Edição: 280

Diretor: Mário Lopes

Data: 2024/3/1

‘Seu nome era Gisberta’ é um filme de animação em 360 graus

Documentário de ex-estudante do Politécnico de Leiria sobre Gisberta e transfobia selecionado para festival americano

Sérgio Roxo

O documentário imersivo ‘Seu nome era Gisberta’, criado por Sérgio Roxo, antigo estudante do Instituto Politécnico de Leiria, acaba de ser selecionado para a programação do festival SXSW 2024, que decorre entre os dias 8 e 16 de março, em Austin, capital do estado norte-americano do Texas.

O documentário apresenta uma experiência imersiva, em Realidade Virtual, sobre um dos casos mais mediáticos de transfobia ocorridos em Portugal: o assassinato de Gisberta Salce. Tem como missão fomentar a educação e proteção de pessoas trans, principalmente em Portugal e no Brasil, agindo como ferramenta para a educação social/cívica e para a promoção do diálogo e a reflexão. O filme imersivo foi realizado com base em entrevistas, um extenso levantamento teórico e uma análise de 68 peças jornalísticas, no decorrer de dois anos.

O projeto de animação em 360 graus, narrado em Português do Brasil, foi realizado no âmbito do mestrado em Comunicação e Media, da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS), tendo obtido a classificação máxima na sua defesa, realizada em junho de 2023. Para a concretização do filme, Sérgio Roxo contou com o apoio do ilustrador Pedro Velho, também antigo estudante do Politécnico de Leiria, e da atriz de voz trans Alexia Vitória.

No ano passado o documentário marcou presença no Dok Leipzig – Festival Internacional de Documentário e Animação de Leipzig e no o Ji.hlava IFF – Festival Internacional de Documentário de Jihlava, na Chéquia, representando o Politécnico de Leiria e a língua portuguesa no mercado dos melhores festivais europeus e internacionais.

“A história de Gisberta Salce, uma mulher trans brasileira, assassinada por um grupo de, pelo menos, 14 jovens no Porto, em 2006, marcou-me não só por ser também uma pessoa LGBTQIA+, mas por ter sido o caso de transfobia mais violento de que há conhecimento público em Portugal. Procurei, neste projeto, trazer parte da história de vida de Gisberta, da forma mais humanizadora e sensível que consegui, criticando o extremo preconceito e desumanização que sofreu, principalmente por parte dos media e do sistema judicial”, explica Sérgio Roxo.

O realizador acrescenta ainda que “as pessoas trans são, ainda hoje, a minoria mais estigmatizada e discriminada pela sociedade em todo o mundo, existindo uma necessidade urgente do seu reconhecimento e proteção. Atualmente, Portugal continua a ser um dos países mais procurados por pessoas trans brasileiras, tendo sido o Brasil, em 2023, pelo 14.º ano consecutivo, o país com maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo”.

“Estes factores, e muitos mais, tornaram especialmente importante aproveitar o meu lugar enquanto pessoa que teve o privilégio de estudar e de ser cisgénero [pessoa com o género em concordância com o sexo biológico atribuído à nascença], para criar um projeto que procure fomentar a educação para a redução da transfobia, esperando que ao contar a história de Gisberta, se possa contribuir não só para a sua humanização individual, mas também para a humanização coletiva de todas as pessoas trans que sofrem sistematicamente preconceito e violência.”

Sobre os principais desafios no desenvolvimento do documentário, Sérgio Roxo aponta a “dificuldade em navegar pelas informações diferentes, e por vezes contraditórias, sobre o que realmente aconteceu”. “Mas o maior desafio foi como retratar a história de alguém que já não pode contá-la. A produção deste tipo de projetos deve deter do maior cuidado ético e ser socialmente responsável, desejando fazer o melhor retrato da pessoa/comunidade, mas também contextualizar o espaço social em que está inserida. Ao mesmo tempo, devemos ter em atenção a potencial reação da pessoa que irá experienciar o espaço imersivo, de modo a não causar repulsa ou perpetuar estereótipos gerados pelo desconforto.”

Do ponto de vista técnico, o realizador realça que o projeto foi realizado “sem qualquer financiamento, dificultando vários aspetos da sua construção”, tendo sido posteriormente criada uma versão em 2D, que pode ser vista em qualquer ecrã, com o intuito de “tornar o projeto o mais acessível possível”.

O documentário estará, em março, em destaque no SXSW, um festival anual que desde 1987 ocupa a cidade de Austin com conferências, debates, cinema e dezenas de concertos em simultâneo, para uma audiência que integra público geral, mas sobretudo figuras da indústria criativa, promotores, editores e agentes, tendo atraído mais de 345 mil pessoas em 2023.

“A seleção para a programação deste festival foi inesperada, ainda para mais sendo um projeto sobre uma temática social, e com uma equipa e orçamento tão reduzido”, refere o antigo estudante do Politécnico de Leiria, salientando ter várias expectativas sobre esta participação: “Relativamente a Portugal, é que esta seleção possa contribuir para o reconhecimento do projeto e que isso possibilite criar mais projetos de educação, intervenção e difusão em articulação com escolas e associações. Relativamente aos EUA, infelizmente, têm vindo a sofrer um retrocesso no que toca aos direitos de pessoas trans, esperando, assim, que este projeto possa contribuir como uma ferramenta de diálogo e reflexão social contra a transfobia enquanto problemática universal.”

Além do SXSW 2024, o documentário foi também já selecionado para participar noutros festivais internacionais, a serem anunciados brevemente.

Sérgio Roxo tem desenvolvido o seu percurso em comunicação e produção audiovisual. Mestre em Comunicação e Media, pela ESECS, e licenciado em Som e Imagem, pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD.CR), tem-se dedicado nos últimos anos à comunicação cultural, colaborando, orientando e produzindo diversos projetos. É especialista em Intervenção Psicossocial Afirmativa para Pessoas LGBTQIA+. Recentemente, tem explorado as potencialidades das narrativas imersivas em produções de não-ficção através dos novos media, aplicando-as como ferramenta de educação e intervenção social.

     Fonte: On-It

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