Edição: 311

Diretor: Mário Lopes

Data: 2026/10/12

Antigo presidente da República de Moçambique entregou o Prémio Fernando Leite Couto no FÓLIO 2026

Joaquim Chissano entrega prémio em Óbidos ao escritor moçambicano Crimildo Matola

Entrega do Prémio Fernando Leite Couto ao escritor moçambicano Crimildo A. Matola

Joaquim Chissano, antigo presidente da República de Moçambique, esteve este domingo, 11 de outubro, na Câmara de Óbidos, a assistir à entrega do Prémio Fernando Leite Couto ao escritor moçambicano Crimildo A. Matola, pelo livro “O último segredo da nação” que, segundo o autor, “representa a luta pela liberdade e pela paz”. De visita ao nosso país e com paragem em Óbidos para dar a conhecer a Fundação Joaquim Chissano, dialogar e aprender, o ex-presidente disse buscar a paz e uma vida digna para os povos.

“Queremos o desenvolvimento humano”. “A cultura é fundamental, mas há pessoas que pensam que cultura é desenho, pintura, escultura, arquitetura. Mas nós, na Fundação Joaquim Chissano, entendemos que a cultura não se pode alcançar se formos ver apenas esses objetos”, afirmou o antigo presidente da República de Moçambique.

“A cultura é a vivência dos homens. É tudo que se passa entre nós, e na sociedade. E isso só se pode conhecer com o convívio”, justificou. Aos 86 anos, Joaquim Chissano assumiu que a comitiva de Moçambique está em Portugal para aprender, e acredita que vão nascer projetos a partir do diálogo com o presidente da Câmara de Óbidos, Filipe Daniel, iniciado em Maputo, quando o autarca visitou o país, em junho, e ao qual querem dar continuidade na vila literária. Após terem estado em Cascais, preparam-se ainda para ir a Coimbra.

“Comecei com a cultura, porque é muito importante para a paz. E a paz é a base da humanidade”, explicou. “A tecnologia é utilizada para fazer guerras, para matar muita gente, através da inteligência artificial, mas queremos utilizá-la para trazer harmonia, paz, progresso e uma vida digna”, acrescentou Joaquim Chissano. “Precisamos de milhões de dados para ensinarmos as crianças e para lhes darmos conhecimento mais rapidamente”, explicou.

Filipe Daniel reconheceu em Chissano “uma figura maior da história de Moçambique e uma voz de referência no compromisso com a paz, o diálogo e a reconciliação”. Considerou assim que, ao associar-se à cerimónia, “honra a cultura moçambicana, prestigia os seus criadores e confere especial significado ao caminho de cooperação” que tem vindo a ser construído.

“A sua presença reconhece também que uma comunidade de pequena dimensão pode participar num diálogo internacional relevante e duradouro”. “A geografia coloca-nos a milhares de quilómetros de distância. A cultura permite-nos conhecer o que essa distância, por si só, nunca revelaria. Ligam-nos a língua portuguesa, os encontros entre os nossos povos e uma história que importa conhecer em toda a sua complexidade”, afirmou Filipe Daniel.

“Une-nos, sobretudo, a possibilidade de escolhermos o que queremos construir em conjunto, com respeito pela identidade, pela autonomia e pelas aspirações de cada comunidade”.

Dar visibilidade a novos escritores

Joaquim Chissano

O Município de Óbidos tem uma parceria, desde 2017, com a Fundação Fernando Leite Couto, orientada para a valorização da literatura moçambicana, apoiando novos autores e aprofundando a cooperação cultural. “Ao apoiar a criação e ao dar visibilidade a novas vozes, contribui para que o talento encontre leitores, interlocutores e condições para crescer”, afirmou o autarca. “A residência literária em Óbidos dá lhe uma expressão particularmente valiosa, ao proporcionar ao escritor tempo e espaço para criar, conhecer o nosso território e estabelecer contacto com a comunidade”.

No próximo sábado, dia 17, o FÓLIO integra na sua programação o Dia de Moçambique, através da apresentação de quatro livros de autores locais: Daniel David, Rui Motty, Otildo Justino Guido e Stewart Sukuma.

“Queremos que cada encontro dê origem a outros encontros e que cada oportunidade de leitura desperte a vontade de conhecer mais”, referiu Filipe Daniel. Quanto a Crimildo Matola, manifestou o desejo de que o Prémio Fernando Leite Couto seja um “estímulo para continuar a escrever com liberdade e exigência, fiel ao seu olhar e àquilo que entende ter para dizer”.

Rui Moreira de Carvalho, presidente da Câmara de Comércio Portugal Moçambique, desafiou Crimildo Matola a “pensar maior do que somos, quer portugueses, quer moçambicanos”, e destacou Óbidos. “Vamos fazer um filme da viagem a Portugal e vai ser um exemplo de como se consegue fazer e fazer bem”, sublinhou.

A este propósito contou que, quando Joaquim Chissano perguntou a Filipe Daniel como é que uma vila com poucos habitantes conseguia fazer tanto, o autarca “respondeu de forma sábia: trabalhando e fazendo trabalhar”.

Crimildo Matola revelou que “O último segredo da nação” é um resumo da história de Moçambique, nos anos 50 e 60, na caminhada rumo à independência, e representando a luta pela liberdade e pela paz.

Satisfeito por estar no festival literário de Óbidos a “celebrar as culturas moçambicana e lusa, unidas pela língua portuguesa”, evidenciou a importância da residência literária no seu percurso de “grande construção”, e agradeceu o prémio a todas as entidades, em especial a Rui Moreira de Carvalho, por “permitir a maior circulação do livro em Portugal e não só”, e ao dar um “empurrão” à literatura moçambicana.

    Fonte: SA|GCD|CMO

 

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