Edição: 249

Diretor: Mário Lopes

Data: 2021/8/2

“Do Mar à Sociedade” deu mote a conferência internacional promovida pelo Politécnico

Politécnico de Leiria aposta na educação, investigação e inovação da economia azul

Rui Pedrosa

«A economia azul deve assumir um papel predominante na educação, investigação e inovação durante a próxima década. Essa é uma estratégia e compromisso do Politécnico de Leiria, incluídos no plano estratégico 2020/2030 da nossa instituição, e que encaixa perfeitamente na Estratégia Nacional para o Mar para o período 2021/2030. Esta estratégia sublinha a importância da economia azul, associada à segurança alimentar, à valorização da sustentabilidade dos recursos marítimos, com a aquacultura, a biotecnologia marinha, entre outras atividades com impacto em vários setores», afirmou Rui Pedrosa, presidente do Politécnico de Leiria, durante a abertura da conferência internacional “Do Mar à Sociedade”, realizada no dia 25 de maio.

Promovida em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e o Ministério do Mar, a conferência internacional foi organizada sob a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, e reuniu diversos especialistas, investigadores e atores da economia azul, para uma partilha e valorização de conhecimento e tecnologia para a sustentabilidade, valorização dos recursos marinhos e para o desenvolvimento socioeconómico das comunidades costeiras.

«Quero destacar o grande investimento que o Politécnico de Leiria fez nos últimos 20 anos, como a construção da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM), com mais de 1.600 estudantes em vários cursos das áreas do Turismo, Sustentabilidade, Hospitalidade, Gastronomia, Biologia Marinha, Biotecnologia Marinha, Engenharia dos Alimentos e Aquacultura. E este ano vamos ter um novo e pioneiro mestrado em Economia Azul e Circular», realçou o presidente, destacando ainda a criação da estrutura científica Cetemares e a cocriação do Smart Ocean, um parque de Ciência e Tecnologia, em parceria com o município de Peniche.

Rui Pedrosa sublinhou o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na Universidade Europeia RUN-EU, liderada pelo Politécnico de Leiria, onde, além das estratégias principais associadas à criação de programas conjuntos de licenciaturas, mestrados e doutoramentos a nível europeu, programas avançados de curta duração, e o programa RUN-EU Discovery, foi proposta a cocriação de três hubs de inovação europeus, incluindo o hub de bioeconomia.

«Com esta conferência pretendemos destacar uma forte ideia que ficou ainda mais visível durante este contexto pandémico, que a ciência e o conhecimento são globais, sem barreiras e completamente dependentes de redes nacionais e internacionais, com mais e mais contributos multidisciplinares, em contextos de cocriação. Apenas com redes globais de ciência e conhecimento vai ser possível ultrapassar os desafios globais que enfrentamos atualmente, como as alterações climáticas», afirmou Rui Pedrosa.

A representar o Ministério do Mar esteve a diretora-geral da Política do Mar, Helena Vieira, que começou por citar o primeiro-ministro António Costa, ao afirmar: «Outros deram prioridade à lua e a Marte, mas a Europa tem que abraçar os oceanos como uma causa e uma missão». «Uma bioeconomia sustentável, circular e inclusiva vai beneficiar os oceanos. Mas apenas é possível se for baseada nos fundamentos de um oceano saudável. Precisamos de mudar o nosso comportamento e as nossas políticas para travar a degradação do ecossistema marinho e desenvolver um ecossistema económico que seja simultaneamente sustentável e competitivo», defendeu Helena Vieira, focando-se na Estratégia Nacional para o Mar para o período 2021/2030.

«Esta nova estratégia nacional coloca a saúde do nosso oceano como uma necessidade básica, para a qual o desenvolvimento tecnológico e a investigação científica são colocados no centro do processo de decisão. Este documento representa a principal referência para as políticas portuguesas relacionadas com o oceano durante os próximos 10 anos, onde a ciência e a tecnologia estão em destaque», destacou a diretora-geral da Política do Mar, apontando a criação do “Hub Azul”.

«Este hub vai permitir uma economia tecnológica, verde e azul, com um claro foco na proteção da biodiversidade. No polo de Peniche do Hub Azul, por exemplo, o investimento vai focar-se em desenvolver o Smart Ocean, para reforçar a sua capacidade para suportar e apoiar start-ups, mas também projetos para melhorar instalações locais de realização de testes no oceano e ainda reforçar a relação com a comunidade local, que está fortemente ligada ao mar nesta região. Vai ser uma boa representação de como o oceano, ciência e tecnologia podem impulsionar o desenvolvimento local, regional e nacional», sublinhou Helena Vieira, que enalteceu ainda a dinamização da conferência “Do Mar à Sociedade”.

«Um evento como este, que se foca no desenvolvimento sustentável e inclusivo, no poder das parcerias entre ciência e sociedade e na importância da tecnologia, é muito relevante no contexto nacional e internacional», concluiu.

Por sua vez, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior começou por alertar que «a deposição de plástico no fundo do oceano tornou-se num dos assuntos mais críticos associados com as alterações climáticas». «Precisamos de cuidar dos oceanos. Não há mais tempo para nos esquecermos disso. Os oceanos tornaram-se um elemento crítico no nosso desenvolvimento sustentável e no nosso futuro comum», reforçou Manuel Heitor.

«O que sabemos é que há três grandes assuntos a ter em atenção. O primeiro é conhecimento novo. Precisamos de fazer mais pesquisa sobre como atingir a sustentabilidade da economia azul, sobretudo em termos de conhecimento transdisciplinar para melhor compreender a relação entre os oceanos e a ciência climática, mas também como podemos aumentar a sustentabilidade dos oceanos. Em segundo lugar, é necessário olhar para novas formas de colaboração entre os setores público e privado, entre investigação e instituições académicas, tudo isto numa ação coletiva. Por fim, sabemos que precisamos de mais métodos de observação e de usar as oportunidades da digitalização da nossa sociedade, através da utilização de sensores e satélites», frisou Manuel Heitor.

Após a sessão de abertura seguiu-se a realização de dois painéis de discussão online, o primeiro sobre a sustentabilidade apoiada no conhecimento e na importância das redes colaborativas europeias para a bioeconomia azul, onde foi unânime que a corporação é a chave para identificar soluções para os desafios globais. O debate contou com as intervenções de Fidel Echevarría, coordenador da Universidade Europeia dos Mares (SEA-EU), Nicolas Pade, diretor executivo do Centro Europeu de Recursos Biológicos Marinhos (EMBRC-ERIC), Matt Frost, presidente da Rede Europeia de Estações Marítimas (MARS); Patrizio Mariani, coordenador da Rede EuroMarine, Ana Rotter, presidente da COST Action Ocean4Biotech, e Miguel Belló, CEO do Atlantic International Research Centre (AIR).

A valorização das identidades costeiras na Europa associadas à sustentabilidade dos recursos e à resiliência social das comunidades piscatórias foi a temática do segundo painel, com destaque para a importância de envolver as comunidades e os stakeholders na proteção dos oceanos. No painel participaram Han Brezet, da AAU Aalborg University (Dinamarca), Robin Teigland, da Chalmers University (Suécia) e do Peniche Ocean Watch, Francisco Spínola, diretor-geral da Liga Mundial de Surf (WSL) para a Europa, África e Médio Oriente, Francisco Saraiva Gomes, CEO do Pontos Aqua, António José Correia, do FORUM Oceano – Cluster do Mar Português, Jorge Abrantes, da FLAG OESTE (Portugal), e Susanne Wedin-Schildt, do Ocean Community Challenge.

Na sessão de encerramento da conferência, Carlos Figueiredo, administrador da Docapesca – Portos e Lotas, começou por salientar que, «tendo uma posição crítica na nossa comunidade costeira, os portos de pesca portugueses são clusters de uma tradicional indústria do oceano e atividades emergentes que providenciam um potencial para a inovação e desenvolvimento». «O centro Smart Ocean, do qual a Docapesca é um membro fundador, é um grande exemplo de como várias atividades se podem juntar na área do porto de pesca. Vai ser uma âncora de desenvolvimento e melhoria do potencial de novas empresas para o negócio do peixe», salientou.

«Vemos os portos de pesca como instrumentos que se relacionam com os lugares e cidades onde estão localizados, polos de inovação e tecnologia do futuro, autossustentáveis e capazes de atrair investimento e capital humano. O nosso objetivo para o futuro é continuar o nosso crescimento e expandir estas atividades, através da criação de hubs e outros portos de pesca. Manter o equilíbrio entre os três pilares da sustentabilidade tem sido uma preocupação da Docapesca nos últimos anos», afirmou Carlos Figueiredo.

Já o vice-presidente da Câmara Municipal de Peniche, Mark Ministro, destacou que «Peniche está a trabalhar fortemente para garantir uma herança do oceano e criar um legado enquanto destino para um futuro azul e sustentável». «Há vários fatores que contribuem para esta visão que temos, sobretudo porque somos abençoados pela nossa localização geográfica, rodeada pela natureza. Além disso, na história de Peniche há um antes e depois da ESTM. Passaram-se 20 anos desde a criação da Escola e a vida em Peniche mudou significativamente, sendo que continuamos a desenvolver-nos com a presença da ESTM neste território», realçou Mark Ministro.

«Quem imaginaria que hoje Peniche aspirava ser uma referência internacional em termos de conhecimento sobre o oceano e uma economia azul e sustentável? Isto é algo que seria inimaginável há 20 anos. O Politécnico de Leiria e a ESTM desafiaram a comunidade a seguir em frente e a desenvolver-se. Conhecimento, tecnologia, inovação, economia azul, economia circular e economia sustentável são palavras-chave que hoje estão bem presentes em Peniche», afirmou o vice-presidente da autarquia.

A encerrar a conferência, Paulo Almeida, diretor da ESTM, enfatizou a «importância que o conhecimento e a tecnologia assumem na gestão e exploração dos recursos marinhos». «Sabemos da importância da indústria azul e da inovação, e o poder das parcerias entre ciência e sociedade. Queremos promover a sustentabilidade da relação entre os humanos e o ecossistema marinho, pois é uma responsabilidade que temos para as próximas gerações», destacou.

«Sabemos o quão importante é a relação entre o desenvolvimento social e a sustentabilidade dos recursos. O Politécnico de Leiria está interessado neste bom uso dos recursos, associado a uma economia azul, e, nesse sentido, começámos a criar um novo mestrado, sobre Economia Azul e Circular, que esperamos poder colocá-lo à disposição da comunidade já no próximo ano», apontou Paulo Almeida.

No âmbito da conferência internacional “Do Mar à Sociedade”, a ESTM acolheu ainda algumas iniciativas culturais durante toda a tarde, nomeadamente um show cooking que ilustrou a gastronomia europeia com base nos recursos do mar, uma visita guiada à exposição fotográfica sobre os oceanos, intitulada “Mãe Nossa”, o relançamento do livro “Do Mar ao Prato”, editado em 2016 e que agora apresenta uma versão bilingue, e a inauguração da exposição “Ilha”.

Fonte: Midlandcom

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