Edição: 264

Diretor: Mário Lopes

Data: 2022/11/26

«Vir para Portugal e para a região de Leiria foi uma grande oportunidade»

Politécnico de Leiria assegura acolhimento e qualificação de 39 estudantes do norte de Moçambique

António Perez Metelo e Rui Pedrosa

António Perez Metelo e Rui PedrosaO Politécnico de Leiria acolheu, até ao momento, 39 jovens moçambicanos oriundos do norte de Moçambique, em particular da província de Cabo Delgado, flagelada pelo extremismo violento que tem destruído infraestruturas públicas e privadas, nomeadamente instituições de ensino. Os estudantes, que começaram a chegar a Portugal em dezembro de 2021, estão a frequentar um programa de formação de dois anos, através da realização de Cursos Técnicos Superiores Profissionais (TeSP) no Politécnico de Leiria. A cerimónia oficial de receção aos jovens decorreu ontem, dia 8 de março, no auditório dos Serviços Centrais da instituição.

«Fomos muito bem recebidos e acolhidos. O Politécnico de Leiria tem-nos apoiado bastante, assim como os coordenadores de curso e os nossos colegas. É muito importante para nós recebermos essa ajuda, não só em termos do alojamento, mas também em relação ao acolhimento e integração. Para mim, foi muito difícil deixar a minha família e o meu país. Mas eu sabia que vir para Portugal e para Leiria era uma grande oportunidade», referiu Birgite John, uma das estudantes acolhidas pelo Politécnico de Leiria, durante a cerimónia.

A frequentar o TeSP em Práticas Administrativas e Comunicação Empresarial na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS), a estudante salientou ainda que «Leiria é uma cidade muito linda e segura», onde «não nos faltam necessidades básicas, como luz, água ou gás».

Só na cidade de Leiria encontram-se a estudar 24 jovens moçambicanos, tendo 12 sido instalados nas residências do Politécnico de Leiria e outros 12 sido acolhidos em alojamentos disponibilizados pelo Município de Leiria, fruto de um protocolo de cooperação entre as duas organizações. Por sua vez, foram acolhidos seis estudantes em Pombal, quatro nas Caldas da Rainha e cinco em Peniche, instalados em alojamentos assegurados pelas autarquias daqueles concelhos, também resultado da celebração de protocolos de colaboração.

Brigite John

O acolhimento dos 39 estudantes resulta da cooperação entre o Politécnico de Leiria, o Instituto de Bolsas de Estudo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Moçambique, e os Municípios de Leiria, Caldas da Rainha, Peniche e Pombal, tendo ainda sido firmado um acordo específico com o Instituto Camões para apoio complementar ao programa de integração dos estudantes.

«O Politécnico de Leiria, de forma transversal, está a fazer de tudo para que a vossa integração seja a melhor possível e para que possam ter sucesso, na dimensão pessoal e na dimensão académica», afirmou Rui Pedrosa, presidente do Politécnico de Leiria, dirigindo-se aos 39 estudantes presentes no auditório.

«Esta região é distintiva e foi muito fácil construirmos este projeto. Apenas com alguns telefonemas junto dos presidentes de Câmara conseguimos apoio para garantirmos alojamento para todos os estudantes. Na verdade, fomos a única instituição de ensino superior que conseguiu reunir as condições para acolher estes estudantes, porque tivemos estas relações de proximidade com os municípios e com o próprio Instituto de Bolsas de Estudo de Moçambique», salientou Rui Pedrosa.

O responsável salientou ainda que se trata de «um projeto pioneiro», nomeadamente na dimensão de estudantes oriundos de uma zona de emergência e que atravessa um contexto complexo. «Tudo estamos a fazer para que este acolhimento corra bem. Sendo certo que, correndo bem, vamos ter outros jovens a seguir as pisadas e os sonhos destes estudantes, não só no Politécnico de Leiria, mas também noutras instituições de ensino superior em Portugal», referiu Rui Pedrosa, salientando ainda a presença de mais de 70 nacionalidades no Politécnico de Leiria.

Fotografia do grupo de estudantes de Cabo Delgado

Já Carla Caomba, diretora-geral do Instituto de Bolsas de Estudo de Moçambique, começou por destacar que este projeto «é mais um passo importante na consolidação da cooperação bilateral entre Moçambique e Portugal».

«O Governo de Moçambique reconhece que o conhecimento é crucial para o aproveitamento das dinâmicas socioeconómicas que ocorrem no nosso pais. Os investimentos na edução e na investigação, aliados à ciência e tecnologia, são fatores determinantes para catalisar o processo produtivo e a competitividade económica do país», defendeu Carla Caomba, enaltecendo a cooperação e o contributo do Politécnico de Leiria.

«Esta instituição tudo fez para criar condições de apoio para que este acolhimento seja hoje uma realidade. Estamos convictos de que é uma formação condigna que dá competência aos nossos jovens moçambicanos, e sabemos que o Politécnico de Leiria o faz consciente que se trata de um grande compromisso. Esta cooperação vai ajudar a melhorar o sofrimento e aumentar a esperança dos jovens das zonas afetadas pelas calamidades naturais e pelo terrorismo», afirmou.

Em representação do embaixador de Moçambique em Portugal, Joaquim Simeão Bule, a conselheira Maria de Fátima Manso defendeu que «este momento é crucial não só para os estudantes, mas também para as várias forças intervenientes que conseguiram fazer com que este objetivo fosse concretizado». «Vocês estão inseridos numa comunidade e, ao longo do tempo, vão ser confrontados com outras vivências, que vão completar a vossa forma de ser e estar neste país. Vocês são embaixadores de Moçambique e pioneiros, e o país espera muito de todos vós», referiu Maria de Fátima Manso, dirigindo-se aos estudantes.

Gonçalo Lopes, Pedro Pimpão e Vítor Marques, presidentes das câmaras municipais de Leiria, Pombal e Caldas da Rainha, respetivamente, bem como Ana Batalha, vereadora da autarquia de Peniche, intervieram também na cerimónia, tendo sido unânime o orgulho sentido pela concretização de um projeto que contribui para criação de novas oportunidades e para a qualificação destes jovens moçambicanos.

Na sessão foi também assinado o protocolo de colaboração entre o Politécnico de Leiria e a Associação Helpo, que presta apoio às populações mais vulneráveis de países com baixo índice de desenvolvimento humano, através da sensibilização de financiadores que permitam a implementação de programas e projetos nas áreas chave da sua intervenção e que está a apoiar este projeto de acolhimento e integração dos estudantes moçambicanos oriundos de Cabo Delgado.

«Há 14 anos que estamos presentes no norte de Moçambique e é com grande entusiasmo que hoje vejo estes estudantes aqui. Esta cerimónia é mais um passo na caminhada que temos percorrido ao longo das últimas décadas ao nível da relação e proximidade entre os dois países», destacou António Perez Metelo, presidente da Associação Helpo.

A cerimónia contou ainda com a apresentação do Anuário “Estudantes de Moçambique em Portugal 2021”, da Câmara de Comércio Portugal Moçambique (CCPM), a cargo de Rui Moreira de Carvalho, presidente da CCPM.

João Sobrinho Teixeira enaltece contributo do Politécnico de Leiria para a preparação de «cada vez mais pessoas qualificadas e preparadas» no mundo lusófono

João Sobrinho Teixeira

A encerrar a cerimónia, o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, João Sobrinho Teixeira, defendeu que «o Politécnico de Leiria é uma das joias da coroa do ensino superior português. É um dos bons exemplos de uma instituição que conseguiu afirmar-se em termos de quantidade, com cerca de 14 mil estudantes, e que teve a capacidade de se dispersar no território desta região».

«Sinto-me satisfeito de ver a contribuição que o ensino superior e o Politécnico de Leiria estão a dar para os seus jovens e para as suas regiões, para termos cada vez mais, dentro daquilo que é o nosso mundo da lusofonia, pessoas qualificadas e mais preparadas, e um mundo global muito mais resiliente», afirmou João Sobrinho Teixeira.

Dirigindo as suas palavras aos estudantes moçambicanos, João Sobrinho Teixeira salientou que «o maior retorno que podemos ter é o que vocês podem fazer pela evolução da educação e pela valorização que podemos ter em Moçambique, daquilo que pode ser o vosso conhecimento e a vossa evolução. O maior inimigo que temos ainda hoje é a ignorância, que é transversal a todo o mundo. Certamente precisamos de fazer muita modificação em Moçambique para termos muita gente capaz, de modo a fazermos progredir aquele país, para que haja cada vez mais crianças com acesso ao que é básico».

      Fonte: Midlandcom

Comentários:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Ainda não há comentários nenhuns.