Edição: 264

Diretor: Mário Lopes

Data: 2022/11/26

Sítio arqueológico Abrigo do Lagar Velho alvo de ações de vandalismo

Município de Leiria repudia ato de vandalismo sobre achado de relevância internacional

Reconstituição do Menino do Lapedo

O sítio arqueológico Abrigo do Lagar Velho, localizado no Vale do Lapedo, em Santa Eufémia, foi recentemente alvo de ações de vandalismo, tendo a ocorrência sido comunicada à Direção Geral do Património Cultural e Direção de Cultura do Centro, e formalizada queixa-crime à Guarda Nacional Republicana, no cumprimento da legislação em vigor.

 

Os danos foram infligidos sobre o denominado Testemunho Pendurado, reentrância localizada na parede de fundo do abrigo.

 

O Município de Leiria repudia de forma veemente este inqualificável ato de vandalismo, que atinge um achado de extrema importância no concelho de Leiria e de relevância internacional.

 

Durante a realização de visita guiada ao local no passado dia 06/02/2022, os técnicos do Município identificaram raspagens e extrações indevidas, sendo notória a remoção de cerca de 10 centímetros de espessura do contexto arqueológico e a existência de inúmeros materiais arqueológicos espalhados na base pétrea que sustenta o Testemunho Pendurado e na cota de solo atual do sítio.

 

Recorde-se que a investigação no Abrigo do Lagar Velho iniciou-se após a descoberta, em 1998, de fragmentos ósseos humanos, pertencentes a uma criança com cerca de cinco anos.

 

Centro de Interpretação do Lagar Velho

O enterramento, feito há cerca de 29 000 anos, envolve a presença de uma mortalha tingida de ocre, elementos de adorno feitos com conchas e dentes de veado, e vestígios de carvões de pinheiro, o que deixa antever um cariz marcadamente ritual.

 

O estudo científico deste esqueleto veio revelar a presença de um conjunto de características anatómicas compósitas, correspondentes a Homo neanderthalensis e a Homo sapiens, o que sugeriu a então controversa hipótese de miscigenação entre estas populações. A sequência sedimentar identificada no Abrigo do Lagar Velho integra ocupações do Paleolítico Superior, com cronologias entre cerca de 30 000 a 20 000 anos.

 

O Testemunho Pendurado, com cerca de 60cm de espessura, preenche uma fissura estreita e alongada, na parede de fundo do abrigo cortada pela terraplanagem, e situada 1,2m a 3m acima da superfície artificial do terreno. Os depósitos aqui existentes vieram a revelar contextos arqueológicos datados entre 26 000 e 24 000 anos. Foram identificados abundantes artefactos líticos, entre os quais uma ponta de face plana e dois fragmentos de folha-de-loureiro (artefactos considerados como fósseis-diretores para o Solutrense médio), carvões, termoclastos e vestígios de peixes, anfíbios, mamíferos, répteis e aves.

 

Vele do Lapedo

Desde 2018 têm sido realizadas campanhas anuais de trabalhos arqueológicos no Abrigo do Lagar Velho, no âmbito do Projeto de Investigação “O Abrigo do Lagar Velho e os primeiros humanos do extremo ocidental europeu”, a ser desenvolvido pela Universidades de Lisboa e pela Direção Geral do Património Cultural.

 

O Município de Leiria apoia este projeto de investigação, através da contratualização de consultoria técnica e prestação de apoio logístico às intervenções.

 

Em 2013 o Abrigo do Lagar Velho foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto-Lei nº 17/2013 de 24 de junho (DR, 1ª Série, nº 119) e o Vale do Lapedo como Zona Especial de Proteção (ZEP) pela Portaria n.º 630/2013 de 20 de Setembro (DR, 2ª Série, nº 182). Em 2021, o esqueleto do Menino do Lapedo e artefactos arqueológicos associados foram classificados como bens de interesse nacional, com a designação de «tesouro nacional» (Decreto n.º 14/2021 de 7 de junho).

 

Refira-se que este achado constitui um dos elementos predominantes da candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura em 2027, precisamente pelo valor patrimonial, científico e histórico que representa para a história da evolução humana.

     Fonte: GRPG|CML

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