Edição: 246

Diretor: Mário Lopes

Data: 2021/5/18

Carta aberta à comunicação social, ao Partido Socialista, a todos os militantes, e à comunidade em geral

Rui Alexandre

Sou socialista há mais de três décadas. Comecei por me filiar no SPD quando vivi na Alemanha, e ingressei na militância do Partido Socialista nacional nos anos 90.

Chefio a Concelhia de Alcobaça, tendo vencido as eleições de 2018 e de 2020 com maioria absoluta, e represento, como deputado, o Partido Socialista na Assembleia Municipal e Assembleia Intermunicipal.

Foram os princípios da liberdade, da democracia e do pluralismo, que nortearam, ao longo de todos estes anos, a minha dedicação ao PS.

Agora é com muita mágoa, e nódoas negras no coração, que me desvinculo de tal apego.

As lideranças do Partido Socialista distrital têm mostrado, nos tempos recentes, que não estão à altura do que a comunidade espera delas.

Existem clivagens dentro do PS distrital de que só se sairia com um comando respeitador das diferenças, com vontade de trabalhar de modo cristalino em benefício da causa pública, e com empenho em chamar e unir todos os socialistas, tanto os vencidos como os vencedores de eleições internas. Mas tal zelo não existe, o que ocorre é exatamente o contrário.

A liberdade de expressão, de pensamento e de opinião, ao invés de ser respeitada e exaltada no sentido de fomentar o crescimento dos militantes e do partido, é entendida como afronta a que é necessário pôr fim.

O que a atual federação distrital tem vindo a mostrar, de modo claro, é que prefere deixar de ganhar eleições, em certos municípios, do que permitir que aqueles que não pactuam com os poderes instalados, nem com a bailata do exercício da política para a defesa dos interesses pessoais, possam encabeçar uma candidatura autárquica.

Como todos sabem, sou apaixonado pela minha terra e entendo que, com o trabalho que estou disposto a dedicar-lhe, serei capaz, juntamente com as pessoas que me acompanham, de a desenvolver e transformar num padrão internacional em várias categorias.

Nesse contexto, e porque contava com o apoio da totalidade do Secretariado e da maioria dos membros da Comissão Política Concelhia, propus-me a ser o aspirante do Partido Socialista para disputar a Câmara de Alcobaça.

Desenganem-se aqueles que supõem que pretendia vencer esse desígnio “na secretaria”, ou que, de algum modo, não cumpri todas as etapas do devido processo, ou, como alguns insinuaram, “não fiz tudo certinho”.

Todos os requisitos foram cumpridos: fui apresentado, por unanimidade, como candidato a candidato pelo Secretariado da Concelhia. E, mais tarde, sujeito a votação da Comissão Política.

No período que mediou entre a referida nomeação e a votação, fomos (eu e a minha equipa) alvos, na Comissão Federativa de Jurisdição, de inúmeros processos inventados, descabidos, e sem qualquer fundamento legal, movidos pelo claro e único propósito de impedir a minha seleção como candidato autárquico.

No mesmo interregno, os meus adversários concelhios e federativos serviram-se dos meios de comunicação social para, ultrapassando largamente o direito à liberdade de expressão, enviar-me recados, tentar desacreditar a minha imagem política, e exporem questões da vida própria do Partido que só aos militantes dizem respeito, e que, por isso, devem ser discutidos em sede própria.

As repentinas, inesperadas e surpreendentes mudanças de posições, de alguns militantes, que ocorreram no dia da eleição, em reunião da Comissão Política, e que determinaram a escolha da candidatura adversária, indiciam a existência das, lamentavelmente, já tradicionais oferendas, promessas e propostas de bastidores, sempre muito sedutoras aos olhos dos mais ambiciosos e pouco convictos dos seus valores e princípios.

O desfecho eleitoral (de 12 / 15 votos) ditou a vitória dos “mesmos de sempre”, dos que, por diversas vezes, já foram humilhantemente derrotados em disputas autárquicas, mas que (não querendo ser ofensivo e com o devido respeito) fazem aparentar que não se inquietam com o confrangimento do Partido, desde que, as suas vantagens individuais, continuem garantidas.

Numa atitude de dádiva e de consagração ao concelho que pretendo servir, disponibilizei-me, juntamente com os que me mantém o apoio e lealdade, para coadjuvar a união dos militantes alcobacences (e desse modo possibilitar uma vitória autárquica), integrando, todos nós, a lista do Partido Socialista.

Mas, com grande espanto, fomos dispensados.

É que Impera em Alcobaça a tática inaugurada e seguida pela Federação: a ousadia da apresentação de candidaturas internas, seja para que órgão for, paga-se com ódio visceral, que se há de manter para além dos resultados eleitorais, e que dita fissuras impossíveis de preencher e apaziguar.

Aqui abro um parêntesis para manifestar o meu descontentamento, também, com o Partido Socialista Nacional, pois, tendo conhecimento da desagregação existente entre os militantes do distrito de Leiria, nunca manifestou interesse em conhecer os motivos que a sustentam, nem curou de intervir no sentido de a expurgar.

O meu desalento, relativamente à atual situação política federativa até aqui acabado de manifestar, acrescido do facto de exercer funções de responsabilidade no Departamento de Recursos Humanos da autarquia de Alcobaça, levam-me, nos termos do artigo 7.º, n.º 1, do Regulamento de Militância e Participação do PS, a pedir a minha suspensão da militância, por tempo indeterminado.

A suspensão do Partido implica, naturalmente, a saída da liderança da Concelhia de Alcobaça.

Assumiria esse papel, em situações normais, a camarada Ana Margarida Martinho que ocupava o segundo lugar na lista pela qual fomos eleitos. Camarada essa que integra também a Comissão Política Nacional.

Acontece, porém, que, a mencionada militante, ocupa o cargo de Técnica Superior do Património no Mosteiro de Alcobaça.

Como se compreende, caso, eventualmente, viesse a alcançar o cargo que almeja no Mosteiro, sobressairiam sempre as dúvidas, a que a própria seguramente quer evitar, de que tal conseguimento teria ficado a dever-se a influências movidas a nível político.

Deste modo, em defesa da transparência por que tanto pugnamos, a socialista Ana Margarida Martinho apenas deverá poder manter-se, na Comissão Política Nacional e assumir funções na chefia da Concelhia, se mostrar disponibilidade para tal por forma a que não haja constrangimentos na sua vida pessoal, o que julgamos perfeitamente compreensível, fá-lo-á, com toda a certeza, relativamente às posições políticas que ocupa (tanto na Comissão Política Nacional como na Concelhia de Alcobaça).

Assim, dando, a camarada em causa, prioridade à sua ascensão profissional, a Concelhia de Alcobaça ficará sem liderança.

Assunto que deverá ser resolvido pela Federação Distrital de acordo com os Estatutos do Partido Socialista.

Pelo meu lado, aproveito esta oportunidade para comunicar também que, pela urgência em criar alicerces para que Alcobaça consiga desenvolver todo o seu potencial e chegar aos patamares de excelência que se espera, admito poder vir a aceitar o desafio, que insistentemente me tem vindo a ser lançado, de encabeçar uma lista independente para conquistar a Autarquia que gere “a terra do amor eterno”. Mas esta será uma questão a ser decidida oportunamente.

Com os melhores cumprimentos,

Para sempre socialista,

    Rui Alexandre.

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Jorge Manuel Antunes Alves

Alguém, que foi próximo do PS, Concelhia de Alcobaça, nas suas Reflexões Políticas um dia escreveu: “ Além de motivação e mobilização, falta credibilidade no PS/Alcobaça. Seria preciso que as pessoas se convencessem que a credibilidade não depende do valor que as pessoas julgam que têm. A credibilidade depende do valor que os outros nos reconhecem. Num partido tão fragilizado, e tão escasso em pessoas, era essencial captar novos militantes. Mas quem arrisca a meter-se neste vespeiro.” Pelos vistos acertou bem na muche, parece que ainda hoje, esta reflexão se mantém bem atual.

Valdemar J. Rodrigues

Corrigenda 3: Onde se lê «mas de se alguma coisa me arrependo não é do que tentei fazer pela terra onde durante mais de meia vida.» leia-se por favor: «mas de se alguma coisa me arrependo não é do que tentei fazer pela terra onde vivi durante mais de meia vida.

Valdemar J. Rodrigues

Corrigenda 2: Onde está «um trabalho de compromisso com a população e não apenas com aquela pequena facção dela a quem servem os favores e os comércios domésticos o poder, ou seja, os próprios da não-política.» leia-se por favor: «um trabalho de compromisso com a população e não apenas com aquela pequena facção dela a quem servem os favores e os comércios domésticos do poder, ou seja, os próprios da não-política.»

Valdemar J. Rodrigues

Corrigenda: Onde está «Eu aliás nem deveria dizer nada, pois não tenho nem propriedade nem qualquer outro interesse económico; o meu interesse é tão-somente afectivo?» leia-se por favor: «Eu aliás nem deveria dizer nada, pois não tenho nem propriedade nem qualquer outro interesse económico no concelho de Alcobaça; o meu interesse é tão-somente afectivo"

Valdemar J. Rodrigues

Em Alcobaça e em muito outros municípios não existe há muito sombra de debate político, nem qualquer oposição política de facto. Há caciques, interesses instalados, negócios privados de PDM - não frequentemente vergonhosos e escandalosos - cunhas para cargos e empregos públicos, e generalizada compra e venda de poder, usando o dinheiro e os meios que, por serem de todos, deviam estar ao serviço do bem comum de todos. Parte substancial do PS alcobacense está, como se vê, ao lado do Hrrmínio, o que não é pois de admirar. Hermínio está no poder há 24 anos, e continuará certamente a estar, agora como presidente da Câmara. Representa a falência absoluta da democracia e da política. A evidência é que nem o PS nem o PSD nem qualquer outro partido conseguiram em 47 anos de democracia e poder local produzir melhor que aquilo - uma autêntica nulidade política, sem biografia pessoal, histórico de qualquer causa pública pela qual se haja batido, e sem um átomo visível de ideias ou de pensamento próprio. Hermínio incarna assim melhor que ninguém o fim da lenta agonia da política local, e até da própria democracia. Os tempos são estes e não há outros; mudar mentalidades e modos de ser na política local é algo que demora décadas e envolve décadas de trabalho persistente e, sobretudo, honesto e sério, um trabalho de compromisso com a população e não apenas com aquela pequena facção dela a quem servem os favores e os comércios domésticos o poder, ou seja, os próprios da não-política. Responsáveis são na generalidade os que se prestam a tais favores e comércios, mas são sobretudo aqueles que historicamente, como Esaú, abdicam por um "prato de lentilhas". Rui Morais, por exemplo, parece-me que tinha o dever cívico de avançar com uma lista para Câmara mas, talvez para evitar situações complicadas (como ser presidente e apoiar a "sua" escola de música), parece ter preferido, uma vez mais, o sossego das lentilhas. Tal como não percebo a "ausência política" de Rui Morais, também não percebo a "ausência" de outros que, como ele, vêm mostrando competência e elevado apreço por Alcobaça, desenvolvendo aí projectos e iniciativas de facto notáveis. Admito todavia que posso estar enganado. Se acaso há uma "satisfação geral" dos vários agentes do concelho, quer culturais quer económicos e sociais, com a governação de Hermínio nas muitas áreas pelas quais tem sido responsável autárquico ao longo destes 24 anos, então nada há a dizer. Eu aliás nem deveria dizer nada, pois não tenho nem propriedade nem qualquer outro interesse económico; o meu interesse é tão-somente afectivo: nele vivi os meus primeiros 25 anos de vida e, quando a ele regressei, corria o ano de 2000, depois de ter concluído os meus estudos universitários, tentei de alguma maneira contribuir para a sua melhoria. Fracassei redondamente. Ao Hermínio apresentei duas propostas (na área do ambiente, a minha área de formação, das não tive sequer direito a resposta ou a qualquer pedido de esclarecimentos). Desde que, em 2009, voltei a deixá-lo, venho seguindo o seu rumo e notícias apenas à distância, nomeadamente aqui no Tinta Fresca; já nem sequer votamos (eu e a minha família) aí em Alcobaça. Mas é assim: aprendi que devo ser como sou, não como querem ou gostariam que eu fosse. Isso tem alto preço, eu bem sei agora aos 55 anos de idade, mas de se alguma coisa me arrependo não é do que tentei fazer pela terra onde durante mais de meia vida.