7a e n\u00e3o deixarem passar de forma ac\u00e9fala todas as propostas do Governo.<\/p>\n<p>O argumento impl\u00edcito dos deputados de que n\u00e3o s\u00e3o m\u00e9dicos, portanto, nada t\u00eam a ver com o assunto e devem assinar de cruz tudo o que se lhe p\u00f5e \u00e0 frente n\u00e3o colhe. Por essa linha de racioc\u00ednio, os deputados licenciados em Direito n\u00e3o se pronunciariam sobre assuntos econ\u00f3micos, os deputados m\u00e9dicos n\u00e3o se pronunciariam sobre assuntos europeus ou os deputados licenciados em Humanidades n\u00e3o se pronunciariam sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Um deputado ou governante tem de ter a capacidade de aprender e informar-se devidamente sobre os assuntos que n\u00e3o domina \u00e0 partida.<\/p>\n<p>Alguns bons exemplos na pol\u00edtica europeia n\u00e3o faltam: Angela Merkl, a primeira-ministro alem\u00e3 \u00e9 Engenheira Qu\u00edmica, Ursula von der Leyen, presidente da Comiss\u00e3o Europeia,\u00a0 \u00e9 m\u00e9dica pediatra, Paulo Macedo, ex-ministro da Sa\u00fade, era economista e todos ficaram conhecidos por desempenharem bem as suas tarefas, tratando de assuntos que pouco ou nada dominavam inicialmente. N\u00e3o sabiam, mas informaram-se, recolhendo as informa\u00e7\u00f5es de que necessitavam junto dos entendidos nas diversas \u00e1reas. A grande maioria dos nossos deputados decidiu cruzar os bra\u00e7os e esperar que a pandemia passasse.<\/p>\n<p>Por outro lado, nada nos garante que da parte dos especialistas (virologistas, infeciologistas, epidemiologistas, m\u00e9dicos de sa\u00fade p\u00fablica, matem\u00e1ticos da sa\u00fade) saiam apenas solu\u00e7\u00f5es acertadas. Basta recordar os que os ditos especialistas m\u00e9dicos disseram inicialmente sobre o uso de m\u00e1scaras faciais para prote\u00e7\u00e3o do v\u00edrus SARS-CoV-2 (desaconselharam e at\u00e9 garantiram que eram contraproducentes). Concluindo, a sa\u00fade \u00e9 um assunto demasiado importante para ficar em exclusivo reservada aos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Recentemente, um dos m\u00e9dicos que assessorou o primeiro-ministro na decis\u00e3o de proceder ao \u00faltimo confinamento, declarou que optaram por n\u00e3o fazer um confinamento mais duro por duas semanas porque isso destruiria e economia! Obviamente, qualquer pessoa com o mais meridiano bom-senso perceber\u00e1 que o atual confinamento light ir\u00e1 obrigar a ficar meses em vigor at\u00e9 produzir resultados palp\u00e1veis, com uma destrui\u00e7\u00e3o da economia muito superior.<\/p>\n<p>Seguramente, devemos ouvir os seus conselhos, os seus conhecimentos e as suas opini\u00f5es, mas as pol\u00edticas de sa\u00fade s\u00e3o assunto de todos e todos os cidad\u00e3os se podem e devem pronunciar sobre elas. At\u00e9 porque a pandemia n\u00e3o \u00e9 apenas um problema de sa\u00fade, tem muitos outros assuntos associados, nomeadamente econ\u00f3micos, mas tamb\u00e9m, como vimos nos \u00faltimos 10 meses, sociais, educativos e ambientais.<\/p>\n<p>Ouvir apenas especialistas em sa\u00fade em assuntos que extravasam largamente essa \u00e1rea, corre o risco de conduzir a decis\u00f5es erradas. A gest\u00e3o de Ant\u00f3nio Costa desta crise, baseada em especialistas de sa\u00fade (e os psic\u00f3logos? E os soci\u00f3logos? E os antrop\u00f3logos? E os gestores de empresas? E os especialistas em comunica\u00e7\u00e3o?) \u00e9 um bom exemplo do m\u00e9todo que n\u00e3o se deve seguir para resolver problemas complexos que afetam toda a sociedade.<\/p>\n<p><strong>O desempenho do primeiro-ministro na gest\u00e3o da pandemia<\/strong><\/p>\n<p>Uma palavra tamb\u00e9m sobre o desempenho do primeiro-ministro sobre a pandemia. Ao contr\u00e1rio da maioria dos comentadores, que acham que tem tido um bom desempenho, eu entendo que tem tido um mau desempenho desde o in\u00edcio da pandemia e justifico a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o primeiro-ministro tem sempre afirmado que \u201ctemos de gerir dia a dia a pandemia\u201d e repetido muitas vezes, depois de anunciar medidas por vezes gravosas em termos econ\u00f3micos e sociais, que \u201cse n\u00e3o funcionar, teremos de adotar outras medidas\u201d. Ora, estas afirma\u00e7\u00f5es provam claramente que Ant\u00f3nio Costa anda completamente \u00e0 deriva e n\u00e3o tem qualquer estrat\u00e9gia estudada para o combate \u00e0 pandemia. Tudo \u00e9 decidido em cada instante e em cima do joelho.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 referi, a primeira vaga da pandemia chegou a Portugal um m\u00eas depois dos outros pa\u00edses europeus do centro da Europa e mesmo a segunda vaga chegou duas semanas depois. Portanto, era absolutamente \u00f3bvio que o que aconteceu primeiro nos outros pa\u00edses viria a acontecer em Portugal: o v\u00edrus era o mesmo e os seres humanos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Na primeira fase, o Governo portugu\u00eas mandou fechar lojas, centros comerciais, restaurantes, hot\u00e9is e outras empresas sem qualquer prova de que fossem locais de contamina\u00e7\u00e3o. Pior, f\u00ea-lo quando os n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o eram extraordinariamente baixos e nada o justificava. Dir-me-\u00e3o alguns que seguiu o exemplo de outros governos europeus.<\/p>\n<p>Acontece que Espanha, It\u00e1lia e Reino Unido o fizeram por terem n\u00edveis de infe\u00e7\u00e3o extraordinariamente elevados e n\u00e3o tinham outra alternativa se\u00e7\u00e3o parar tudo. E j\u00e1 agora, conv\u00e9m explicar porque \u00e9 que estes dois pa\u00edses foram t\u00e3o severamente atingidos pela pandemia. Estes dois pa\u00edses tiveram jogos da Liga dos Campe\u00f5es em mar\u00e7o (Atalanta \u2013 Val\u00eancia e Liverpool- Atl\u00e9tico de Madrid), com est\u00e1dios cheios e j\u00e1 com a pandemia em crescimento acelerado.<\/p>\n<p>Foram estes jogos e o facto de serem pa\u00edses com elevado tr\u00e1fego de turistas e viajantes econ\u00f3micos que os tornaram um alvo f\u00e1cil para a propaga\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus. Portugal (que tem poucos turistas no inverno e, por estar na ponta da Europa, n\u00e3o \u00e9 local de passagem para outros pa\u00edses al\u00e9m da Espanha) n\u00e3o teve nenhum destes fatores e, por isso, foi poupado \u00e0s maiores consequ\u00eancias do v\u00edrus. N\u00e3o foram Ant\u00f3nio Costa (ou Marcelo Rebelo de Sousa) os respons\u00e1veis por qualquer \u201cmilagre portugu\u00eas\u201d, como nos quiseram fazer crer, mas as circunst\u00e2ncias que acima referi.<\/p>\n<p>Discordo totalmente de que houve um desconfinamento demasiado r\u00e1pido em maio. Pelo contr\u00e1rio, considero que se demorou demasiado tempo a reabrir a economia, sobretudo, quando j\u00e1 era conhecidos os protocolos de seguran\u00e7a (nomeadamente, o uso de m\u00e1scara facial, o distanciamento social e a desinfe\u00e7\u00e3o de superf\u00edcies com \u00e1lcool-gel). Com os sucessivos adiamentos e hesita\u00e7\u00f5es na abertura do com\u00e9rcio e restaura\u00e7\u00e3o levou \u00e0 perda de milhares de empregos, fecho de lojas ou, igualmente grave, ao endividamento de muitas empresas que ainda hoje subsistem com bal\u00f5es de oxig\u00e9nio, que ir\u00e3o rebentar mais cedo ou mais tarde.<\/p>\n<p>E a prova de que o atraso na reabertura quase completa da economia (ficaram por abrir bares e discotecas) foi um erro e n\u00e3o teve qualquer justifica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica \u00e9 que durante todo o ver\u00e3o n\u00e3o houve qualquer aumento de casos de COVID-19. Portanto, as regras de preven\u00e7\u00e3o da COVID-19 funcionam mesmo e salvam empresas e postos de trabalho. E se funcionam bem no ver\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para n\u00e3o funcionarem no inverno!<\/p>\n<p>Em setembro, a pandemia voltou a aumentar, n\u00e3o s\u00f3 em Portugal como no resto da Europa. O que aconteceu? As prote\u00e7\u00f5es deixaram de funcionar? Seguramente que n\u00e3o. A verdade \u00e9 que a transmiss\u00e3o de COVID-19 acelera com a multiplica\u00e7\u00e3o de encontros informais, com amigos ou familiares. E o regresso a casa depois das f\u00e9rias, antes das escolas abrirem, proporcionou muito tempo livre para encontros com amigos e familiares. Naturalmente, nesses encontros, a m\u00e1scara est\u00e1 quase sempre ausente. Se s\u00e3o amigos ou familiares, s\u00e3o pessoas de confian\u00e7a e, instintivamente, baixamos as defesas e contamos que n\u00e3o est\u00e3o infetados. E como n\u00e3o h\u00e1 encontro familiar ou de amigos sem comer ou beber e n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1scara a proteger ningu\u00e9m nestes momentos de conv\u00edvio, as infe\u00e7\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em julho e agosto, os hot\u00e9is portugueses tiveram n\u00edveis de ocupa\u00e7\u00e3o razo\u00e1veis, dadas as circunst\u00e2ncias, mas, al\u00e9m de serem locais seguros por seguirem todos os protocolos de seguran\u00e7a sanit\u00e1ria, geralmente, \u00e9 apenas a fam\u00edlia nuclear que viaja nas f\u00e9rias de ver\u00e3o. Sem bares e discotecas abertos, pouco foi o conv\u00edvio entre os h\u00f3spedes dos hot\u00e9is, o que explica o baixo n\u00edvel de infe\u00e7\u00f5es no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>O mais grave erro de Ant\u00f3nio Costa nesta pandemia foi ter desvalorizado o crescimento da pandemia a partir de setembro. No dia 14 de outubro, quando Portugal j\u00e1 ultrapassava os dois mil casos di\u00e1rios de infe\u00e7\u00f5es com o SARS-CoV-2, o <a href=\"https:\/\/www.tsf.pt\/portugal\/politica\/casamentos-e-batizados-tem-de-ser-comedidos-governo-impoe-limite-de-50-pessoas-12919919.html\">primeiro-ministro decidiu limitar o n\u00famero de pessoas em casamentos e baptizados a 50 pessoas<\/a>!<\/p>\n<p>Ou seja, apesar da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, continuou a permitir o ajuntamento de multid\u00f5es, sendo ainda permitidas festas sem limite de convidados se estas j\u00e1 tivessem sido marcadas. Em Alenquer, chegou a ser anunciado um casamento com 300 pessoas, que se chegou mesmo a realizar! Tudo legal e com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Costa que anunciou as medidas com um sorriso nos l\u00e1bios e ainda se justificou de que tinha de dar um sinal \u00e0 sociedade de que n\u00e3o se devia exagerar. Isto depois do pr\u00f3prio admitir que foram as grandes festas sociais (casamentos, baptizados e almo\u00e7aradas) o principal foco de cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Nesta altura, j\u00e1 a pandemia grassava com n\u00fameros preocupantes em toda a Europa e nenhuma d\u00favida restava de que as ondas de infe\u00e7\u00e3o no centro da Europa rapidamente chegariam a Portugal. Foi assim na Gripe Espanhola, h\u00e1 100 anos, foi assim na primeira vaga de COVID-19 na primavera de 2020 e seria assim em Portugal.<\/p>\n<p>Nada disto demoveu o Governo Portugu\u00eas de manter a circula\u00e7\u00e3o de pessoas, recusando-se a proceder a confinamentos, mesmo com 5 mil infetados por dia, quando obrigara os portugueses a confinar em mar\u00e7o com 500 casos! O extraordin\u00e1rio argumento agora \u00e9 que n\u00e3o aguentar\u00edamos um segundo confinamento por ser muito prejudicial \u00e0 economia.<\/p>\n<p>As sucessivas restri\u00e7\u00f5es parciais impostas pelo Governo aos portugueses estavam, naturalmente votadas ao fracasso. No primeiro confinamento de mar\u00e7o e abril, o confinamento foi total e mesmo assim os n\u00fameros demoraram dois meses a baixar. Portanto, todos sab\u00edamos que, com n\u00fameros de infe\u00e7\u00f5es de 10 ou 20 vezes mais infe\u00e7\u00f5es, nada mais restava que adotar o mesmo modelo de confinamento total.<\/p>\n<p>Por isso, foi totalmente incompreens\u00edvel a <a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/pais\/costa-diz-que-nenhuma-medida-esta-excluida-numa-luta-que-e-corrida-de-fundo-12979091.html\">declara\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Costa<\/a>, no dia 29 de outubro de 2020, de\u00a0 que \u201cestamos perante uma corrida de longo curso e, portanto, n\u00e3o podemos gastar todo o esfor\u00e7o nem todas as medidas nos primeiros momentos.\u201d<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o \u00e9 preciso ter grandes conhecimentos de medicina para se saber que uma infe\u00e7\u00e3o aguda se trata imediatamente com um antibi\u00f3tico de largo espectro, n\u00e3o se vai experimentar uns ch\u00e1s primeiro e s\u00f3 quando quando a temperatura ultrapassar os 40\u00baC se vai optar por meia dose de antibi\u00f3tico espec\u00edfico e s\u00f3 se tiver de ser internado, se vai recorrer ao antibi\u00f3tico de largo espectro. O melhor tratamento para a doen\u00e7a \u00e9 mat\u00e1-la \u00e0 nascen\u00e7a, n\u00e3o prolong\u00e1-la no tempo com infus\u00f5es e mezinhas, que foi a bizarra solu\u00e7\u00e3o proposta pelo primeiro-ministro perante o sil\u00eancio c\u00famplice de toda a oposi\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o social, sempre demasiado ocupada com casos e casinhos.<\/p>\n<p>Se Ant\u00f3nio Costa estava preocupado com a economia, n\u00e3o a devia ter mantido fechada em abril e maio, quando nada o justificava com 300 casos de infe\u00e7\u00f5es por dia e onde em 1\/3 dos munic\u00edpios do Pa\u00eds n\u00e3o tinham um \u00fanico caso de COVID-19! N\u00e3o \u00e9 agora com 10 mil casos novos por dia e mais de mil mortes por semana que a economia \u00e9 priorit\u00e1ria. O primeiro-ministro teve agora de se desmentir a si pr\u00f3prio e impor um confinamento, ainda que light,\u00a0 depois de garantir ao Pa\u00eds que n\u00e3o o aguentaria e, inevitavelmente, ter\u00e1 ainda de o agravar.<\/p>\n<p><strong>As escolas abertas ou fechadas?<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o por esclarecer que fui favor\u00e1vel ao encerramento das escolas em mar\u00e7o e continuo a entender que n\u00e3o havia outra alternativa. Sem m\u00e1scaras, com turmas superlotadas e sem protocolos de seguran\u00e7a, os surtos de infe\u00e7\u00f5es sucediam-se uns atr\u00e1s dos outros e, se as escolas n\u00e3o encerrassem, rapidamente seriam um foco gigantesco de propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, com pais j\u00e1 em p\u00e2nico e a recusarem enviar os filhos para a escola.<\/p>\n<p>Atualmente, j\u00e1 temos m\u00e1scaras e protocolos de seguran\u00e7a e, nas palavras do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, \u201cs\u00e3o um local seguro\u201d. Na verdade, tamb\u00e9m aqui recuso que o normal funcionamento das escolas e universidades at\u00e9 agora seja um \u201cmilagre\u201d ou fruto do extraordin\u00e1rio trabalho de professores, funcion\u00e1rios ou dire\u00e7\u00f5es das escolas. \u00c9 verdade que todos fizeram bem o seu trabalho, mas a reduzida propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus nas escolas \u2013 como noutras institui\u00e7\u00f5es \u2013 deve-se sobretudo \u00e0 grande efic\u00e1cia revelada pela utiliza\u00e7\u00e3o das m\u00e1scaras faciais. Muitos s\u00e3o os casos de alunos e professores infetados que n\u00e3o infetaram os que os rodeavam.<\/p>\n<p>Contudo, muito diferente \u00e9 o comportamento dos alunos fora das escolas, em que o uso de m\u00e1scara muitas vezes n\u00e3o \u00e9 respeitado. Nos caf\u00e9s, nos parques, nos becos, os jovens est\u00e3o \u00e0 vontade com os seus pares. Vinga o argumento de que, se \u00e9 amigo, n\u00e3o est\u00e1 infetado e a m\u00e1scara \u00e9 dispens\u00e1vel. J\u00e1 vi turmas inteiras sem m\u00e1scara, em grupo, \u00e0 sa\u00edda das escolas. Uns falam ao telem\u00f3vel, outros fumam, outros trocam car\u00edcias. N\u00e3o s\u00e3o irrespons\u00e1veis, s\u00e3o apenas adolescentes a serem eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Nos recreios das escolas, em grupo, as crian\u00e7as tamb\u00e9m baixam as m\u00e1scaras durante muitos minutos para comer ou beber e at\u00e9 partilham a comida. N\u00e3o s\u00e3o irrespons\u00e1veis, s\u00e3o apenas crian\u00e7as a serem elas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>A partir daqui, o v\u00edrus encontra meio de propaga\u00e7\u00e3o em meio escolar, em maior ou menor grau. Diz o primeiro-ministro que os presidentes das associa\u00e7\u00f5es de pais e das dire\u00e7\u00f5es escolares foram favor\u00e1veis \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das escolas abertas. Mas o principal problema n\u00e3o \u00e9 a maioria da comunidade educativa &#8211; alunos, pais e professores- que estiveram em an\u00e1lise nas reuni\u00f5es t\u00e9cnicas. A gravidade reside no contacto dos jovens com os seus av\u00f3s \u2013 e h\u00e1 milh\u00f5es de jovens que vivem ou contactam di\u00e1ria ou regularmente com os seus av\u00f3s &#8211; e no contacto dos jovens com pais (e professores) de risco.<\/p>\n<p>Desde h\u00e1 alguns meses, circula na comunica\u00e7\u00e3o social a narrativa de que as aulas \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00e3o pouco mais do que in\u00fateis e que h\u00e1 estudos que indicam que as aprendizagens que deveriam ter sido feitas na segunda metade do ano letivo 2019\/2020 n\u00e3o se efetivaram. A isto, acrescentam que h\u00e1 alunos que n\u00e3o t\u00eam equipamentos inform\u00e1ticos em casa e, portanto, n\u00e3o puderam assistir \u00e0s aulas. Em conclus\u00e3o, garantem que o encerramento de escolas n\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o e que, a acontecer, haveria uma gera\u00e7\u00e3o perdida, sobretudo os alunos mais desfavorecidos.<\/p>\n<p>Vamos a factos. As aulas \u00e0 dist\u00e2ncia n\u00e3o s\u00e3o in\u00fateis e h\u00e1 muitos testemunhos de alunos que at\u00e9 preferiram as aulas \u00e0 dist\u00e2ncia que as aulas presenciais. Ou porque est\u00e3o no conforto da sua casa ou porque assim n\u00e3o t\u00eam outros colegas a distra\u00ed-los ou ainda porque acham mais c\u00f3moda a avalia\u00e7\u00e3o online, formativa ou de avalia\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m h\u00e1 casos de alunos que n\u00e3o trabalhavam em ambiente de aula presencial e passaram a trabalhar e a enviar os trabalhos solicitados pelos professores. Portanto, a no\u00e7\u00e3o de que o ensino presencial s\u00f3 tem vantagens e o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00f3 tem desvantagens est\u00e1 longe de corresponder \u00e0 verdade, n\u00e3o passando de uma caricatura da realidade.<\/p>\n<p>Por outro lado, o ensino online e \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 seguramente o futuro. Hoje mesmo, j\u00e1 h\u00e1 alunos que afirmam aprender mais pesquisando online que nas aulas presenciais e \u00e9 desej\u00e1vel que assim aconte\u00e7a. A internet corresponde hoje \u00e0s antigas enciclop\u00e9dias, com um inesgot\u00e1vel e valioso mundo de recursos educativos, nos mais variados temas. \u00c9 lament\u00e1vel que n\u00e3o se tenha utilizado a oportunidade criada por esta pandemia para desenvolver nos alunos o gosto e treinar a utiliza\u00e7\u00e3o destas ferramentas. J\u00e1 hoje, h\u00e1 professores a treinar alunos mais jovens para a pesquisa de conte\u00fados educativos, com resultados prometedores. N\u00e3o \u00e9 deixando crian\u00e7as e adolescentes abandonados na utiliza\u00e7\u00e3o de telem\u00f3veis, tablets ou computadores que se garante o seu futuro e a sua educa\u00e7\u00e3o. Sem treino e acompanhamento pedag\u00f3gico, crian\u00e7as e adolescentes ir\u00e3o restringir o uso dos gadgets a jogos, redes sociais ou at\u00e9 utiliza\u00e7\u00f5es impr\u00f3prias, o que \u00e9 de todo desaconselh\u00e1vel para o seu desenvolvimento harmonioso.<\/p>\n<p>Relativamente aos jovens desfavorecidos, pergunto: o que \u00e9 feitos das centenas de milhares de tablets e computadores anunciados pelo Governo h\u00e1 mais de seis meses? Seguramente, n\u00e3o \u00e9 por falta de oferta no mercado que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o os adquiriu atempadamente como devia. \u00a0Por outro lado, recordo que h\u00e1 escolas que se mobilizaram no ano letivo passado para fornecer equipamentos inform\u00e1ticos a alunos desfavorecidos, por vezes, em articula\u00e7\u00e3o com c\u00e2maras municipais, juntas de freguesia ou associa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tendo deixado nenhum aluno para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Relativamente ao argumento do desconforto das casas de muitos jovens, lamento diz\u00ea-lo, mas essa falta de conforto tamb\u00e9m afeta muitas escolas, onde ainda recentemente milhares de alunos experimentaram temperaturas pr\u00f3ximas de 0\u00baC dentro das pr\u00f3prias salas de aula.<\/p>\n<p>Naturalmente, o ensino presencial tem mais vantagens, desde logo porque permite o ensino pr\u00e1tico, fomenta a sociabilidade e permite um acompanhamento em tempo real do trabalho dos alunos, mas neste caso, a escolha \u00e9 entre a vida (nomeadamente de av\u00f3s e de pais ou professores com fatores de risco) e a qualidade de educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havendo qualquer d\u00favida de qual deve prevalecer. N\u00e3o \u00e9 por as escolas fecharem um m\u00eas que se perde uma gera\u00e7\u00e3o de alunos, uma afirma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passa de um clich\u00e9 de uma esquerda folcl\u00f3rica, desfocada da realidade. Se d\u00favidas houver, perguntem \u00e0s crian\u00e7as em causa se preferem perder umas aulas ou perder os pais ou av\u00f3s!<\/p>\n<p>Dado o n\u00edvel brutal a que chegou a pandemia em Portugal, com todos os hospitais \u00e0 beira da rotura, n\u00e3o me parece que haja outra alternativa a n\u00e3o ser o encerramento dos estabelecimentos de ensino, a exemplo do que aconteceu na primeira vaga, ainda que em circunst\u00e2ncias diferentes, mas igualmente gravosas. A verdade \u00e9 que o n\u00edvel de cont\u00e1gio nas escolas, ainda que moderado, vem somar-se a n\u00fameros j\u00e1 exageradamente elevados de COVID-19 e \u00e9 expect\u00e1vel que o n\u00famero de infe\u00e7\u00f5es nas escolas comece tamb\u00e9m a escalar, com as turmas a serem enviadas para casa umas atr\u00e1s das outras e a consequente perturba\u00e7\u00e3o nas escolas e nas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Poderia o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o ter minorado este problema se tivesse optado por um ensino misto \u2013 presencial e \u00e0 dist\u00e2ncia &#8211; logo no in\u00edcio do ano letivo. Contudo, recusou a sugest\u00e3o flex\u00edvel defendida por muitos professores e diretores de escolas, de forma obstinada e incompreens\u00edvel, dado ser perfeitamente previs\u00edvel uma segunda ou terceira vaga da pandemia, como alertaram a generalidade dos epidemiologistas, que permitiria uma transi\u00e7\u00e3o suave para o modo online, em caso de necessidade, pelo que agora Tiago Brand\u00e3o Rodrigues apenas se pode queixar de si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, pa\u00edses mais desenvolvidos que Portugal &#8211; como Alemanha e Reino Unido &#8211; tamb\u00e9m encerraram as suas escolas e o rid\u00edculo argumento da &#8220;gera\u00e7\u00e3o perdida&#8221; nunca se colocou. Pode Tiago Brand\u00e3o Rodrigues afirmar que vamos ter uma gera\u00e7\u00e3o perdida de jovens alem\u00e3es ou brit\u00e2nicos s\u00f3 porque fecharam as suas escola ao ensino presencial algumas semanas ou meses?<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um fator adicional a favor do encerramento das escolas. Na primeira vaga, os portugueses tiveram muito medo de uma pandemia nova de que nada sabiam, na segunda vaga perderam o medo, sobretudo, os n\u00e3o idosos, porque perceberam que dificilmente a sua vida estariam em risco. Com mais de dois milh\u00f5es de pessoas na rua, a perce\u00e7\u00e3o de normalidade vai continuar a ser o padr\u00e3o para os portugueses e mais dif\u00edcil ser\u00e1 interiorizarem de que devem confinar. Recordo que o confinamento \u00e9 um ato n\u00e3o natural, contr\u00e1rio \u00e0 natureza humana e, como tal, de dif\u00edcil materializa\u00e7\u00e3o. O medo \u00e9 o cimento do confinamento, sem o medo ningu\u00e9m convencer\u00e1 as pessoas de que \u201cdevem recolher ao seu domic\u00edlio.\u201d Nem multas a dobrar nem a pol\u00edcia que, por sinal, tem mais que fazer na sua miss\u00e3o de assegurar a seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Concluindo, na minha opini\u00e3o, Ant\u00f3nio Costa conduziu de forma errada a gest\u00e3o da pandemia desde a primeira hora, mesmo admitindo que foi mal assessorado por Marcelo Rebelo de Sousa e por alguns t\u00e9cnicos de sa\u00fade e, por isso, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico culpado. Na primeira vaga, sobrevalorizou a quest\u00e3o da sa\u00fade e desvalorizou a economia, sem justifica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, dado o baixo n\u00edvel atingido pela pandemia. Na segunda vaga, sobrevalorizou a economia e desvalorizou a sa\u00fade, tamb\u00e9m sem qualquer racionalidade, dados os n\u00edveis alarmantes da doen\u00e7a neste momento.<\/p>\n<p>Recorrendo \u00e0 f\u00e1bula, podemos dizer que, na primeira vaga, o Governo assustou-se e usou um canh\u00e3o para matar um pardal e vangloriou-se do feito a que chamou \u201cmilagre portugu\u00eas. Contudo, apercebendo-se dos estragos provocados pelo canh\u00e3o, decidiu que nunca mais o usaria. Na segunda vaga, decidiu ent\u00e3o usar uma fisga para enfrentar o avan\u00e7o descontrolado de um rinoceronte e quer-nos convencer que tudo est\u00e1 controlado. Pelo menos, enquanto houver postigos para fechar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 M\u00e1rio Lopes<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde dezembro de 2019 que a pandemia provocada pelo v\u00edrus SARS-CoV-2 tem provocado a maior crise sanit\u00e1ria do \u00faltimo s\u00e9culo a n\u00edvel planet\u00e1rio. Pelo menos 95 milh\u00f5es de pessoas foram contaminadas com o v\u00edrus e 2 milh\u00f5es de pessoas faleceram da doen\u00e7a COVID-19. Em Portugal o n\u00famero de infetados ascende a 567 mil e o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":806,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-670","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=670"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":717,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670\/revisions\/717"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/806"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tintafresca.net\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}